Infância : A princesa
Por: Pilar Rahola*

Não sabemos a hora.

Possivelmente entrou de noite, para que não a vissem. Ou talvez chegasse ao hospital de madrugada, à hora das bruxas, quando tudo parece estranho e imprevisto. Também não sabemos se sua mãe a acompanhava, ainda que fora seu anjo da guarda durante os meses de gravidez, escondendo-a, protegendo-a. À hora que fosse, só ou acompanhada, o certo é que, hoje faz cinco anos, chegou a um hospital emporcalhado, numa cidade fora dos mapas do mundo, no meio de uma tragédia que acompanhava aquelas terras desde há séculos, e a teve. Um parto rápido, uma menina nascida sem desejo, fruto de uma violação e de uma dor, algumas horas para vê-la e, provavelmente, para chorá-la. E depois, no dia seguinte, sem a vergonha de uma gravidez não desejada, numa sociedade da meia lua islâmica que marca e condena as mães solteiras, liberada de pesos impossíveis, voltou ao seu povoado rural, nos pés das montanhas do Bashkortosthan, para continuar sua vida sem futuro. Três vezes foram vê-la as autoridades pertinentes, e três vezes negou a sua filha. Não era sua, não a queria, não a podia ter. E assim, sem ninguém que a desejasse, magrinha e assustadiça, começou a palpitar seu corpo branquíssimo numa cama de hospital, sob o amparo de um governo que tinha milhares como ela. Aos quatro dias já estava num orfanato. E durante o resto de sua vida, até um 23 de junho de um ano depois, ela só foi um número na estatística de crianças abandonadas que habitam as esquinas do mundo, triste como todas as crianças tristes. Enferma, como a maioria das crianças que morrem antes dos cinco anos por enfermidades curáveis, primeiro, diversas bronquites, uma hepatite, sarna, salmonela, pneumonia…

Chegou ao seu primeiro ano sem ser capaz de sustentar a cabeça, como muitas crianças como ela, que tardam em desenvolver os músculos do pescoço porque ninguém as levanta. Nenhum beijo, nenhum abraço de última hora quando a barriguinha fica ruim, nenhuma música suave para acompanhar os medos da noite, nenhuma carícia. A solidão é uma amante ardente e asfixiante, quando se converte na companheira de viagem de uma criança pequena. Dia-a-dia, mês após mês. Tinha um nome e o conhecia. Mas não o ouvia ser chamado com a doçura própria das mães e os pais quando chamam os seus filhos. Não havia pais, nem avós, nem priminhos, nem tios. E às noites, o xixi que lhe havia avermelhado as pernas, porque no orfanato não havia dinheiro para comprar fraldas, a fazia chorar. O pranto solitário. Também chorava com cada doença que a atacava, sempre na solidão.

E assim a conhecemos, chorando. Iniciava sua primeira bronquite que, finalmente, se transformou numa pneumonia. Não nos olhou, não olhou o bicho de pelúcia que lhe mostrávamos ansiosos, não olhou os braços que queriam abraçá-la, não olhou as lágrimas que derramávamos. Nós só éramos outros adultos anônimos, em sua vida indiferente. A primeira vez que fixou o olhar foi quando lhe colocamos seus primeiros sapatinhos. Os primeiros de sua vida. E assim, em passinhos, aprendeu a caminhar pelas estradas da felicidade, lentamente, receosa e assustada, às vezes agressiva. Havia decidido que não confiaria em nós facilmente. Quando, diante de um doce, esboçou o primeiro sorriso, tivemos a impressão que não era um sorriso, mas uma vida sem ter rido que rompia, de repente, em seu rostinho. E os olhos, seus belíssimos olhos amendoados, foram, por um instante, redondos, desmentindo sua genética asiática. No mais, devemos dizer que cada sorriso era um passo de gigante, cada passo uma conquista, cada conquista uma sobrecarga de felicidade. Finalmente um dia já não houve marcha-ré. Desde aquele dia Ada não deixou de rir. Desde aquele dia não deixou de cantar.

Ontem, vendo como fazia voltinhas, vestida de princesa, na pontinha dos pés, imitando a protagonista do Lago dos Cisnes da Barbie, notei como me afligiam os enormes sentimentos vividos que minha filha, necessariamente, me fez brotar. O sentimento de euforia e felicidade. E, por sua vez, a enorme tristeza de recordar o ano e meio que não nos teve e não a tivemos. Como deviam ser suas noites, seus medos, suas angústias? E, através da Ada que um dia foi e já não é, como deviam ser as noites e os dias dos milhares de Adas que há no mundo? Como devem ser seus medos? As Adas sem fadas…

Ontem cumpriu cinco felizes anos. Ada não tem nada a ver com a menina que fomos buscar num hospital perdido, na Sibéria anônima, lá onde não habita a esperança. Agora é uma menina querida, provavelmente superprotegida, mas felizmente segura. Sua casa está cheia das fantasias que inundam sua imaginação, os castelos de princesas, os príncipes que as rodeiam, os contos que explicam suas sagas. Nas estantes da parede, os bichos de pelúcia estão divididos por faunas, aqui os cachorros, aqui os ursinhos, mais além as girafas e os gatinhos. Por cima de tudo, perdido e um pouco abatido, jaz o velho bicho de pelúcia que fez o caminho da Sibéria conosco e que nossa filha recusara. Nunca lhe fez caso, e um dia em que fazíamos a limpeza do quarto, perguntei-lhe se podia dá-lo. Recordo seu olhar intenso: “nunca, nunca na vida…” E não disse nada mais.

De seu redondo e definitivo sorriso. Das canções que canta todo o tempo. Desse “te amo” que me lança cada manhã quando a deixo na porta da escola, e me enfeita a alma. De sua felicidade conquistada, quero recordar hoje as crianças do mundo que não sorriem. As que foram a Ada que agora ela não é. Os que morrerão porque nasceram no lugar errado, nas esquinas obscuras             aonde as luzes não chegam. As crianças tão visíveis em seu sofrimento, tão visíveis nas ruas do mundo onde dormem, nas camas sórdidas onde são humilhadas sexualmente, nas guerras onde aprendem a odiar e a matar, nos hospitais onde não sabem porque morrem de doenças que sua mãe lhes transmitiu, nos cafezais onde suas mãozinhas sangram trabalhando para poder comer. As crianças visíveis que decidimos não ver.
A todas elas, para que um dia possam ter sonhos de princesa. E a todos nós, para que recordemos sempre que sua desgraça nasce da nossa indiferença.

* Pilar Rahola é jornalista e escritora. Foi vice-prefeita de Barcelona, deputada no Parlamento Europeu e deputada no Parlamento espanhol. Tradução: Szyja Lorber.