Le Monde, a Shoá e a judeufobia da moda
Por: Andrés Spokoiny *

A falha passou, para a maioria, completamente despercebida. Para muitos, não obstante, foi como um balde de água fria.
Na semana passada, o diário Le Monde foi condenado por “anti-semitismo e incitação ao ódio racial” por uma corte de apelações francesa. Este jornal de referência, envolto na bandeira “progressista” e no “bem pensar” da esquerda, acedeu ao Olimpo dos intolerantes nos quais Le Pen e outros representantes do fascismo francês têm seus cômodos assentos.
Como se produziu esta bizarra metamorfose? Como um jornal comprometido com a liberdade, com a democracia e a igualdade se converte em porta-voz da intolerância?

Aqueles que seguem a cobertura na mídia da última guerra de terror lançada contra Israel por Arafat e o Hamas assistiram impávidos à transformação da chamada “esquerda progressista”. A demonização de Israel é moeda corrente e os meios intelectuais democráticos, ao invés de exercer o pensamento crítico e analisar friamente o conflito repetem slogans antiisraelenses. Da crítica a Israel se passa a deslegitimar até mesmo a existência do Estado, da deslegitimação de Israel, se desliza facilmente até o discurso judeófobo mais recalcitrante.

A cegueira ideológica e o preconceito anti-semita estabeleceram um paralelismo ridículo entre Israel e conceitos odiados pelos “progressistas”, tais como o imperialismo, o racismo e o “apartheid”. Comparações que não resistem a mínima análise são repetidas ad nauseam pelo “jornalismo inteligente”.

A esquerda progressista inventou uma pirueta ideológica irracional, segundo a qual se pode ser anti-semita em nome do anti-racismo. (Os judeus são racistas com os palestinos, eu sou anti-racista, logo, ser antijudeu é minha obrigação moral).
Em décadas passadas, a expressão anti-semita era território cativo da direita radical. Nazistas, fascistas, neonazistas e xenófobos tinham o monopólio do ódio. Se bem que os preconceitos anti-semitas existissem na população em seu conjunto, eram eles que lhe davam expressão política.

Enquanto Le Pen, Haider e outros personagens fascistóides, francamente antipáticos, eram os anti-semitas oficiais, o preconceito era fácil de combater. Os judeófobos eram ignorantes, brutos e primitivos embriões do passado. Agora, como disse Alain Finkielkraut, é o “tempo dos anti-semitas simpáticos”. Intelectuais, jornalistas e artistas progressistas se somam ao embate judeófobo. Ao fazê-lo, legitimam intelectual e politicamente a intolerância da direita fascista. Dão-lhe uma tintura de respeitabilidade e aceitação. Os judeófobos já não são os que se aferram a uma ideologia do passado, mas os que estão na vanguarda do pensamento e da intelectualidade. Os intolerantes não são mais os marginais, mas os formadores de opinião. A direita radical era anti-semita por estar contra o progressista. O “progressista” vê a judeufobia como uma conseqüência lógica de suas idéias de avanço. (Como sempre, ‘o judeu’ é de esquerda para o direitista e de direita para o esquerdista). O fenômeno é ainda mais preocupante, já que historicamente, as idéias defendidas pelo progressista de esquerda formam o fermento intelectual no qual se forma a opinião pública.

O progressismo mostra toda sua hipocrisia. Indigna-se pelo sofrimento palestino, mas não abre a boca a respeito do massacre de centenas de milhares de sudaneses em Darfur, nas mãos dos fundamentalistas árabes. Diz defender os direitos dos árabes, mas é absolutamente indiferente ao sofrimento de milhões de muçulmanos sob os regimes de opressão e terror dos países árabes. O indizível sofrimento de milhões de africanos está visivelmente ausente de nossos meios progressistas. É lógico, já que os jornalistas simplesmente não estão na África. Há em Jerusalém 800 (sim, oitocentos) correspondentes estrangeiros. Várias vezes mais que em toda África. Aparentemente, para os jornalistas “comprometidos” é mais fácil viver nos hotéis 5 estrelas de Jerusalém, usufruindo da liberdade de imprensa existente em Israel que desafiar a malária e as ditaduras africanas. É que não faz falta. Podem dar rédea solta ao seu progressismo e à sua solidariedade aos oprimidos comendo baklawas no American Colony Hotel em Jerusalém. Ao fim e ao cabo o sofrimento palestino é a condensação emblemática de toda a opressão do mundo...

