Por: Jane Bichmacher de Glasman*
Os trechos a seguir foram retirados das fontes talmúdicas citadas,
sendo que ao indicar TI, refere-se ao Talmud Ierushalmi ou de Jerusalém;
quando não houver indicação, trata-se do Talmud Bavli
ou Babilônico1. A seleção foi feita com base no volume
II de A Sabedoria de Israel, organizado por Lewis Browne (RJ: Biblos, 1963),
adaptados por Jane B. de Glasman.
Do Pecado
Dizia rabi Hanina ben Hama: Tudo está em poder do céu, salvo
o temor do céu. D-us e a sua Providência determinam de antemão
o que o homem há de ser e o que lhe acontecerá; não
preestabelecem, porém, se ele será justo ou perverso. (Nidá 16b)
Se o homem se guardar do pecado uma, duas, três vezes, daí em
diante D-us o guardará. (TI, Kidushim 1, fim).
Quando o homem comete duas vezes o mesmo ultraje, este já lhe parece
lícito. (Ioma 87a)
Se o homem fabrica freios para as suas bestas, muito mais os deveria fazer
para os seus impulsos, que o podem induzir a levar uma vida boa ou desregrada.
(TI, Sanhedrim 10:1).
A que se pode comparar o pecador? Ao que segura algemas abertas e enfia os
pulsos nelas. (TI, Nedarim 9:1).
Estando rabi Iohanan ben Zacai às portas da morte, foram os discípulos
visitá-lo e antes de o deixarem, disseram-lhe: Mestre, dê sua
bênção de despedida.
Disse-lhes o rabi: Acompanhe-os o temor de D-us como o temor dos homens.
Observaram os discípulos: Não devemos temer o Senhor mais do
que os homens?
—
Se recearem tanto pecar em particular, quando só D-us está presente,
como pecar em público, que mais se pode desejar? (Berachot 28b)
Ninguém peca por outrem. (Baba Metzia 8a)
Incomodado seriamente por uns vizinhos, rabi Meier rogou a D-us que os levasse
da terra. Sua esposa Beruria, porém, discutiu com ele e disse-lhe:
Está escrito: “Cesse o pecado, e não haverá mais
pecadores”. Logo, roga por eles, para que se arrependam e já não
haverá pecadores. (Berachot 9b)
O incenso tem cheiro desagradável; está, entretanto, incluído
nos ingredientes do santo incenso. Isto nos ensina que não devemos
hesitar em incluir pecadores na congregação do culto. (Keritot
6b)
Do Mau Impulso
Eis o ardil do mau impulso: hoje ele te diz: “Faz isto”; amanhã: “Faz
aquilo”; e finalmente: “Adora um ídolo”. E você o
fará. (Shabat 105b)
O mau impulso deseja só o que é proibido. Rabi Mena (em Iom
Kipur) foi visitar o seu colega Hagai que estava enfermo. Disse rabi Hagai:
Tenho sede. Replicou rabi Mena: Pode beber. (Embora fosse dia de jejum).
Após uma hora, rabi Mena voltou e disse: E a tua sede? Respondeu-lhe
o enfermo: Mal tive licença de beber, o desejo se desvaneceu. (TI,
Ioma, 6:4).
Se o mau impulso te disser: “Peca; D-us te perdoará”,
não acredites. (Haguigá 16a)
Quanto maior é o homem, mais poderoso o mau impulso. (Sucá 52a)
O mau impulso seduz neste mundo e acusa no outro. (Sucá 52b)
O mau impulso é doce no princípio, amargo no fim. (TI, Shabat
14:3).
Prova-se com a Torá, os profetas e as outras Escrituras sagradas,
que o homem se deixa levar pelo caminho que deseja seguir. (Makot, 10b).
