Seria absurdo, mas é real; alguém se levanta de manhã, escuta as notícias no rádio, vê as imagens pela TV, acaba de ler e reler quase todos os jornais, semanários e revistas e não tem mais remédio que chegar à complicada conclusão de que há só um ítem, apenas um, capaz de formar coalizões tão estranhas que conseguem reunir sob um mesmo teto Hugo Chávez com Jacques Chirac, Fidel Castro com Rodríguez Zapatero, Irã com a União Européia, Grã Bretanha com a Coréia do Norte, o Granma com The New York Times ou Izvestia com qualquer jornal espanhol, boliviano ou a BBC… Problemas ecológicos? De forma alguna. A fome no mundo? Não, que seja!... É Israel ao agir.
Assim, como "a gata de Dona Flora", qualquer manobra que faça o Estado judeu, provenha esta de tal ou qual orientação política, quase sempre estará sujeita a críticas parciais, mal-intencionadas e unilaterais tanto dos diferentes meios como dos governantes e políticos de plantão.
Aparentemente, se todo o mundo critica ou condena, alguém pensa… Bem, algo deve haver… Nunca há fumaça sem fogo…
Entretanto, aqueles que são um pouco obstinados, aos que custam entender essas coalizões repentinas e estranhas, perguntam-se: se por um lado, quando Israel reage contra atos terroristas com mão dura, da mesma forma que faria qualquer país civilizado que se considere responsável pela segurança de seus cidadãos, atua de forma irresponsável, e de outro, quando abandona territórios conquistados com o objetivo de reativar um agônico processo de paz também é censurado, o que realmente está acontecendo?
O que pode explicar então tais críticas constantes da maior parte da Comunidade Internacional contra Israel?
Os terroristas palestinos do Hamas, amparados por um governo eleito democraticamente, responderam à retirada dos colonos israelenses de Gaza em 2005, disparando constantemente foguetes Kassam contra cidadãos dentro de Israel. Há um ano mataram dois soldados, seqüestraram um terceiro, assassinaram a sangre frio um civil e prometeram continuar fazendo o mesmo a outros.
O Hezbolá há um ano irrompeu com um intenso bombardeio de foguetes Katiushas sobre cidades e populações ao longo da fronteira internacional entre Israel e o Líbano determinada pela ONU, a qual gozava de uma relativa calma desde 2000, após a retirada das forças judias. Ainda assim, o Hezbolá violou as leis internacionais invadindo o território israelense, assassinando e seqüestrando soldados.
Seria de esperar que estes ataques terroristas contra Israel fossem vistos pelas nações responsáveis de maneira similar à violência jihadista que somos testemunhas diárias em todo o mundo, ou seja, como os islâmicos radicais que decapitam diplomatas russos na Chechênia, como o extermínio de milhares de vítimas inocentes em Nova York, Madri, Londres, Paris, Istambul ou Singapura, entre outros, ou como os que ameaçam com assassinatos por causa das caricaturas dinamarquesas.
Mas esse não é o caso em absoluto. Israel é observado sempre como uma estranha exceção que, por alguma razão, faça o que faça, merece o que lhe acontece.
Outros estados podem responder com impunidade, torturando ou matando de maneira brutal milhares de terroristas muçulmanos, enquanto Israel é condenado quando abate quem continuamente planeja feri-lo. Quando no final de 1999 os russos entraram à força em Grozny, milhares de muçulmanos da Chechênia morreram; mas a imprensa permaneceu praticamente em silêncio. Tanto a Síria de Hafez e Bashar al-Asad como o Egito de Anwar Sadat e de Hosni Mubarak observam há dezenas de anos os grupos da Irmandade Muçulmana, destruindo suas células e matando talvez a mais de 10.000 pessoas. Eles não provocam muitas resoluções da ONU ou esforços internacionais para ajudar os perseguidos.
Até hoje, ninguém conhece a horrível cifra exata dos cadáveres por causa da insurreição islâmica na Argélia. Darfur, no Sudão, recebe por fim espaço na televisão de tempos em tempos, mas só depois que dezenas de milhares pereceram. Mas isso sim, o cerco à cidade de Jenin, na Cisjordânia, por parte de Israel em 2002, onde menos de 80 pessoas morreram no total, em ambos os lados, foi evocado como "genocídio" por parte dos mesmos que, no Oriente Médio, sempre negam o verdadeiro genocídio que ceifou as vidas de 6 milhões de judeus.
Quando Israel responde ao terrorismo por ar, é rotulado pela imprensa como "blitz", como se fosse comparável ao bombardeio em massa nazista de Londres durante a Batalha da Inglaterra.
A cerca de segurança fronteriça de Israel, que consegue diminuir os ataques terroristas, é denominada de "Muro de Berlim" pelos meios de comunicação espanhóis ou americanos, mas nunca se os vê descrever da mesma maneira a enorme e sofisticada paliçada erguida pela Espanha em Melila para manter distante a miséria africana ou a cerca eletrônica colocada pelos EUA na sua fronteira com o México, tão longa como a esperança dos pobres chicanos que vêm nos miseráveis dólares que recebem dos gringos sua continuidade existencial.
