Papo de Cozinha
Salaam Shalom, Ka Mandi 1   

Breno Lerner *



 

 

Uma comunidade judaica pouco conhecida e muito antiga, praticamente a única da história a não conhecer o anti-semitismo.
Você conhece pratos tradicionais da culinária judaica com os nomes de Macalcal, Chitarnee, Arrok, Mukumura? Não?
Pois fique sabendo que são receitas com aproximadamente 2.000 anos de idade, provenientes dos judeus da Índia, uma comunidade riquíssima em história e tradição, que hoje não conta com mais do que 5.000 pessoas.
Existiram 3 grandes grupos dos quais restam poucos representantes e, curiosamente, um novo grupo apareceu na década de 50 do século XX.
Tudo começou com os cochins que, supõe-se, chegaram à Índia há 2.500 anos atrás, provavelmente emigrados da Terra Santa, após a destruição do Primeiro Templo. Estabeleceram-se inicialmente na costa de Malabar, assimilaram a cultura local, inclusive a língua malaia, trajes e alimentos. Tornaram-se mercadores, principalmente de pimenta do reino, o que acabou por decretar uma forte perseguição a eles por parte dos portugueses, então invasores da região a partir de Goa. Sendo este o único caso de perseguição a judeus na Índia. Como sempre na história judaica, não bastasse seus problemas externos, ainda deram-se ao luxo de se dividir entre Paradesi, ou judeus brancos e os Desi, os judeus negros.
Os Paradesi chegaram à Índia por volta do século XIII vindos da Espanha eram a minoria, mas dominavam o grupo Cochim. Os Desis eram os habitantes históricos que por sua miscigenação com os locais tinham pele mais escura e eram a maioria dos Cochins.
Relatos de Marco Pólo (1239) e Benjamim de Tudela (1167) contam a existência de judeus na região.
Já os Bene Israel, chegaram à Índia há 2.100 anos atrás, aparentemente como vítimas de um naufrágio. Alega sua tradição que 7 homens e 7 mulheres, descendentes de uma das 10 tribos, sobreviveram a um naufrágio nas costas de Maharashtra, onde se estabeleceram. Curiosamente ficaram escondidos e ignorados pelo mundo todo até meados do século XVIII, quando os Cochins os descobriram pelo fato de observarem o Shabat, comerem apenas peixes sem escamas e rezarem o Shema, únicas palavras em hebraico que conheciam e repetiam sem saber o que significavam.
Os Bagadadhi chegaram há 250 anos atrás, vindos principalmente do Irã e do Iraque, estabeleceram-se como comerciantes nas cidades de Bombaim e Calcutá e chegaram a 5.000 pessoas, sendo a comunidade com mais ricos e milionários dentre os judeus. A maioria emigrou para a Inglaterra e Canadá, hoje não passam de 200 pessoas.
Na década de 50, apareceram os Bnai Menashe, duas tribos da região de Manipur, os Mizu e os Kuki, que alegam ser descendentes de Menasseh, filho de José. Explicam seus forte traços asiáticos por sua história, pois teriam saído de Jerusalém até a China e de lá para a Índia. Estão em um forte movimento de retorno ao judaísmo, movimento este que é aceito por alguns rabinos de Israel e rejeitados por outros.
Vamos conhecer uma de suas receitas:

Chitarnee (Galinha agridoce)
Este prato é da região de Calcutá, pois lá não havia Shohet, apenas em Bombaim. Assim, o que era feito com carne em Bombaim, era feito com galinha em Calcutá. O shohet visitava a cidade apenas no Rosh Hashaná.
1 kg de cebolas raladas;
3 dentes de alho esmagados;
1 ½ colher de chá de gengibre ralado;
1 colher de chá de curcuma;
1 ½ colher de chá de coentro em pó;
1 colher de chá de canela em pó;
½ colher de chá de cardamomo moído;
2 folhas de louro;
6 filés de peito ou sobrecoxa de galinha cortados em cubos;
½ kg de tomates sem pele e sementes picados;
2 colheres de sopa de vinagre;
2 colheres de sopa de açúcar;
Sal e pimenta do reino à gosto.
Em uma panela grande doure a cebola em 3 colheres de sopa de óleo. Mexa ocasionalmente até amolecerem e dourarem. Acrescente o alho, gengibre, todos os temperos e louro, cozinhe por mais 3 minutos. Coloque então a galinha e cozinhe por 10 minutos, para dourar bem os pedaços. Acrescente os tomates, baixe o fogo e deixe cozinhar até evaporar todo o líquido (+/- 30 minutos). Coloque o açúcar e o vinagre, corrija o sal, se necessário, e cozinhe em fogo bem baixo por mais 10 minutos. Sirva com arroz branco.

1. Paz no nosso tempo
* Breno Lerner é editor e gourmand, especializado em culinária judaica. Escreve para revistas, sites e jornais. Dá regularmente cursos e workshops. Tem três livros publicados, dois deles sobre culinária judaica.