Por: Nilton Bonder*
Aproxima-se o dia do Kipur, Dia do Perdão. Neste dia, dita a tradição,
D-us se faz transcendente e ocupa seu Trono recôndito não estando
mais entre nós. Estamos sós. Iom Kipur, o dia espiritual máximo
do calendário hebraico, é um dia sem D-us. Como se dessa ausência
e dessa solidão pudessem aflorar a mais visceral das humanidades e
a mais ácida das consciências.
O rabino de Kotzk costumava afirmar que tudo no universo tem um propósito
e uma faceta positiva. Por conta disso foi desafiado por um discípulo: “E
o que há de positivo em um ateu?” Ele respondeu de imediato: “O
ateu vê uma pessoa com fome e não tem para quem repassar a responsabilidade.
Não pode dizer ‘que D-us te ajude’. Ou ele toma a si a
situação ou não toma. Não há subterfúgios!” Sem
usar D-us fica mais difícil ser reativo, passivo, conformado, dependente,
apático, indiferente, submisso ou insensível. O Kipur, Dia
do Perdão, nutre-se desse paradoxo: o dia da ausência é o
dia de sua mais densa presença porque não podemos corromper
Sua palavra e Sua vontade para avalizar nossas palavras e nossas vontades.
Porque a ausência de D-us nos empossa e nos investe de parceria. E
quanto mais parceiros, mais humanos nos fazemos.
O mundo de hoje está saturado de D-us. Não é o D-us
dos profetas que um dia preencherá todos os corações,
mas o D-us que sufoca o humano e que como um ídolo se torna repositório
de todas as pequenas verdades dos homens. Verdades essas que excluem e destroem
e que matam indiscriminadamente em guerras, ônibus, trens e agora também
em escolas. O que seria dos homens se deixassem D-us de fora e assumissem
o que fazem? Com certeza muitos enlouqueceriam e muitos se fariam mais humanos. É muito
fácil fazer o que D-us quer e desvencilhar-se da responsabilidade
do arbítrio do próprio indivíduo. Por isso todo homem-bomba
que se explode termina com suas 70 virgens — com 70 consciências
de lucidez a lhe dilacerar em culpa pela eternidade afora!
D-us foi talvez a descoberta mais refinada de nossa consciência e,
ao mesmo tempo, a que mais sofrimento trouxe. Entende-se agora a dificuldade
de não fazermos imagens e de não usarmos o Seu Nome em vão.
O saber infelizmente nunca nos fez humildes, ao contrário, apenas
o não saber produz esse efeito. E a maior das sabedorias nos levou à mais
grosseira das soberbas? conhecermos a vontade do Criador. O terrorismo no
mundo de hoje vem de braços dados com esse saber. É um D-us
que fala por causas escusas que são maiores do que a vida e por meio
de um ódio que não é próprio de quem sofre já que é insensível
ao sofrimento do outro.
Imperdoável ao terrorismo não é o mal que nos causa,
mas o quanto nos faz mais maus. Como vítimas de abuso e de violência
nos tornamos igualmente inoculados e transmissores de violência e abuso.
Nossa revolta quer de imediato acionar o Nome de D-us e sua jurisprudência
cósmica. Afastamo-nos todos de nossa humanidade e como vítimas
estamos agora prontos a reagir em Nome de D-us. Cabe às religiões
esvaziar o planeta de D-us e declarar a todos os seus fiéis que, em
tempos como estes, aqueles que falam em nome de D-us são todos falsos
profetas. Pior: são falsificações de si mesmos. São
homens que não tomam a peito as suas ações e que são
desprezíveis não só porque usam crianças como
escudos humanos, mas acima de tudo porque usam D-us como escudo divino. Cabe
a todos os que testemunham em si a revelação de D-us esvaziar
o mundo de falas de D-us. Que os homens pensem e façam o que acharem
que devem pensar e fazer. E que como homens sejam julgados por si e por outros.
O mal do mundo não é a infidelidade a D-us, mas a infidelidade
ao humano e à vida. Isso porque, como dizia o mesmo rabino de Kotzk,
tudo e todos têm o seu lugar próprio no mundo. E quando outro
discípulo lhe perguntou: “E se todos têm o seu lugar,
por que o mundo nos parece tão lotado?” Ele respondeu: “Porque
cada um quer ocupar o lugar do outro”.Talvez essa seja a melhor maneira
de definir o terrorismo, ou seja, como o ato de querer ocupar o lugar do
outro. E a forma mais plena de simbolizar isso é querer ocupar o lugar
do Outro — de D-us. Resta fazer um pedido estranho, próprio
de tempos estranhos: que o ano possa ser de menos D-us! Menos D-us nas falas
e de mais D-us no coração!
*Nilton Bonder é escritor e rabino da Congregação Judaica
do Brasil.