Depois está a ferida aberta, gangrenada e terrivelmente dolorosa dos territórios ocupados na Cisjordânia; mas esquecendo constantemente que toda uma série de guerras feitas para destruir Israel se originaram, em parte, da "Palestina", ou que Israel entregou terra adquirida na guerra em sua estratégia continua de "terras por paz".
O que há de tão especial na Cisjordânia que engole todas as demais crises por causa de espaços em disputa - desde ilhas como Chipre ou as Malvinas até países inteiros como o Tibet? Porque o pequeno Israel tem mais resoluções condenatórias da ONU que todas as firmadas contra as demais nações do mundo juntas?
Não é que Israel seja um estado criminoso. Durante mais de meio século tem sido a única democracia liberal no Oriente Médio; seu sistema judicial é invejável; os cientistas israelenses deram ao mundo uma infinidade de elementos com os quais é possível melhorar as atuais condições humanas de vida, desde os avanços mais sofisticados na medicina, na biologia, na ecologia ou na informática até a tecnologia das irrigações por gotejamento, entre outros.
O petróleo explica parte desta estranha discrepância em como o mundo vê determinados países. Desvia-se da política. Reduzam vocês o petróleo árabe e iraniano — e portanto o risco de outro embargo petrolífero ou elevação de preços manipulados — e os temores ocidentais aos estados petroleiros do Oriente Médio se desvanecerão. O mero interesse próprio determina a política externa da maior parte das nações.
O tamanho de Israel é também outro fator. Israel tem uma população não muito superior aos 7 milhões de habitantes e está rodeado por cerca de 350 milhões de árabes muçulmanos. A maior parte do mundo conta uns e outros e ajusta suas posturas em conseqüência.
O antigo anti-semitismo é, claro, outro ingrediente que explica a animada aversão mostrada contra Israel. Os sensíveis multiculturais ocidentais nem sequer se preocupam que seus aliados árabes retratem com freqüência os judeus como porcos ou macacos nos meios de comunicação controlados pelo Estado. Obras odiosas como "Mein Kampf" ou "Os Protocolos dos Sábios de Sião" ainda são vendidos até esgotarem-se na Palestina, e o dinheiro iraniano e do Golfo continua subvencionando uma mini-indústria de revisionismo do Holocausto.
Finalmente, como já sabem os norte-americanos por sua própria fronteira do sul, no mesmo momento em que uma nação bem sucedida de caráter ocidental limita com um país mais pobre do Terceiro Mundo, as emoções primordiais como a honra ou a inveja nublam a razão.
Assim, ao invés de reconhecer que a democracia de corte ocidental, as liberdades pessoais ou a igualdade diante da lei explicam porque um Israel próspero e estável se levantou do pó e das pedras, os palestinos em particular e o mundo árabe em geral têm fixação com o sionismo, o colonialismo e o racismo. Não é de estranhar que o façam; sem este bode expiatório, teriam que enfrentar diretamente um tribalismo intratável, o apartheid do sexo, o terrorismo interno e o fundamentalismo religioso, enquanto constroem uma sociedade aberta baseada no mandato da lei.
Em certo sentido, os valores e o êxito de Israel recordam, sobretudo, a epopéia americana ao longo de 230 anos com seus altos e seus baixos, seus êxitos e seus fracassos, suas forças e suas debilidades, seus acertos e seus erros.
Cada uma das razões aqui mencionadas não poderiam por si só determinar a dita relação crítica e uma condenação constante da Comunidade Internacional para com o Estado de Israel.
Em troca, a união de todas elas possibilita que a síndrome da "gata de Dona Flora" se apodere dos países mais civilizados, de seus dirigentes, de seus políticos, de seus intelectuais, seus acadêmicos e sua imprensa escrita ou eletrônica, a qual, depois de tudo, precisa de leitores, ouvintes e telespectadores para poder competir dentro de um mundo dirigido pela liberdade de mercado.
O fundamental é não esquecer nunca que na multifacetada e feroz selva do mercado livre, as galinhas estão livres e as raposas também.
* Alberto Mazor é argentino, mas em 1967 emigrou para Israel, onde vive no Kibutz Meter, fundado por olhem (imigrantes) argentinos. É licenciado em Ciências da Educação, História, História do Povo Judeu e Filosofia na Universidade de Afia, onde é catedrático nessas matérias. Educador e professor com mais de 25 anos de experiência em trabalho educativo formal e informal especialmente com adolescentes, dirigiu o Departamento Latino-americano de o Kibutz Arte Assumir Atrair (1993-1997). Foi sheliach da Organização Sionista Mundial no México e do seu Movimento Juvenil Dor Chadash (1980-1984), representante da Agência Judaica para o México e América Central (2000-2002). Escritor e jornalista, publicou artigos em diferentes jornais e revistas da Espanha e América Latina. No ano passado a Editorial Mila, de Buenos.Aires publicou seu último livro: "Dois anos no deserto" (poemas escritos em Israel).