A fotografia de um boneco aparentemente novo do Mickey Mouse, repousando numa rua destruída na cidade libanesa de Tiro, em seguida a um ataque da Força Aérea Israelense, me levou de volta a um espetáculo de TV britânico chamado Drop the Dead Donkey (algo como largue o burro morto) que passou em Israel há aproximadamente 15 anos atrás.
Um dos jornalistas do show de humor do Canal 4 costumava ficar andando à toa pelas áreas de batalha com um ursinho e o colocava em zonas de destruição pouco tempo antes que as câmeras fotográficas começassem a disparar em busca de efeitos dramáticos.
Não tenho a intenção de duvidar da integridade dos repórteres fotográficos, a maioria dos quais trabalha duro e arrisca suas vidas, mas nos dois casos expostos através de blogueiros durante a segunda Guerra do Líbano exija que recorramos a um ceticismo saudável.
O caso da Reuters
No início de agosto a Reuters admitiu que uma foto feita pelo fotógrafo libanês Adnan Hajj sofreu tratamento impróprio com uso de software de edição gráfica. Em um outro caso, uma fotografia mostra uma aeronave israelense disparando “mísseis” incendiários e esta fotografia também foi tratada usando-se um computador.
Ambos os trabalhos editados foram expostos por Charles Johnson, um dos donos do blog Little Green Footballs.
Outra fotografia mostrava um manequim com um vestido de noiva limpo em frente a uma casa arrasada. Outras duas fotografias distribuídas em julho e em agosto mostravam uma mulher chorando depois que sua casa foi destruída duas vezes no espaço de duas semanas em locais diferentes. Ainda numa outra fotografia publicada em um jornal mostrava o que pareciam ser corpos cobertos por lençóis brancas. Contudo, vê-se um dos corpos sentando, o que significa estar completamente vivo.
Um outro homem desempenhou um papel, estrelando nos blogs foi Salam Daher, que encabeça as operações de salvamento de civis em Tiro. Daher, rotulado de o “Sujeito do de Capacete Verde", é mostrado em fotografias de 2006 e de 1996, em seguida aos ataques da Força Aérea na aldeia de Qana. A AP negou com veemência que as fotografias fossem encenadas e dramatizadas e até publicou publicou uma fotografia especial de Daher (usando um capacete azul) e explicou que era ele.
Tudo isso não contradiz o fato de que Daher repetidamente agitava os corpos das crianças diante das câmaras fotográficas (usando o mesmo corpo, às vezes, em diferentes poses), enquanto os fotógrafos tiravam instantâneos.
Falsificação digital vira norma
Podemos até supor que a fotografia de Mickey Mouse seja completamente genuína, mas nós ainda podemos ficar surpresos em saber se o manequim foi colocado no local após o bombardeio. O caso Adnan Hajj mostra que hoje não é mais necessário encenar as fotografias. Ao invés disso, podemos modificá-las usando ferramentas gráficas poderosas, como o Photoshop.
Realmente, a falsificação digital tornou-se uma norma. Qualquer um que tenha encontrado e visto celebridades bem de perto, sabe que às vezes, a diferença entre eles na realidade e suas faces, modificadas pelo Photoshop, que aparecem em reportagens de revistas, é bastante significativa.
Charles Johnson e seus amigos do Little Green Footballs esperam ver esclarecidas as posições políticas conservadoras, contudo o ceticismo deles ajuda os que buscam a verdade onde quer que estejam e servem à imprensa.
Embora dúzias de canais e centenas de sites de notícias da Web propiciem um senso de pluralismo na mídia, a maioria das fotografias e reportagens em vídeo das zonas de combate é distribuído por um número pequeno de agências de notícias: AP, Reuters, e AFP.
No momento em que meios de radiodifusão visuais (fotografias, vídeo) atingem o ápice, no fundo, podemos ver emergir uma grande crise do foto-jornalismo. Embora a Reuters fosse rápida em anunciar que fará revisões mais rígidas nas fotografias do Oriente Médio, tais casos de fotografia que sofreram tratamento realmente podem se repetir com uma freqüência crescente, e com os falsificadores melhorando suas táticas.
