Mubarak, vencedor decidido
Por: Nahum Sirotsky*

No Oriente Médio e ao norte da África, com maioria muçulmana, os países vivem sob regimes autoritários. Não há tradição de eleições democráticas. Mubarak, herói da força aérea egípcia, assumiu o poder depois de Sadat, o presidente de então, ser assassinado. Sadat foi o líder que firmou paz com Israel, metralhado por fanáticos islâmicos, enquanto assistia ao fim de guerra. Era dez anos mais jovem.

Havia o rumor de que passaria o poder para seu filho, como fizera antes o presidente Assad, da Síria. Nunca se explicou porque não o fez. Assumiu o compromisso (“compromisso não é promessa”, disse ao povo) de implantar a democracia, de realizar eleições livres para a presidência e promover reformas modernizantes na economia e na sociedade. Contra ele competiram dez candidatos que tiveram relativo acesso a todos os meios de propaganda, mas em momento algum se imaginou que pudesse ser derrotado.

O Egito tem cerca de um milhão de quilômetros quadrados de extensão e 78 milhões de habitantes. Existe há mais de 3 mil anos antes de Cristo, uma das grandes fontes da civilização de nossos dias. Ficou sob influencia árabe do séc. VII ao séc. XIII. Nesse período, sua população foi convertida ao Islamismo. É o mais populoso país do chamado mundo árabe. Foi domínio turco-otomano e, posteriormente, inglês, mas jamais ignorou suas raízes históricas. É o país líder do mundo árabe e sede da Liga Árabe. O Irã, persa, outro sobrevivente da história antiga, sempre disputa esta primazia. Mubarak, porém, é a personalidade dominante. A influência que se opõem ao domínio egípcio por grupos muçulmanos é a lei de Maomé. As eleições poderiam ser a oportunidade ideal para que chegassem ao poder pelo voto. Não vejo o ocidente muito interessado em apoiar as denúncias contra os truques de Mubarak para não ser derrotado. Aliás, o Egito é o segundo país mais beneficiado por programas de ajuda militar e financeira dos Estados Unidos. A continuidade dele no poder satisfaz aos interesses americanos.

A ascensão dos segmentos fundamentalistas islâmicos ao poder por meios democráticos eleitorais é uma das conseqüências mais prováveis de pressões ocidentais, principalmente americanas, para que os paises árabes reformem seus sistemas políticos autocráticos. No Iraque, por exemplo, se permanecer unificado, tal risco é evidente.
Ele existe por todos os países regionais. A dúvida em relação à proclamação de um estado palestino independente é se será ou não dominado pelos elementos islamitas e será um país inimigo de Israel na sua fronteira. Na Jordânia as reformas acontecem em etapas cautelosas.

A área agricultável é relativamente insignificante. O país ainda depende das águas do rio Nilo, é paupérrimo, e sofre de persistente desemprego. A fé no Islã é a esperança que sustenta as maiorias. O desenvolvimento econômico não se realiza de um dia para outro. Depende de uma vastidão de fatores inclusive, destacadamente, a integridade da classe política e compreensão do empresariado para o fato de que, quanto maior o poder de consumo, maior a lucratividade do capital. Entre o povo, talvez estimulado pelas lideranças religiosas, forte inclinação de culpar o outro, o Ocidente, pela pobreza reinante e pelo nepotismo do poder dominante. É esta combinação que torna improvável democracias substituindo as ditaduras atuais. Até Bush começou a entender que o sistema ideal para os americanos não é exportável. A democracia de Mubarak será aquela que jamais possibilite o cumprimento das liberdades fundamentais.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS e do Último Segundo/IG em Israel. A publicação desta coluna tem a autorização do autor.