Outubro de 1917 - Esperanças e ilusões de uma geração
Por: Sérgio Feldman *

Há noventa anos estava em vias de eclodir a Revolução de Outubro. Que, aliás, ocorreu em novembro, visto na Rússia Czarista ainda vigorar o calendário Juliano. Um sonho de redenção da humanidade e uma ilusão de que o final da opressão dos judeus da Europa Oriental estaria em vias de ocorrer. Grandioso e trágico momento.
O czar, que era o símbolo vivo do autoritarismo tirânico do povo russo e a um tempo, também, encarnação da opressão sem travas, dos judeus do vasto Império dos Romanov, estava sendo derrubado e se previa a aurora de uma nova era. A utopia socialista se consolidava como uma realidade próxima: os oprimidos estavam tomando o poder e iam criar uma república aonde reinaria a justiça social e a liberdade para todos.
Gerações de judeus haviam sofrido sob o tacão cruel dos czares: pogroms, restrições de locomoção, numerus clausus nas universidades, convocação forçada ao exército por 30 anos com intenção de converter os judeus (cantonismo), e muitas políticas severas e cruéis durante todo o século XIX e nas duas primeiras décadas do século XX. O apoio à Revolução, ou pelo menos a simpatia à mesma, era uma reação justa e adequada: o que poderia ser pior ou igual à crueldade e a violência dos czares? Um sonho de Redenção pousou no íntimo de muitos corações judaicos: estava vindo o tempo de justiça social e de paz previsto pelos Profetas, mas de uma maneira “laica” através do socialismo de Lênin e seus bolcheviques. A utopia da Redenção por vias laicas era comum entre os judeus europeus que acreditavam em solução política da questão judaica: seja pela democracia, ou pelo socialismo, muitos haviam laicizado seu sonho messiânico. A militância judaica no socialismo europeu era muito grande, bem maior que sua proporção na sociedade de maneira percentual. A adesão ao sonho de Redenção via URSS, ou na vertente oposta, via sionismo socialista eram duas maneiras antagônicas, mas que espelhavam modelos políticos esquerdistas que almejavam a solução da questão judaica.
O início deste processo foi difícil, mas ainda assim repleto de esperança. A pobreza após a Primeira Guerra e nos anos da Revolução, e intervenções de “brancos” (reacionários) e de ocidentais, deixaram a recém-criada União das Repúblicas Socialistas Soviéticas em estado de penúria. Lenta a gradualmente, a URSS se reergue e direciona seus olhos para seus cidadãos judeus. Projetos são executados: jornais e livros são editados em iídiche. O teatro judaico tem estímulo e a cultura judaica se eleva a um patamar elevado.
Morre Lênin e em seu lugar assume Stalin, que supera o sucessor provável que seria Trotsky. Stalin concebe uma estratégia para “divergir” e neutralizar o projeto sionista. Um estado judaico em território soviético que seria criado no extremo leste do território soviético, na fronteira com a China, a qual ele temia, e que queria neutralizar. Um local ermo, de péssimas condições e de acesso difícil. Ainda assim, um entusiasmo se acendeu entre os judeus esquerdistas de todo o mundo: a redenção estava em vias de ser executada na pátria do socialismo. Era o projeto de Birobidjan, que criaria uma República Soviética judaica nos confins asiáticos da URSS. Coletas de dinheiro foram feitas, voluntários mal-informados e idealistas se ofereceram para colonizar e criar a pátria judaica nos extremos da Sibéria. O projeto era de difícil execução e há quem acredite nas más intenções de Stalin: pouca chance de dar certo devido à falta de estrutura e as más condições do lugar. O fracasso só foi constatado nos anos sessenta. Na Segunda Guerra Mundial o local serviu de refúgio a muitos judeus que fugiam do nazismo.
O pior ainda ocorreria: a paranóia de Stalin fez muitas vítimas entre políticos e militares. Como entre a Velha Guarda dos “bolcheviques” havia muitos judeus, Stalin os defenestrou, entre muitos outros acusados de traição, espionagem e sionismo.
Os processos stalinistas não eram direcionados apenas contra judeus: muitas vítimas da sanha vingativa de sua doentia paranóia eram revolucionários fiéis e idealistas dedicados à causa do socialismo. Stalin teve responsabilidade na morte de muitos milhares de pessoas: não há consenso, mas se admite que devam ter perecido sob o “Gulag” stalinista cerca de 500 mil judeus. Há cifras divergentes que calculam em um milhão de vítimas judaicas, mas estas são contestadas por autores esquerdistas e questionadas por outros.
Nos anos 40 e 50 do século passado, muitos debates dividiam as comunidades judaicas do Brasil: os clubes e associações esquerdistas defendiam a URSS e a política stalinista diante da maioria dos componentes das kehilot que acusavam Stalin de crimes políticos contra os judeus e até de ser uma versão “à esquerda” do genocídio nazista. Exageros a parte, a postura de Stalin era contraditória: apoiou a criação do Estado de Israel (1947/1948) e oprimiu os judeus soviéticos neste período de maneira cruel e, por vezes, sanguinária. A morte de Stalin não fez cessar o mal-estar judaico em relação ao fato que o “sonho de Redenção” se esvaia. A rua judaica seguia em polvorosa: nem o Congresso do PCUS, que condenou Stalin e seus crimes, realizado em meados da década de 50, acabou a polêmica. Os judeus esquerdistas acreditavam que se tratasse de propaganda da guerra fria, manipulada pelos EUA. Só aceitaram os fatos muitos anos mais tarde.
A luta pela imigração dos judeus soviéticos a Israel teve momentos de tenacidade e de heroísmo. Iniciada nos anos setenta do século passado, culminou com a Perestroika de Gorbachev, que praticamente abriu as portas da URSS aos judeus de todo tipo: legiões de judeus assimilados por três gerações, aos quais foram agregados não-judeus oportunistas que imigravam para Israel e de lá à Europa e aos EUA em busca de melhores condições. Esta imigração, que teve altos e baixos, mas que fortaleceu Israel no sentido demográfico, criou um fato consumado: graças aos judeus russos se pode afirmar que tem-se em Israel, uma densidade populacional que consolida a presença judaica no Oriente Médio.
No que tange à Revolução bolchevique, e o sonho de Birobidjan, fica uma triste e delicada lição: cada um deve cuidar de seu próprio destino. Israel pode não ser perfeito, e nem ter resolvido a “questão judaica”, mas se consolidou como uma democracia responsável, moderna e pluralista. Conflitos com os palestinos e os países árabes, e com o Irã, geram preocupação. Já a estabilidade das instituições e do sistema democrático israelense são motivo de satisfação, mesmo tendo que ser aprimorados e revistos a todo tempo. Se a Redenção não ocorreu no Estado sionista, pelo menos gerou certa estabilidade e um Estado que pode servir de referência em muitos âmbitos, desde a tecnologia, até a exportação de métodos educacionais: “Ki miTzion tetze Torá udvar HaShem meIrushalaim” (Que de Sion sairá a Torá e a palavra de D-us de Jerusalém”). O sonho não acabou e tampouco se consumou de maneira plena, mas mesmo sujeito a críticas e reflexões, está claro que não se consumará em Birobidjan.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.