Visão Judaica - Edição N° 26
:. Sucot - A Festa da alegria .:


Sucot é uma das três festas de peregrinação prescritas na Torá e, na época do Grande Templo, os judeus de todas as partes dirigiam-se em peregrinação a Jerusalém para comemorá-la. Sucot inicia-se no dia 29 de outubro, 15 de Tishrei, duas semanas após Rosh Hashaná, e tem a duração de 7 dias. No oitavo dia comemora-se Shemini Atzeret e, no nono, Simchat Torá.
Em Sucot celebra-se a generosidade e a proteção que D-us dispensa a seu povo. Em Israel, Sucot coincide com o fim da estação da colheita, uma época em que D-us mostra Sua generosidade ao prover ao homem - através da natureza - os meios para seu sustento.
Sucot marca também a preservação física de Israel durante os 40 anos em que vagou pelo deserto. Os milagres com que D-us abençoou os Filhos de Israel durante sua longa caminhada permitiram sua sobrevivência física e, portanto, em Sucot aprendemos que "D-us é Aquele que sustenta a natureza, Ele que distribui todas as formas de vida".
A sucá
Celebramos Sucot após as festas de Rosh Hashaná e Iom Kipur. Mas não seria mais apropriado construir cabanas em Pêssach, já que o intuito desse mandamento é lembrar os milagres ocorridos na saída do povo judeu do Egito? Muitos já se perguntaram isso. Existe uma resposta que é fundamental para entender o significado de Sucot. Na Terra de Israel, Pêssach cai sempre na primavera. Habitar em cabanas, ao ar livre, no verão, quando o calor dentro de casa é intenso, é agradável. Porém, um Mandamento Divino não deve ser cumprido pelo fato de ser agradável; não é assim que uma pessoa demonstra seu empenho e devoção em cumprir a Vontade de D-us. Ao habitar dentro de uma sucá durante o outono, apesar do frio, o povo de Israel demonstra ao Eterno sua firme intenção de obedecê-Lo. A festa de Sucot é celebrada durante o mês de Tishrei para mostrar que nem o frio, nem o vento podem impedir-nos de cumprir a vontade de D-us.
Há ainda uma outra explicação: após Rosh Hashaná e Iom Kipur é natural nos preocuparmos com o julgamento e os decretos Divinos. Será que nossas preces em Iom Kipur foram aceitas? Será que fomos perdoados? Mesmo sem saber a resposta e esperando pelo julgamento, construímos cabanas logo após Iom Kipur.
Nossos sábios ensinam que o exílio serve como expiação de pecados. Portanto, ao construir cabanas após Iom Kipur, é uma forma de dizer ao Todo Poderoso: se algum de nós foi condenado ao exílio (que D-us não o permita), que a mudança de endereço de nosso lar para a sucá sirva como cumprimento da sentença. Assim, ao cumprir este mandamento de D-us, possa a sentença ser considerada como cumprida e o perdão e a absolvição, conquistados.
Sim, é inacreditável! O ato de deixar a nossa residência permanente e mudar-nos para a sucá pode ser considerado um exílio. Daí deduzirmos o quanto nossos atos são preciosos e importantes perante D-us. O judaísmo ensina que mesmo os atos mais simples e aparentemente insignificantes são de grande valor para o Eterno.
Os significados das leis da sucá
As leis das sucá, além de serem bastante específicas, dão-nos importantes lições de vida.
A sucá é uma habitação formada por paredes e teto. Para a fabricação das divisórias pode-se usar qualquer tipo de material sólido (pedra, madeira, ferro, vegetal, plástico e até junco). Porém, para construir a cobertura da cabana onde se deve habitar durante Sucot só é permitido usar material vegetal recém-cortado, como folhagem, bambu e madeira, entre outros.
As paredes da sucá simbolizam o status social do indivíduo ou da família que a constrói. Elas representam sua posição socioeconômica e o patrimônio adquirido ao longo dos anos. Por isso, a construção das paredes da sucá pode ser feita com qualquer tipo de material, do mais simples ao mais luxuoso. Para cumprir o mandamento da sucá, deve-se habitar debaixo da sombra provida pelo schach. Esta sombra representa a proteção Divina que todas as pessoas das mais bem-sucedidas às mais humildes necessitam e almejam. Por representar a Proteção Divina, o schach não pode ser feito de material industrializado pelo ser humano. Ao cobrirmos a sucá com o vegetal tal qual é encontrada na natureza, a nossa intenção é demonstrar que somos todos parecidos e todos necessitamos da proteção do Criador.
