Israel sem Gaza
Por: Vittorio Corinaldi*

A evacuação dos estabelecimentos judaicos na Faixa de Gaza e Norte da Samaria terminou, e torna-se necessário fazer algumas reflexões a fato cumprido.

Antes de mais nada, há que assinalar com alívio que a operação foi levada a cabo sem violência e sem vítimas, e os fatos noticiados de oposição mais ferrenha e protesto ruidoso visavam ao que parece mais a sensação jornalística do que qualquer tentativa de mudar o andamento das coisas.

Neste aspecto, há que dizer palavras de louvor aos soldados e policiais (acorridos ao local totalmente desarmados, mas em quantidade numérica considerável – o que eliminava qualquer ilusão de um desfecho diferente do que se deu). E não é demais constatar que mais uma vez, e a despeito do cinismo internacional, Israel deu uma lição de civilidade e maturidade, que muito raros são os países que a teriam imitado em hipotéticas semelhantes circunstâncias. O comportamento das forças foi exemplarmente tolerante e comedido, reagindo às ofensas verbais e físicas com calma e silêncio, e ignorando com paciência e compreensão o comportamento dos opositores.

Estes se classificavam em duas categorias: os verdadeiros moradores dos assentamentos, e os ativistas radicais acorridos “em reforço”. Os primeiros, em verdade, assimilaram em sua maioria, já antes da execução concreta, a irreversibilidade da decisão. E se conformaram com amargura mas com senso de realidade à mudança. Os segundos eram em geral jovens de idéias extremistas, que penetraram mais ou menos clandestinamente nos assentamentos dias antes da evacuação, com a meta específica de atrapalhar a ação dos militares e criar uma atmosfera de violência que pudesse ter largo eco na mídia.
Outro fenômeno que merece ser observado e analisado é o da atuação das lideranças do movimento anti-evacuação. Em primeiro lugar os rabinos, donos de vasta influência junto à população visada, e mais ainda junto aos jovens ativistas e junto aos dirigentes políticos.

Ficou claro o absoluto fracasso e a absoluta inconsequência dos pronunciamentos categóricos apoiados em suposta interpretação bíblica.

Não é este o lugar apropriado para fazer considerações mais amplas sobre os próprios conceitos da verdade messiânica – que para uns são fé indiscutível, ao passo que para outros são nada mais do que obsoletas e anacrônicas ilusões. O que, sim, deve ser dito é que estes rabinos extremistas (dentre os quais se contam não poucos mantidos pelos cofres públicos) traíram a imagem infalível e vestida de uma aura ética “a toda prova” com que se apresentavam a seu rebanho.
Igualmente, fracasso é o que recolheu a liderança política. Incitada talvez pelos mesmos pronunciamentos rabínicos, ela conduziu seu público na cegueira a uma crença irreal alimentada até ao último na possibilidade de mudar o fluxo dos acontecimentos.

Com isto, sobre ela (e só sobre ela) recai a responsabilidade pelo estado de provisoriedade em que se viram jogados muitos dos habitantes evacuados, incitados pela dirigência a não recorrer aos auxílios generosos que se ofereceram já há meses, e que teríam seguramente diminuído o sofrimento material, mesmo que não a frustração espiritual do destaque.
Não tem cabimento a imagem que se procura criar, de pobres refugiados deixados à intempérie: na verdade trata-se de pessoas que tiveram sim que abandonar bens e propriedades (angariados não só, mas também graças a benefícios e incentivos de que gozaram por longos anos), mas que serão condignamente indenizadas e apoiadas em seu caminho de reestabelecimento, numa medida de que nenhum outro grupo social no país gozou até hoje.

Igualmente sobre os ombros dos rabinos e dos políticos do “Sionismo Religioso” está a responsabilidade pelo uso revoltante e obceno que se fez dos símbolos e da memória do Holocausto, num absurdo e malvado paralelo com a mais trágica página da história judaica, e numa indecente comparação entre os algozes nazistas e os soldados israelenses em cumprimento pacífico da missão democraticamente a eles imposta.

Também revoltante é o apelo aos soldados de não acatarem as ordens de seus comandantes no que tocasse a evacuação: apelo que se demonstrou estéril, pois o número de renitentes entre as tropas foi irrisório.
Finalmente, não se pode ignorar o comportamento ambíguo de uma parte dos ministros do governo e dos deputados da Knesset: sem a coragem de levar suas convicções ideológicas até à conseqüência da demissão, eles se entrincheiram num jogo de palavras e interpretações que lhes conservem a cadeira oficial e ao mesmo tempo os possam apresentar como opositores quando o momento político favorecer um pretenso antagonismo às decisões encabeçadas por Sharon: coisa que poderá se dar proximamente com um eventual adiantamento das eleições, se o Comitê Central do Likud (órgão populista de escassa compreensão dos verdadeiros interesses a longo prazo do país) tomar decisões contrárias à linha de Sharon.

As considerações acima contradizem certamente as opiniões de uma parte do público judaico da Golá e de Israel. Mas a natureza da questão, os longos anos de conflito e os incontáveis sacrifícios que ele custou para ambos os lados, não permitem mais uma visão dogmática (seja ela de ideologia política ou de concepção religiosa) do problema. E também não se justificam posições de interesse eleitoral ou prestígio pessoal estreito.

Sharon, na rude esquematicidade de sua liderança, demonstrou estar acima destas coisas, e levou adiante um processo penoso mas inevitável. É preciso que este não se interrompa, e que bom senso e realismo (e não fanatismo ou sonho impossível) orientem os líderes da Israel diferente que surgiu depois da recente retirada. Se à sua frente continuar Sharon, o futuro o dirá.

*Vittorio Corinaldi é arquiteto e reside em Tel Aviv, Israel.