E agora?
Por:Markin Tuder*

Hoje terminou mais um capítulo do longo e complexo conflito entre Israel e os palestinos, representados, desde os Acordos de Oslo, pela Autoridade Palestina. Todos nós fomos testemunhas, e a televisão nos fez até partícipes, da dolorosa evacuação de homens, mulheres e crianças, jovens e velhos, religiosos na sua maioria, mas também laicos, de seus lares. Em artigo anterior expressei a minha opinião sobre a evacuação e o perigo para a democracia se esta resolução das instituições eleitas em escrutínio popular democrático não fosse cumprida. Hoje, podemos nos regozijar com a vitória da única democracia existente na região, que uma vez mais demonstrou a sua força e sua determinação. O regozijo, entretanto, não pode ofuscar o sofrimento, a dor, a frustração e a tragédia, individual, familiar e coletiva, que essa população passou. Às vezes tivemos a impressão de estarmos beirando uma guerra civil ou outros atos desvairados de uma comunidade e de indivíduos frustrados, à beira do desespero. Evacuadores e evacuados tiveram de engolir sapos, cerrar dentes, morder línguas, tapar os ouvidos, enxugar os olhos, desfazer nós das gargantas e seguir adiante. A consciência de que a imposição tinha de ser cumprida, e de que ela era inevitável, fez com que todos se contivessem, e mesmo o punhado de incitadores preparados e infiltrados, não encontraram a repercussão esperada, e tiveram de se contentar com atos de insurreição simbólicos.

Após a dolorosa evacuação dos vivos, a não menos triste evacuação dos mortos, o traslado dos restos mortais daqueles que tinham encontrado naquelas terras o seu descanso eterno. A dor das famílias, companheiros e amigos, que tiveram que enterrar pela segunda vez seus entes queridos como dilacerar uma ferida que mal conseguiu cicatrizar.

E a implacável transformação de florescentes aldeias em montes de ruínas e escombros. Sonhos que se transformaram em brumas, ideais em areia, realidade em lembranças. E, por fim, a difícil decisão sobre a sorte das sinagogas. Destruí-las pelas próprias mãos ou deixá-las à mercê de vândalos que somente reconhecem a sua própria “santidade” (que está acima da própria encarnação da santidade, que é a vida), sendo a dos outros desprezível e destrutível.

Uma cerimônia simples, algumas palavras sentidas e esperançosas, o baixar e dobrar da bandeira azul e branca, e o cantar do hino nacional (Hatikva) pôs fim a este difícil e doído capítulo. Na Faixa de Gaza, o sol de amanhã iluminará somente as cabeças dos moradores palestinos.

E agora?
Como numa partida de xadrês, o próximo lance é do outro contendor, e este lance determinará o desenrolar da partida. Diferente de uma partida comum de xadrês, nesta há um xeque permanente, onde o Rei é a Paz. Um descuido de uma das partes (como sucedeu várias vezes no passado), um lance mal pensado, colocará a Paz em xeque-mate, e o jogo estará perdido. Perdido, para ambos os lados, pois nesta contenda não há vencedor e vencido. Ou ambos ganham, ou ambos perdem. Esta sutil diferença entre os dois tipos de jogo começa a tornar-se cada vez mais clara, e os contendores estão tomando consciência dela. Após o quase heróico lance do Sharon, que pode vir a custar-lhe a própria posição e carreira, Abu Mazen, presidente da Autoridade Palestina, não pode decepcionar. Todos os olhos no mundo estão voltados para ele. É a sua oportunidade (talvez a decisiva, a última) de impor a sua autoridade, de determinar quem dá as ordens. É a sua vez de desarmar todos os grupos militares ou para-militares (terroristas) e criar um exército unificado e uma polícia única que obedeçam as ordens de um único comando. Esse comando militar tem que estar sujeito às resoluções do poder civil, representante da maioria obtida em eleições gerais livres, ou seja, subordinado à Autoridade Palestina e a seu Presidente. Agora não há a quem culpar, omitindo-se de responsabilidades.

Adotar uma política de reconhecimento mútuo dos dois povos, e de resolução das divergências e dos problemas em mesas de discussões, e não através de ameaças e de bombas. Resolver em conjunto os problemas de água, de energia, de desenvolvimento regional, de trabalho e emprego, de meio ambiente e de reservas naturais, de comércio bi-lateral e internacional, e então, de fronteiras concordadas e internacionalmente reconhecidas, a estruturação da confiança mútua entre os povos, finalizando a campanha  de diabolização dos judeus, estabelecimento de relações culturais e de turismo, educando a nova geração para o convívio e a tolerância, e não para o ódio e a rejeição. Então, estará aberto o caminho para a paz, para a coexistência entre os dois povos, o palestino em seu Estado palestino, os judeus em seu Estado de Israel.

A alternativa é a continuação da miséria do povo palestino e do sofrimento da população de Israel. O relógio está batendo. A jogada é sua.

* Markin Tuder  é tradutor e vive em Tel Aviv, Israel