Outra lei referente a sucá é a exigência de que dentro da cabana a sombra seja mais importante de que a luminosidade. Por isso, devemos colocar bastante folhagem no schach para que a luz do sol não penetre tanto na sucá. O sol, neste caso representa as posses materiais. Em Sucot, nossa preocupação é com a sombra e a proteção Divina, que aquecem muito mais que o astro-rei.
A sucá também não pode ser construída com paredes que tenham altura maior que 9,6 m. O Talmud explica a razão: se as paredes da sucá fossem mais altas, a pessoa estaria sentada sob a sombra das paredes e não do schach, como manda a lei. E esta, apesar de aparentar ser exclusivamente técnica, tem uma simbologia significativa. A pessoa deve residir sob a sombra do schach, ou, como vimos, a proteção Divina. Se sentasse debaixo da sombra resultantes de paredes altas, a pessoa estaria demonstrando que confia mais em suas posses materiais simbolizados pelas paredes da sucá, como explicado acima, do que no amparo de D-us.
Uma outra lei de Sucot estabelece que uma sucá que foi construída no ano anterior perde sua validade se não for, de alguma forma, alterada. O Talmud explica que o mandamento da sucá, como outros da Torá, deve ser cumprido de forma ativa: Taassé veló min Heassui o que quer dizer, em hebraico "faça e não [repita o mandamento] que já está cumprido".
O ensinamento de "Taassé veló min Heassui” é claro, categórico e universal: faça você mesmo as coisas e não espere que os outros as façam por você! Não fique de lado olhando e criticando! Arregace as mangas e coloque a “mão na massa!” Este conceito é a base do judaísmo e de uma vida significativa. A prática do judaísmo não é concretizada com pensamentos e palavras, mas apenas com atos. O ser humano costuma ter um olho crítico: reclama do comportamento de seus semelhantes, chama a atenção de outros e faz pouco caso das agruras alheias. Este não é o desejo de D-us, nem o caminho da Torá. Nossos sábios ensinam que a vontade Divina pode ser cumprida apenas com bons atos.
As Quatro Espécies
Assim, no primeiro dia da festividade de Sucot, cada pessoa deve adquirir para si as “Quatro Espécies” (em hebraico, Arbaá Minim) – um etrog (fruta cítrica), o lulav (ramo de palmeira), o hadás (ramo de mirta) e os aravot (ramos de salgueiro). As quatro espécies usadas para cumprir este mandamento prescrito pelo Todo-Poderoso são, em essência, a representação simbólica de tudo o que D-us criou para o homem.
Conclusão
Para concluir, existe ainda um outro motivo pelo fato de comemoramos Sucot no mês de Tishrei. A sucá, devido à fragilidade de sua estrutura, é uma moradia provisória. De fato, a Torá exige que a sucá seja construída como uma moradia provisória; caso contrário, é inválida para o cumprimento do mandamento. Por que a sucá deve ser uma cabana e não uma bela residência? Para nos lembrar que a vida é passageira. Ao se referir à vida do ser humano, o Salmista declara: "Yamav ketsel over" seus dias são como uma sombra que passa. Consta no Midrash que nossa vida na Terra não é comparável à sombra de uma parede, nem à de uma árvore, mas à sombra de um pássaro que voa.
Aquele que se conscientiza deste grande ensinamento do judaísmo, desde o início do ano, saberá valorizar seu tempo e transformar cada dia de sua existência terrestre numa vida útil e produtiva.

Fonte: Revista Morashá - Edição 30 - Setembro de 2000, Edição 42 - Setembro de 2003 (Rabino Avraham Cohen), Edição 38 - Setembro de 2002.

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