A condenação ao Le Monde mostra este fenômeno em toda sua crueza. Roger Cukierman, presidente do organismo representativo da comunidade judaica francesa, declara sua bronca, mas também sua surpresa. “Esta gente – a esquerda, os meios progressistas – eram nossos aliados no combate à intolerância; agora são os que a fomentam”. Quando o martelo do juiz marcou a condenação, os editores do Le Monde se encontraram no mesmo panteão do ódio que grupos neonazistas e Le Pen – que fora condenado por incitação ao ódio racial por uma denuncia feita pelo... Le Monde!!!
A nova legitimidade do discurso anti-semita se vê em toda parte. Numa caricatura do diário inglês The Guardian um Sharon pantagruélico com uma grande estrela de David devora um menino palestino. Há dez anos, se essa caricatura fosse publicada num pasquim neonazista, The Guardian – porta-voz do “progressismo” na Inglaterra – teria convocado uma manifestação de repúdio. Não só a caricatura foi publicada pelo diário “progressista”, mas a associação de jornalistas gráficos ingleses a premiou como a melhor caricatura do ano.

Numa adaptação bizarra e venenosa, os antigos preconceitos se juntam á nova judeufobia. Um diário italiano de esquerda publica uma charge que tenta mostrar a cidade de Belém. Lá, um soldado israelense aponta seu fuzil para uma criança palestina, que, na ocasião esta caracterizada como Jesus. “Vão me matar de novo?” diz o menino. O velho mito do judeu deicida se mescla com o novo mito, igualmente falso e igualmente nocivo do judeu militarista e cruel. Antes os judeus matavam meninos cristãos, agora matam meninos palestinos. A associação é grosseira e óbvia, mas os meios progressistas fingem não vê-la. O conceito de “novo anti-semitismo” é, na realidade, fonte de confusão. Não há novo anti-semitismo, na era do reciclado, os velhos preconceitos adquirem uma nova cara e uma nova legitimidade.

A autocrítica e o inconformismo com as próprias idéias, que devia ser um componente básico de toda pessoa que se considere “de esquerda”, dão margem a um dogmatismo aberrante e obtuso. O pensamento crítico se aplica só a Israel e ao “ocidente”. Nunca aos verdadeiros tiranos. A Sharon o demonizam, a Saddam o absolvem. O espírito crítico deixa passar um pensamento único cheio de falsas verdades, aceitas com um automatismo descerebrado.

O sofrimento obriga... a outros
Mas além de mostrar em toda sua amplitude o “novo/velho anti-semitismo”, a condenação ao Le Monde desmascara um dos argumentos mais usados pela “judeufobia da moda”.

“Os judeus, - escreve Le Monde – descendentes de um ‘apartheid’ chamado “ghetto”, ghettoizam os palestinos. Os judeus, que foram humilhados e perseguidos, humilham e perseguem os palestinos; os judeus, vítimas de um regime sem piedade, impõem um regime sem piedade aos palestinos; os judeus, antigos bodes expiatórios de todo mal, convertem Arafat e a Autoridade Palestina em bodes expiatórios”.

O argumento que os judeus fazem aos palestinos, o que se lhes fez durante a Shoá, é talvez o mais malicioso dos ataques que se pode fazer a Israel. Naturalmente, a comparação entre as duas situações históricas não resiste á menor análise. Por mais que sofram os palestinos, não se aproxima nem a uma ínfima fração do que foi a Shoá. Mas não vamos fazer o jogo dos judeófobos de comparar ponto a ponto a Shoá com a situação dos palestinos. O sr. Colombani – o editor do Le Monde – sabe muito bem que ambas situações não são comparáveis. Também o sabe Saramago, que reconheceu publicamente: “eu sei que não é o mesmo — disse cinicamente —, mas o digo para despertar as consciências das pessoas”. As centenas de milhares de sobreviventes dos campos de concentração têm que escutar que os europeus – recordemos, aqueles que os vitimaram – os acusam de nazistas.

Assim, às vítimas da Shoá se dá um último e estranho insulto: o de compará-las com seus verdugos. Hannah Rogen, uma mulher de 92 anos, sobrevivente de Auschwitz celebrava Pêssach com sua família no hotel Park de Natania. Um terrorista palestino se fez explodir no salão onde se celebrava o seder matando 29 pessoas, incluindo a sobrevivente e sua família. O ódio antijudeu, do qual escapou na Shoá, a alcançou 60 anos depois quando acreditava que viveria seus últimos anos em paz e quietude. Enquanto Hannah era enterrada, Saramago chamava os israelenses de nazistas. Colombani, Saramago e os outros profetas do “ódio inteligente” são demasiado sofisticados para negar a Shoá ou dizer que “não foi tanto”. Em vez disso, optam por uma contorsão intelectual que banaliza a Shoá e o sofrimento do povo judeu. “Se os próprios judeus se comportam como nazistas – é a conclusão lógica e implícita de seu raciocínio – então, o que os nazistas fizeram não é tão grave”. Mediante um sofisticado mecanismo ideológico, usam o mesmo sofrimento das vítimas para infligir-lhes novas perseguições e novos vexames.

