Tradição, Tradição....
Com a chegada das grandes festas, os costumes e tradições são lembrados também na cozinha.
Por: Breno Lerner *


Estão aí os Iamin Noraim, as grandes e temíveis festas e, meu querido editor me lembra que o artigo deste mês deveria ser alusivo a Rosh Hashaná e Iom Kipur.
Bem o que falar sobre tudo que já foi falado? Que novas receitas e novos hábitos culinários?
Aí nos salva a tradição. Por que não contar os diversos hábitos, costumes e tradições ligados à cozinha das grandes festas?
Então, aí vão os que consegui pesquisar:
Comecemos pela Chalá, normalmente reta e trançada durante o ano, no Rosh Hashaná ela é redonda, lembrando-nos o ciclo da vida neste dia onde temos de ter a exata consciência do começo e do fim de tudo.
Algumas comunidades antigas moldavam as chalót em forma de escada, numa alegoria à Escada da Vida, todos os anos, alguns sobem e alguns descem as escadas da vida.
No Iom Kipur, algumas comunidades decoram as chalót com figuras de pássaros ou asas feitas com a mesma massa, expressando sua esperança de que nossas preces cheguem aos céus tão rápida e facilmente como as criaturas aladas tem facilidade de voar.
No Shabat e outras festas, costumamos partir as chalót e passá-las em sal antes de comê-las. No Rosh Hashaná é passada no mel ou, na sua ausência, em açúcar, para garantir um ano doce. É também costume sempre colocar uvas passas nas chalót de Rosh Hashaná, para aumentar seu sabor doce.
As Maçãs e o mel
O costume é antigo, mergulhar um pedaço de maçã no mel e falar Seja o “Seu” desejo nos entregar um ano novo bom e doce.
O uso do mel, já explicamos acima, está ligado ao ano doce. Já o uso da maçã é mais complicado e simbólico . A palavra hebraica para maçã é tapuach, cujo valor numérico equivale à expressão Sekh Akeida, que quer dizer algo como Cordeiro do Aliança. Na história de Abrão, D-us o manda sacrificar seu filho Isaac e, no último momento um anjo segura a mão de Abrão e um cordeiro é sacrificado. Segundos antes Isaac teria perguntado a seu pai: Temos todos os objetos necessários para um sacrifício mas onde esta o cordeiro? Pelo silêncio do pai, Isaac entende que ele seria o Cordeiro da Aliança.
Contam nossos sábios que todo este episódio teria ocorrido em Rosh Hashaná e, ao comer a maçã, simbolicamente, expressamos nosso desejo de que o mérito gerado pela devoção de Abrão e a coragem de Isaac continue por gerações até hoje e nos ajude a garantir um bom e doce ano novo.
Alho Porro
Seu nome em aramaico é Karti que em hebraico é entendido como cortar. Come-se um pedaço de alho porro e diz-se “Que nossos crimes e pecados sejam eliminados”.
Beterrabas
Em aramaico, as beterrabas recebem o nome de Salka que, em hebraico virou Selec que também quer dizer remoção. É costume comer beterrabas e dizer “Que meus inimigos sejam afastados”. Importante, neste momento de dor em que vivemos, lembrar que pedimos que nossos inimigos sejam afastados e não destruídos.
Feijão Torto ou Vagem
São chamados de Rubiyah, que também quer dizer crescer, aumentar. Comemos uma vagem e falamos “Possam nossos méritos aumentar”.
Romãs
Pega-se metade de uma romã e fala-se “Que seja o ‘Seu’ desejo que nossos méritos sejam tão numerosos quanto as sementes desta romã”.
A explicação é bem interessante: A Torá nos ordena 613 mandamentos, 248 positivos, como os ossos de nosso corpo e 365 negativos como os dias do ano. Bem, estima-se que uma romã média tenha 613 sementes. Ao comermos um pedacinho de romã, estamos expressando nosso desejo intrínseco de cumprir os 613 mandamentos. O escritor Joan Nathan, autor do livro The Jewish Holiday Kitchen pacientemente contou as sementes de 12 romãs e chegou à conclusão que uma romã tem mais de 600 e menos de 620 sementes, o que comprova razoavelmente o costume.
