Visão Judaica - Edição N° 26
:. O anti-semitismo contemporâneo dissecado .:


Jornalista e professor Luis Milman esteve em Curitiba para lançar livro sobre o tema

Coordenado pelo jornalista e professor universitário Luis Milman, o livro “Ensaios Sobre o Anti-Semitismo Contemporâneo – dos mitos e da crítica aos tribunais” conta com quatro ou cinco textos dele próprio e também de Francisco Moreno de Carvalho, Alberto Dines, Roney Cytrynowicz e Jayme Brener, com apresentação de Cláudio Camargo (da revista IstoÉ). A obra foi lançada em Curitiba, dia 9/9, no auditório do Instituto Goethe, seguida de um debate em que participaram, além de Milman, o professor Antonio Carlos Coelho, a professora e autora Tânia Baibich e o ex-reitor da Universidade Federal do Paraná, professor José Henrique de Faria.
O livro contém 21 documentos e artigos publicados sobre o caso Siegfried Ellwanger e seus livros neonazistas até sua histórica condenação no Supremo Tribunal Federal e o anti-semitismo. Luis Milman situou o início dos trabalho do livro em 2001, com base na ação iniciada em 1986 pelo Mopar - Movimento Popular Anti-Racismo, de Porto Alegre contra Ellwanger, condenado no Rio Grande Sul por preconceito contra judeus. Naquela ocasião, ele alegava o direito à liberdade de expressão. Milman observa que em uma democracia, não se pode tudo, pois há responsabilidades. O caso chegou a ser levado ao Supremo Tribunal Federal (STF), em vista de um direito de apelação e, por fim, por força de um habeas corpus, pedido por Ellwanger, o negacionista. A alegação do condenado aí, passou a ser outra: a de que não sendo os judeus uma raça, ele não teria cometido crime, e portanto, sua sentença seria prescritível. Não adiantou, a condenação foi confirmada.
O julgamento no STF atraiu as atenções gerais, foi um processo extenso, mas no final, observou Milman, prevaleceu o espírito da Constituição brasileira que é de característica humana. A idéia do livro nasceu da historiografia, com base na documentação do caso. O organizador destaca o brilhante voto dado pelo ministro Celso de Mello, condenando o negacionista.
A análise da decisão do STF e de sua dimensão histórico-jurídica é um dos temas dominantes da coletânea, mas o livro é também uma excursão pelo persistente preconceito anti-judaico que existe no Brasil, e por isso, uma segunda parte dele é dedicada à exploração do anti-semitismo de esquerda, apregoado por partidos extremistas no exterior e no Brasil. Uma terceira parte da coletânea é sua parte documental, que não apenas recupera a memória da luta contra a difusão do anti-semitismo revisionista no Brasil, mas que oferece, pela primeira vez aos leitores e pesquisadores brasileiros, entre outros documentos inéditos, a íntegra da sentença histórica da Corte de Direitos Humanos da União Européia, que ratificou a condenação do conhecido autor Roger Garaudy, por crime de negacionismo. A sentença está no livro traduzida diretamente do francês para o português e é uma das peças mais valiosas da coletânea, no entender de Milman.
Mas o livro, segundo ele, não é um livro de elogios, pois pretende ser uma reflexão. Por isso, há críticas não só de ordem política, conceitual e histórica, mas também de âmbito jurídico-conceitual, porque a tese de Ellwanger foi acolhida primeiro pelo ex-ministro Moreira Alves do STF e depois pelos ministros Carlos Ayres Britto e Marco Aurélio Mello, com argumentos preocupantes. Para Milman, esses três votos são classificados, pela ordem, como racialista, exclusivista e surrealista. O livro é um trabalho informativo e reflexivo, que se propõe ao debate intelectual em todas as suas dimensões, para desvendar o extravagante empreendimento negacionista.
Milman explica que algumas vezes os negadores do Holocausto dão forma ao seu ceticismo fantasioso e inusitado em linguagem acadêmica, em outras na modalidade de grosseiro panfletarismo neonazista ou degeneração ideológica esquerdista. Mas negacionistas não são os únicos anti-semitas que o mundo do pós-guerra conhece. Há anti-semitas politicidas, anti-racistas moral e intelectualmente atrapalhados e anti-sionistas que fazem parte de uma extrema esquerda adepta da teoria conspiratória da história. O que une a todos é a demonização da existência do Estado de Israel. Não é incomum que nos deparemos com uma confusão desde o final dos anos 80, entre crítica a ações políticas ou militares de Israel e rejeição à sua existência. Por isso, convém separar as coisas. Criticar Israel por seu erros não pode ser considerado anti-semitismo, mas criticar o sionismo, como fazem intelectuais como Noam Chomsky e Tarik Ali, que grande parte da esquerda acolhe como legítimas, é sim, anti-semitismo, observa.
A liberdade de expressão, explica o professor Milman, não pode ser equiparada com manipulação ou má-fé para sustentação desse tipo de literatura inconseqüente, produzida por negacionistas do tipo de Robert Faurisson e Siegfried Ellwanger. E acrescenta que os intelectuais brasileiros fazem ouvidos moucos e olhos brancos quando o que se propaga é o anti-semitismo. O livro “Ensaios Sobre o Anti-semitismo Contemporâneo”, trata o anti-semitismo como anti-semitismo, não entra na questão do conflito do Oriente Médio.
O professor Luis Milman citou o caso de Voltaire Schiling que escreveu um artigo criticando a esquerda por defender a direita de ter direito de liberdade de expressão para difusão de idéias nazistas. E recordou os casos da esquerda radical como a revista Caros Amigos, que publica teses fantasiosas e delirantes como Israel ter sido uma criação do nazismo, ou a de que os judeus são co-responsáveis pela criação dos campos de morte na Segunda Guerra Mundial. Ou a ainda a revista da Liga Internacional dos Trabalhadores e a QI – Quarta Internacional, dissidência à qual está ligada o PSTU. Esse tipo de esquerda, disse ele, considera o Brasil um país com mais vícios do que virtudes. Ele analisa que até 1967 (quando da Guerra dos Seis Dias) Israel era o xodó das esquerdas mundiais. E após 67, quando numa guerra de sobrevivência Israel ocupou a Cisjordânia, essas esquerdas inverteram suas simpatias.
Durante o debate forma colocadas questões como o enfrentamento do preconceito e a liberdade de expressão restrita, o anti-semitismo como uma modalidade de racismo social e se discutiu com profundidade esses aspectos.

 

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