Uma fotografia já não vale mil palavras
Não estamos só falando de um problema ético fundamental que é só de interesse dos profissionais. A curto prazo, as fotografias tratadas podem servir para dramatizar o sofrimento libanês e exibir uma destruição disseminada por Israel no Líbano muito maior em extensão do que realmente é.
Mesmo com o passar do tempo, a parte fraca da guerra pagará o preço pela falsificação, depois que a sensibilidade humana por sua dor for entorpecida. Isto é trágico porque os libaneses sofreram na última guerra e muitos passaram por perdas verdadeiras, não-tratadas e destruição.
No futuro, até mesmo quando forem distribuídas fotografias verdadeiras de guerras, é provável que a outra parte faça mudanças nelas e as redistribua com o objetivo de arruinar a credibilidade e fazer a opinião pública duvidar delas, como parte de uma guerra de propaganda.
Uma vez que esses critérios sejam interiorizadas, e o público geral souber que já não pode acreditar no que vê, uma fotografia já não valerá mil palavras. Ou nem mesmo talvez valha uma só palavra.
A Reuters retirou uma segunda fotografia e admitiu que a imagem foi adulterada, em seguida ao aparecimento de novas suspeitas novas contra imagens distribuídas pela agência de notícias. A Reuters admitiu que um de seus fotógrafos, Adnan Hajj, usou software para distorcer uma imagem de fumaça ondulando de edifícios em Beirute para criar um efeito de mais fumaça e maior dano.
A mais recente imagem a enfrentar dúvidas é uma fotografia de um caça F-16 israelense sobre os céus do Líbano, visto na imagem “disparando mísseis num ataque aéreo sobre Nabatiyeh," de acordo com a imagem acompanhada de texto distribuído pela Reuters.
Em seguida às acusações, a Reuters fez uma declaração que diz que recolhera dos arquivos quase mil fotos de Hajj. "A Reuters retirou de seu banco de dados todas as fotografias obtidas por Adnan Hajj, seu fotógrafo free-lance baseado em Beirute após constatar que ele tinha alterado duas imagens no começo do conflito entre o Israel e o grupo libanês Hezbolá”, dizia a nota.
“Não há violação mais grave dos padrões da Reuters para nossos fotógrafos que a manipulação deliberada de uma imagem", foi a declaração da Reuters citada por Tom Szlukovenyi, editor global de imagens da Reuters.
A Reuters também disse que aplicaria" procedimentos de edição mais rígidos para imagens do conflito do Oriente Médio para assegurar que nenhuma fotografia da região seja transmitida a assinantes sem a revisão do editor mais experiente do escritório de imagem global da Reuters."
"A Reuters terminou sua relação com Hajj no domingo... Um inquérito imediato começou no outro trabalho de Hajj," dizia também a declaração. Hajj tinha enviado à Reuters várias imagens da aldeia libanesa de Qana, muitas das quais também ficaram suspeitas de serem encenadas.
Outras imagens da Reuters foram questionadas através de blogs nos Estados Unidos. Um leitor do blog Power Line (Linha de Alta Tensão), Robert Opalecky, escreveu: Não sei se isto chamou a atenção de alguém até agora, contudo, numa busca rápida das fotografias distribuídas pela Reuters e atribuídas a Adnan Hajj, eu achei estas duas:
A primeira imagem da Reuters é de 24 de julho:
"A primeira é de 24 de julho, de uma área externa bombardeada em Beirute, com um edifício claramente identificável numa parte destacada do tiro. A segunda é da mesma área exata, mesmos edifícios, mesma condição, com uma mulher que caminha passando por "um edifício destruído durante um ataque noturno aéreo israelense aos subúrbios de Beirute, em 5 de agosto de 2006," escreveu ele.
Um filme colocado no site de compartilhamento de vídeos YouTube, compara as duas imagens, e mostrar semelhanças notáveis entre as fotografias usadas pela Reuters nos dias 24 de julho e 5 de agosto.
* Gal Mor e Yaakov Lappin são jornalistas e comentarias do site israelense de notícias Ynet News (www.ynetnews.com).
Olho
“Reuters admite alteração em fotografias de Beirute. Blogs: é evidente a manipulação das imagens”