A Europa – disse A.B. Yoshua – precisa exorcizar seu passado. O ataque a Israel serve à Europa para limpar sua consciência hedionda a respeito de três elementos capitais: 1 - A Shoá, que foi cometida pela Europa e não só pela Alemanha. Comparar os judeus com os nazistas, livra os europeus da culpa – se os judeus são como os nazistas, então não éramos tão maus em matá-los... De toda forma eles fazem o mesmo. 2 – O colonialismo. A Europa, que inventou o colonialismo e que engordou com base em seus impérios coloniais, criando assim no mundo a pobreza e a desigualdade que perduram até o dia de hoje, se mostra solidária com os palestinos em nome da “luta contra o Imperialismo”. Assim, oculta convenientemente que os impérios foram europeus. A horrível situação da África – conseqüência do mau gerenciamento colonial europeu – se varre para baixo do tapete. Os judeus não são “colonos” em sua terra. Existe uma grande diferença entre um conflito territorial e uma situação colonial. Mas enquanto acusa Israel, a França envia suas tropas para “impor a ordem” na Costa do Marfim. 3 – O tratamento dos árabes na Europa. Poucas populações são tão discriminadas como os árabes na Europa, em especial na França. No país da egalité os árabes são 10% da população. Mas não há nenhum deputado, senador, juiz, ministro ou secretário de Estado de origem árabe. Nesse contexto, a solidariedade com os palestinos libera a Europa da culpa: “Sejamos solidários com os árabes que estão longe. Isso oculta como tratamos os que estão perto”.

Mas o argumento tem um respaldo ainda mais maligno. Vosso sofrimento – diz Colombani aos judeus – obriga-os a ter normas morais mais elevadas que outros povos. Este argumento é ainda mais perverso, pois Colombani pertence a um país que perpetrou a Shoá. Os 70.000 judeus franceses assassinados pelos nazistas foram deportados por policiais franceses. O governo de Vichy, um ativo colaborador dos alemães e a população francesa, apesar de algumas mostras de valentia antinazista, denunciava 2.000 judeus por dia às autoridades, que não tardavam em deportá-los.
Numa maligna alquimia intelectual, Colombani, que pertence ao povo que ajudou a assassinar, se crê no direito de dar lições de moral às vítimas.

Dado que nos assassinaram, vocês – mas nunca nós – estarão submetidos a normas morais mais estritas. O sofrimento que lhes infligimos, obriga vocês, mas não a nós. O sofrimento dos judeus não gera solidariedade, gera novas exigências.
Não, sr. Colombani. O sofrimento que infligiram aos judeus durante a Shoá, obriga-os a padrões morais mais elevados, não a nós. São vocês – os que vitimaram – e não nós – as vítimas – que agora devem manter uma conduta exemplar para ressarcir-se. São os assassinos, e não os assassinados que devem perscrutar suas almas e mostrar contrição e arrependimento. São vocês que devem dar o exemplo, em lugar de dar supostas lições repletas de ódio e hipocrisia. Vossa obrigação é mostrar solidariedade com as vítimas de vossa loucura assassina, não com seus novos inimigos que querem continuar vossa obra.

Nós, judeus, não necessitamos da Shoá para desenvolver padrões e valores morais de fraternidade entre os povos. Estes ocupam um lugar central em nossas fontes milenares. Nossa história é um lugar para a prática de tais valores. Não precisamos que Colombani nos recorde nossas obrigações morais: A Bíblia Hebraica e as orações que os judeus repetem diariamente o fazem de maneira muito mais eficaz. Nós, judeus, cremos na igualdade e na fraternidade entre os homens desde os tempos imemoriais. Moisés, e não Hitler, nos legou a maravilhosa frase “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. As leis sociais e os direitos humanos gravados a fogo na Bíblia e no Talmud derivam da concepção da dignidade e a divindade inerente a todo ser humano, criado “betzelem Elokim”, à imagem de D-us. A solidariedade com quem sofre nos foi ditada no Sinai, pois “escravos fomos na terra do Egito”. Foi precisamente por esses valores – que representavam todo o oposto à barbárie nazista – que Hitler nos quis exterminar.

Não. A Shoá não nos ensina normas morais que não conhecíamos. A Shoá nos ensina uma só coisa: que em momentos de necessidade e tragédia, estamos sós, e – exceto uns poucos bravos que se atiram para salvar a honra da humanidade golpeada – o mundo nos deixa morrer. Por isso devemos cuidar-nos a nós mesmos; que não podemos contar com a generosidade dos povos. Por isso devemos defender-nos, pois ninguém o fará por nós. Essa é para nós a lição da Shoá. E a judeufobia do Le Monde, sua banalização da Shoá, e a degeneração intelectual do anti-semitismo da moda nos recordam o quão relevante é esta lição.

* Andrés Spokoiny é o autor de “A Rebelião dos Canários”. Publicado no site israelense em espanhol, www.porisrael.org