Gaza é parte da Terra de Israel? Depende de quem é perguntado...
Por:Dina Kraft *

Os modernos assentamentos israelenses na Faixa de Gaza foram retomados somente após a Guerra dos Seis Dias, em 1967 – mas, mesmo com a determinação da evacuação desses assentamentos, as raízes judaicas são mais profundas nessa faixa arenosa de terra onde o Egito, Israel e o Mar Mediterrâneo se encontram.

As opiniões divergem quanto ao fato de estar a Faixa de Gaza incluída, ou não, na chamada Terra de Israel, dominada pelos israelitas ancestrais da Bíblia.  

Sansão é o único israelita bíblico célebre por ter colocado os pés ali. No século XVII, o falso messias Shabbatai Zevi levou má reputação à área, ao iniciar seu movimento naquela costa litorânea.

Após um acirrado debate, o Knesset votou, ano passado, pelo desengajamento unilateral da Faixa de Gaza e pela evacuação de aproximadamente 9.000 colonos judeus que viviam ali em assentamentos estilo "suburbano", onde vastas plantações e parques de diversão eram protegidos por cercas de arame e postos militares.

A população assentada é cercada pelo 1,3 milhão de palestinos que vivem na região densamente povoada, de 25 milhas de comprimento (pouco mais de 40 quilômetros) por apenas 6 milhas de largura (pouco menos de 10 quilômetros).
Nos tempos bíblicos, Gaza fazia parte da Terra Prometida por D-us aos judeus – mas nunca foi parte da terra efetivamente conquistada e habitada por eles, segundo Nili Wazana, uma conferencista sobre Estudos Bíblicos e História do Povo Judeu da Universidade Hebraica.

Wazana, que atualmente escreve um livro sobre as fronteiras bíblicas da Terra de Israel, diz que as referências à Faixa de Gaza são contraditórias na Bíblia. Uma passagem em Juízes – freqüentemente citada pelos colonos judeus e seus defensores – diz que a tribo de Judá assumiu o controle da região. Mas outras estórias bíblicas contradizem tal afirmação – o que é inclusive comum ocorrer na Bíblia, segundo ela.

"Sobre quase tudo, você vai encontrar [na Bíblia] uma certa opinião e também uma opinião oposta. Não se trata de um texto homogêneo. Ela não foi toda escrita ao mesmo tempo e ali aparecem ideologias contraditórias", afirma Wazana. "A questão de Gaza é um dos pontos sobre os quais encontram-se diferentes opiniões."

A maioria dos israelenses não vê razões históricas ou estratégicas para permanecer em Gaza. Mas para Yigal Kamietsky, o rabino de Gush Katif, o principal bloco de assentamentos da região, a Faixa de Gaza é parte integrante da Israel bíblica.
"Gaza é parte da Terra de Israel, tanto quanto Tel Aviv e Bnei Brak", ele afirma. "Não há dúvida de que seja parte de nossas fronteiras." O rabino afirma não apenas que assentar-se ali era uma mitzvá, mas também que "se não estivéssemos lá, não estou certo de que o Estado de Israel ainda existiria."

Kamietsky diz que os judeus dos assentamentos de Gaza atuavam como um "pára-raio" para aqueles judeus que vivem dentro das fronteiras pré-1967 de Israel. De fato, alguns oficiais israelenses temem que, uma vez que as tropas e os colonos tenham saído da área, os terroristas palestinos venham a concentrar-se na fabricação de foguetes que possam atingir a cidade israelense de Ashkelon, ao norte da Faixa de Gaza.

Kamietsky ressalta que, historicamente, Gaza se viu inúmeras vezes como área de disputa de guerras. "Historicamente, Gaza sempre foi mais problemática", diz o rabino, referindo-se aos lendários inimigos dos israelitas, os navegadores filisteus, que controlavam a região nos tempos bíblicos.

O único período em que os judeus parecem ter tido a soberania sobre Gaza foi durante o governo dos hasmoneus, quando o rei judeu Yochanan – de quem Judá, o Macabeu, era irmão – dominou a área, no ano 145 da Era Comum.