Do Perdão aos Inimigos
Aprende a receber os golpes e perdoa os que te ofendem. (Avot d’R Natan
41)
Dizia rabi Aba, em nome de rabi Alexandre: O que ouve em silêncio os
insultos que lhe são dirigidos, embora pudesse fazer calar o ofensor,
torna-se parceiro de D-us. D-us não ouve como as nações
blasfemam? Apesar disto não permanece silencioso? (Midrash Tehilim
86:1)
D-us ama o perseguido e abomina os perseguidores. (Pesicta Rabati 193b)
Se alguém falar mal de você, não dê importância
ao pior que disserem. Se você falar mal de alguém, o mínimo
reparo pareça-te enorme. Se praticou o bem, não exagere a importância
das tuas boas ações. Enalteça, porém, o menor
benefício que receber de alguém. Se A disser a B: “Empresta-me
a foice” e B recusar; e se no dia seguinte B disser a A: “Empresta-me
a pá” e A responder: “Não; porque você se
negou a emprestar-me a foice”, esse procedimento é represália
(que a lei proíbe). Se A disser a B: “Empresta-me a enxada” e
B recusar; e, se no outro dia B disser a A: “Empresta-me a foice” e
A responder: “Aqui a tem; eu não sou como você, que me
negou a enxada”, isso é guardar ressentimento (o que também é proibido).
(Sifra 89b)
Quem é o herói mais intrépido? O que transforma o adversário
em amigo. (Avot R Natan 23)
Da Fraternidade
Quando o ano é próspero, os homens tratam-se fraternalmente.
(Bereshit Rabá 89:4)
Quem souber de alguma prova a favor do réu não tem licença
para calar, pois assim poderia se tornar responsável pela morte dele.
Quem vir seu semelhante em perigo mortal, por ter caído no rio, ser
atacado por salteadores ou ferido por qualquer outra desgraça, não
se abstenha de lhe acudir, pois tem obrigação de valer ao seu
próximo. Quem vir um homem perseguir outro homem, para o matar ou
roubar, tem o dever de intervir para prevenir o crime; e, se for necessário,
cumpre-lhe matar o perseguidor. (Sifre Kedoshim Perek 4)
É
fácil adquirir um inimigo; difícil é conquistar um amigo.
(Ialcut Shimeoni, Pentat 845).
Não diga: Prezarei o douto e detestar o ignorante. Diz: Prezarei os
dois. (Avot R Natan 16)
O que der ao seu semelhante as melhores dádivas do mundo, mas de má vontade,
não tem merecimento algum perante a Escritura. Mas acolher cordialmente
o nosso próximo equivale, segundo a Escritura, a dar-lhe os melhores
presentes deste mundo. (Avot d’R Natan 13)
O que se deve fazer se um de dois viajantes no deserto guardou um pouco de água
e o outro não? Se qualquer deles bebesse toda a água, sobreviveria;
repartindo-a, morrerão ambos. Ben Paturi decidiu que bebam ambos,
mesmo que morram; pois está escrito: “Viverás com teu
irmão”.(Sifra, Vaikra 25:36).
Da Consciência Social
Para ilustrar a verdade de que o homem não peca só para seu
mal, rabi Simeon bar Iohai dizia: “Estavam alguns homens sentados numa
embarcação e um deles, pôs-se a abrir um furo debaixo
do seu lugar. Os outros exclamaram: O que você está fazendo?
Replicou ele: É da sua conta? Não estou abrindo um buraco debaixo
do meu banco?”.
Naturalmente é da nossa conta, retrucaram os outros, pois a água
virará o bote e nós com ele. (Vaikra Rabá 4:6)
Nota:
1 Ver a respeito “Interseções: judaísmo e outras
culturas e religiões na Antigüidade”, da autora do texto,
Rio de Janeiro, 1999.
* Jane Bichmacher de Glasman é Doutora em Língua Hebraica,
Literaturas e Cultura Judaica pela USP. É professora, fundadora e
ex-diretora do Programa de Estudos Judaicos da UERJ, professora e coordenadora
do Setor de Hebraico UFRJ (aposentada), coordenadora do Grupo de Estudos
Beer Miriam da ARI e escritora.