Tâmaras
Em aramaico, chamadas de Tamil, que em hebraico quer dizer dissipar , espalhar. Este costume dos tempos bíblico, coloca tâmaras na mesa para que aqueles que queiram nos destruir sejam espalhados, dissipados.
Cabeça de Peixe
Costume europeu que reserva a cabeça do peixe que foi transformado em Guefilte Fish para a pessoa mais idosa da mesa que antes de comê-la diz “Que seja ‘Seu’ desejo nos colocar sempre junto à cabeça e não junto à cauda”. Uma derivação deste costume é, ao comer o peixe, falarmos “Que seja ‘Seu’ desejo que nossas virtudes frutifiquem e se multipliquem como os peixes”.
Uma fruta nova, da estação
Um costume antiqüíssimo diz que devemos comer uma fruta nova, aquela que acabou de frutificar na estação, na segunda noite de Rosh Hashaná e recitar o Shehecheiánu. Em tese, uma fruta que não se tenha visto nos últimos 30 dias. A idéia por trás deste costume é que no segundo dia, que é redundante por sua natureza de ser o segundo, algo de novo aconteça em nossas vidas e dignifique o dia. Daí derivou o costume de se utilizar uma peça de roupa nova neste dia, pelos mesmos motivos.
Tzimes
O tradicional e delicioso guisado doce de cenouras é um clássico de Rosh Hashaná. Em iídiche cenouras são chamadas de Meyren que também quer dizer multiplicar. Ao comer tzimes expressamos nosso desejo de multiplicar as bênçãos do ser humano.
Nozes
Qualquer tipo de noz é evitado, principalmente pelos sefaradim, no Rosh Hashaná. Em hebraico o valor numérico da palavra Egoz, que designa as nozes, é o mesmo da palavra Chet que quer dizer pecado. Neste dois dias queremos a maior distância possível do pecado e de nozes...
Peixes e Galinhas
No Rosh Hashaná costumamos comer o peixe que nada para a frente, nunca fecha os olhos e se reproduz como desejamos que se reproduzam nossas virtudes. E evitamos a galinha que cisca para trás. Já no Iom Kipur, por causa do costume do Kaparot, a galinha ou o galo acaba comparecendo no jantar.
Bolo de Mel
O tradicional Leicach, da Europa Central virou uma tradição nas Grandes Festas porque, na realidade, leicach quer dizer porção. O sentido é de que, aquele que for um bom observante das tradições judaicas será abençoado com uma “boa porção”, como está escrito em Provérbios 4:2 : Eu vos dou uma boa porção, não abandoneis Minha instrução...
Kreplach
Uma curiosa tradição, vinda de Portugal, associa comer kreplach com as festas judaicas que sugiram da autocomiseração ou simbólico flagelamento. Assim, a tradição recomenda kreplach na véspera de Iom Kipur quando batemos em nosso próprio peito por expiação ou em Sucot quando batemos no chão com um ramo de salgueiro ou ainda em Purim, quando se pronuncia o nome da Haman e todo mundo vaia ou toca chocalhos. O corolário jocoso que os portugueses tiraram desta tradição é que, se uma mulher serve kreplach num dia da semana não festivo é porque, recentemente, foi “flagelada“ pelo marido. Vale ainda lembrar que nas Grandes Festas, costuma-se unir as pontas do Kreplach, dando-lhe uma forma arredondada, como o já citado Ciclo da Vida.

* Breno Lerner é editor e gourmand, especializado em culinária judaica. Escreve para revistas, sites e jornais. Dá regularmente cursos e workshops. Tem três livros publicados, dois deles sobre culinária judaica.