Quem com ferro mata…
Por: Paulina Gamus *


A arma imprescindível de todo autocrata que pretende perpetuar-se no poder é o terror. Cada pessoa submetida a esse regime, consciente de que dissentir, manifestar e até falar pode acarretar-lhe prisão, torturas ou a morte; vai-se fechando em si própria e começa a olhar para os lados antes de proferir uma palavra que possa parecer crítica aos governantes. Já não se confia no vizinho, no companheiro de trabalho nem sequer na própria família: qualquer um pode ser delator obrigado a isso pelo mesmo terror que a ditadura infunde. Na medida em que esse medo coletivo aumenta, crescem também a crueldade e a arrogância do autocrata; acha-se todo-poderoso, um sinal, qualquer gesto até um olhar seu bastam para que seus sequazes entendam a ordem de reprimir, bater, encarcerar ou assassinar.
O que serve de consolo ao povo esmagado por estes déspotas é saber que o medo que eles padecem é talvez pior que o que infundem aos seus governados. Quanto maior é seu poder, quanto mais arbitrárias são suas ações, quanto mais indivíduos, grupos ou setores são atropelados, maior é o temor da reação em forma de raiva revanchista. Então rodeiam-se de guarda-costas, usam coletes a prova de balas, já não se atrevem a comer um bocado de nada sem que alguém prove antes essa comida, já não se deixam tocar ou dar a mão a esse povo que diziam amar, já não dormem tranquilos. O fantasma do magnicídio os persegue e o espanto pela possível vingança popular os consome.
Nosso aprendiz de autocrata embriagado pelo poder, crê-se até agora capaz de passar com um trator por cima de todos os direitos dos cidadãos para esmagá-los e transformá-los em papeizinhos. Os atropelos que durante seus primeiros sete anos de
governo foi praticando de maneira lenta e calculada para não alarmar muito sobre seu projeto político oculto; se transformaram a partir das eleições de 3 de dezembro de 2006, numa metralhadora disparando ameaças que em pouco tempo se faziam realidade. Foi com um fuzil kalachnikov recém-adquirido do imperio russo de Vladimir Putin e apontando para uma câmara de televisão, que no ano pasado lançou seu primeiro edito contra as televisões privadas em geral e a Rádio Caracas Televisión em particular. E foi diante de seus inferiores militares reunidos em Fuerte Tiuna, em dezembro, que sentenciou à morte definitiva desse canal. Aqueles que acreditavam que o Supremo Tribunal de Justiça se atreveria a desafiar o amo, pecaram mais que os ingênuos e os que pensaram que Chávez retrocederia ante as reações internacionais, não conhecem a psiquê do personagem. A característica predominante do narcisismo e da megalomania é a crença de que não existe poder algum superior a quem os faz sofrer.
Mas quem irá dizer ao nosso tenente-coronel, comandante en chefe, líder máximo da revolução e presidente, que o tiro saiu-lhe pela culatra justamente no seu quartel, esse que ele acreditava ter sob absoluto controle? A retirada do ar da RCTV não só produziu indignação nessa metade da população, a que ele despreza, como também na desses morros e bairros que imagina aliados incondicionais para a eternidade. É que além deles, despertou essa massa adormecida de indiferentes, ou pouco participativa que são os jovens estudantes de todo o país. O terror começou a se fazer sentir entre os deputados da Assembléia Nacional, sobretudo nesse dupla de tránsfugas de um hospital psiquiátrico que formam a liga Tascón-Varela. Pediam aos seguidores do chefe para invadir os núcleos urbanos onde vivem os ricos, os oligarcas, pois.
O ministro Willian Lara, com sua fala arrastadiça no afã de parecer culto e diferenciar-se da baixaria de seus companheiros de estrada, e Pedro Carreño, quem confirma que o quociente intelectual não importa para ser ministro de polícia; já não encontravam a quem culpar pelos protestos estudantís: Marcel Granier, presidente da fechada RCTV, o Império, os agentes de Bush, a oligarquia, a conspiração mediática, a oposição golpista. O fato de que — por sorte — não aparecesse uma só dos rostos hartamente conhecidos dos dirigentes opositores nas manifestações, não os desanimou em seu afã de justificar a explosão juvenil.
Quando apareceram na tela da Globovisión os estudantes da Universidade das Forças Armadas, a menina dos olhos do governo militar de Chávez, somados aos protestos, o medo deve ter provocado cólicas com suas desagradáveis conseqüências aos governistas. Foi então que Chávez apareceu em cadeia nacional, vestido de vermelho e suando, para instar também os seus revolucionários dos morros a descerem dali e defender a revolução. O chamado para um massacre seguro, como o qualificou um deputado chavista com alguna sensatez, felizmente não teve eco. Salvo os capangas assalariados de sempre, semeando o pânico na Avenida Francisco de Miranda, de Caracas, não teve sequer uma só pessoa do eleitorado chavista que saísse para enfrentar os jovens manifestantes. A repressão brutal ficou para as bombas de lacrimogêneo e tiroteios da polícia do prefeito Juan Barreto.
Deve ser terrível, deprimente, desestabilizador para alguém que sofre de narcisismo e megalomania (não sei se são sempre coincidentes) defrontar-se, não só com o levante de seus oprimidos, como além disso, com a tormenta internacional que seu ato arbitrário desatou. Nem López Obrador no México, nem o parlamento nicaragüense, nem, os amigos de alma Lula da Silva, Evo Morales e Néstor Kirchner respaldaram a
guilhotina chavista aplicada à emisora de TV mais antiga da Venezuela. Isso para não
falar dos editoriais, artigos de opinião e fotografias das passeatas e da repressão policial que apareceram nos jornais e televisões do mundo inteiro.
O rei ficou mais que nu, desmascarado. E o que se vê em sua expressão ao cair a máscara, é o medo. Como medo têm todos os que são cúmplices de seus abusos, atropelos e vandalismo institucionalizado. E isso é suficiente para levantar o ânimo, por ora.

* Paulina Gamus é venezuelana, advogada, e foi vice-presidente da Ação Democrática, partido pelo qual em 1998 foi Coordenadora do Programa de Governo da agremiação. É jornalista e colunista desde 1969 em diversos jornais e revistas venezuelanas. Foi juíza suplente de menores, chefiou a Divisão de Menores do Corpo Técnico da Polícia Judicial até ser Ministra da Cultura, entre 1984 e 1986. Foi secretaria executiva da Comissão Feminina Assessora da Presidência da República (1974-75), diretora de Informação do Ministério da Educação (1975-78), vice-ministra da Informação e Turismo (1978) e vereadora pela Ação Democrática na Câmara Municipal de Caracas (1979-83). Em sua atividade parlamentar Paulina Gamus presidiu as Comissões de Política Interior (1989-94) e da Controladoria (1994-97) da Câmara dos Deputados, e foi senadora pelo Estado de Cojedes (1998-99). Publicado no site www.porisrale.org