Haggai Huberman – que tem dissertado longamente sobre a história da colonização judaica em Gaza através dos séculos, e atualmente vem escrevendo a história dos judeus em Gush Katif – sustenta que os judeus que ali viveram sempre se consideraram moradores da Terra de Israel.

Ele afirma que os judeus vêem vivendo e saindo de Gaza desde a época do governo romano, sendo que a colonização segue um padrão de expulsão, durante os tempos de guerra e conquista, e de retorno, durante períodos mais pacíficos. As ruínas de uma antiga sinagoga encontrada em Gaza datam aproximadamente do ano 508 da Era Comum. Seu piso em mosaico, escavado por arqueólogos, encontra-se hoje exposto no Museu de Israel, em Jerusalém.

Conta-se que uma grande comunidade judaica teria vivido na região quando os muçulmanos a invadiram no século VII. Os judeus eram conhecidos por sua atividade agricultora e pela produção de vinho em seus vastos vinhedos.

Depois da Inquisição espanhola, em 1492, alguns judeus espanhóis e portugueses fugiram para Gaza. Eles abandonaram a região quando ela foi invadida pelo exército de Napoleão, mas retornaram mais tarde, no começo dos anos 1800.

Quando a primeira onda de colonos sionistas chegou à região, no final do século XIX, um grupo de 50 famílias mudou-se para a cidade de Gaza. De acordo com Huberman, eles estabeleceram relações amistosas com os árabes locais.
Esses colonos ali ficaram até que foram expulsos em 1914 – junto com toda a população árabe de Gaza – pelos turcos otomanos, durante a Primeira Guerra Mundial. Os judeus retornaram em 1920. Mas as tensões começaram a se intensificar com o nascimento dos nacionalismos árabe e judeu, e as relações com os árabes locais começaram a se deteriorar, afirma Huberman.

A maior presença judaica em Gaza às vésperas da Guerra de Independência de Israel, em 1948, estava em um kibbutz chamado Kfar Darom, criado em 1946. Ele foi evacuado durante a guerra e foi um dos primeiros locais a serem recolonizados pelos judeus depois de 1967. Inicialmente habitado por soldados israelenses da brigada Nahal, pouco tempo depois Kfar Darom expandiu-se e tornou-se um dos vários assentamentos civis estabelecidos nos anos 1970, quando o movimento colonizador ganhou força.

Qualquer tentativa de menosprezar as raízes judaicas na Faixa de Gaza "é parte de uma tentativa de se divulgar a desinformação", afirma Eran Steinberg, um porta-voz dos assentamentos de Gush Katif.
Por sua vez, Wazana afirma que os atuais disputas territoriais são semelhantes àquelas encontradas na Bíblia. "Descrições de fronteiras refletiam diferentes ideologias até mesmo naquela época", segundo ela. "As pessoas colocavam palavras na boca de D-us mesmo nos tempos bíblicos. Se você tem uma ideologia, certamente encontrará as palavras certas para apoiá-la."

Aqueles que defendem que Gaza não faz parte da bíblica Terra de Israel alegam o fato de que os judeus ortodoxos têm permissão de consumir os produtos agrícolas cultivados na Faixa de Gaza durante o shmit – o sétimo ano (ou ano sabático), quando frutas e vegetais não podem ser cultivados na Terra de Israel, de acordo com a lei judaica.
Mas Kamietsky diz que é permitido o consumo de produtos da Faixa de Gaza durante esse período porque, ainda que ela seja tão "sagrada" quanto o resto da Terra de Israel, ela não era uma região colonizada durante o período do Segundo Templo, quando os judeus retornaram de seu exílio na Babilônia.  

* Dina Kraft é repórter e correspondente da JTA (Jewish Telegraph Agency) em Israel. Baseada em Tel Aviv, ela cobre uma extensa gama de assuntos por trás das manchetes, incluindo temas de Israel e Diáspora e tendências econômicas e sociais. Antes da JTA ela trabalhou Associated Press durante mais de seis anos, primeiro no escritório de Jerusalém e depois no de Johanesburgo, cobrindo a África do Sul. Ela já fez reportagens não só através da África como também do Paquistão, da Turquia e da Jordânia. Artigo publicado em www.jta.org – dia 3.8.2005. Tradução: Gisella Gonçalves.