Jornalista e professor Luis Milman esteve em Curitiba para lançar
livro sobre o tema
Coordenado pelo jornalista e professor universitário Luis Milman,
o livro “Ensaios Sobre o Anti-Semitismo Contemporâneo – dos
mitos e da crítica aos tribunais” conta com quatro ou cinco
textos dele próprio e também de Francisco Moreno de Carvalho,
Alberto Dines, Roney Cytrynowicz e Jayme Brener, com apresentação
de Cláudio Camargo (da revista IstoÉ). A obra foi lançada
em Curitiba, dia 9/9, no auditório do Instituto Goethe, seguida de
um debate em que participaram, além de Milman, o professor Antonio
Carlos Coelho, a professora e autora Tânia Baibich e o ex-reitor da
Universidade Federal do Paraná, professor José Henrique de
Faria.
O livro contém 21 documentos e artigos publicados sobre o caso Siegfried
Ellwanger e seus livros neonazistas até sua histórica condenação
no Supremo Tribunal Federal e o anti-semitismo. Luis Milman situou o início
dos trabalho do livro em 2001, com base na ação iniciada em
1986 pelo Mopar - Movimento Popular Anti-Racismo, de Porto Alegre contra
Ellwanger, condenado no Rio Grande Sul por preconceito contra judeus. Naquela
ocasião, ele alegava o direito à liberdade de expressão.
Milman observa que em uma democracia, não se pode tudo, pois há responsabilidades.
O caso chegou a ser levado ao Supremo Tribunal Federal (STF), em vista de
um direito de apelação e, por fim, por força de um habeas
corpus, pedido por Ellwanger, o negacionista. A alegação do
condenado aí, passou a ser outra: a de que não sendo os judeus
uma raça, ele não teria cometido crime, e portanto, sua sentença
seria prescritível. Não adiantou, a condenação
foi confirmada.
O julgamento no STF atraiu as atenções gerais, foi um processo
extenso, mas no final, observou Milman, prevaleceu o espírito da Constituição
brasileira que é de característica humana. A idéia do
livro nasceu da historiografia, com base na documentação do
caso. O organizador destaca o brilhante voto dado pelo ministro Celso de
Mello, condenando o negacionista.
A análise da decisão do STF e de sua dimensão histórico-jurídica é um
dos temas dominantes da coletânea, mas o livro é também
uma excursão pelo persistente preconceito anti-judaico que existe
no Brasil, e por isso, uma segunda parte dele é dedicada à exploração
do anti-semitismo de esquerda, apregoado por partidos extremistas no exterior
e no Brasil. Uma terceira parte da coletânea é sua parte documental,
que não apenas recupera a memória da luta contra a difusão
do anti-semitismo revisionista no Brasil, mas que oferece, pela primeira
vez aos leitores e pesquisadores brasileiros, entre outros documentos inéditos,
a íntegra da sentença histórica da Corte de Direitos
Humanos da União Européia, que ratificou a condenação
do conhecido autor Roger Garaudy, por crime de negacionismo. A sentença
está no livro traduzida diretamente do francês para o português
e é uma das peças mais valiosas da coletânea, no entender
de Milman.
Mas o livro, segundo ele, não é um livro de elogios, pois pretende
ser uma reflexão. Por isso, há críticas não só de
ordem política, conceitual e histórica, mas também de âmbito
jurídico-conceitual, porque a tese de Ellwanger foi acolhida primeiro
pelo ex-ministro Moreira Alves do STF e depois pelos ministros Carlos Ayres
Britto e Marco Aurélio Mello, com argumentos preocupantes. Para Milman,
esses três votos são classificados, pela ordem, como racialista,
exclusivista e surrealista. O livro é um trabalho informativo e reflexivo,
que se propõe ao debate intelectual em todas as suas dimensões,
para desvendar o extravagante empreendimento negacionista.
Milman explica que algumas vezes os negadores do Holocausto dão forma
ao seu ceticismo fantasioso e inusitado em linguagem acadêmica, em
outras na modalidade de grosseiro panfletarismo neonazista ou degeneração
ideológica esquerdista. Mas negacionistas não são os únicos
anti-semitas que o mundo do pós-guerra conhece. Há anti-semitas
politicidas, anti-racistas moral e intelectualmente atrapalhados e anti-sionistas
que fazem parte de uma extrema esquerda adepta da teoria conspiratória
da história. O que une a todos é a demonização
da existência do Estado de Israel. Não é incomum que
nos deparemos com uma confusão desde o final dos anos 80, entre crítica
a ações políticas ou militares de Israel e rejeição à sua
existência. Por isso, convém separar as coisas. Criticar Israel
por seu erros não pode ser considerado anti-semitismo, mas criticar
o sionismo, como fazem intelectuais como Noam Chomsky e Tarik Ali, que grande
parte da esquerda acolhe como legítimas, é sim, anti-semitismo,
observa.
A liberdade de expressão, explica o professor Milman, não pode
ser equiparada com manipulação ou má-fé para
sustentação desse tipo de literatura inconseqüente, produzida
por negacionistas do tipo de Robert Faurisson e Siegfried Ellwanger. E acrescenta
que os intelectuais brasileiros fazem ouvidos moucos e olhos brancos quando
o que se propaga é o anti-semitismo. O livro “Ensaios Sobre
o Anti-semitismo Contemporâneo”, trata o anti-semitismo como
anti-semitismo, não entra na questão do conflito do Oriente
Médio.
O professor Luis Milman citou o caso de Voltaire Schiling que escreveu um
artigo criticando a esquerda por defender a direita de ter direito de liberdade
de expressão para difusão de idéias nazistas. E recordou
os casos da esquerda radical como a revista Caros Amigos, que publica teses
fantasiosas e delirantes como Israel ter sido uma criação do
nazismo, ou a de que os judeus são co-responsáveis pela criação
dos campos de morte na Segunda Guerra Mundial. Ou a ainda a revista da Liga
Internacional dos Trabalhadores e a QI – Quarta Internacional, dissidência à qual
está ligada o PSTU. Esse tipo de esquerda, disse ele, considera o
Brasil um país com mais vícios do que virtudes. Ele analisa
que até 1967 (quando da Guerra dos Seis Dias) Israel era o xodó das
esquerdas mundiais. E após 67, quando numa guerra de sobrevivência
Israel ocupou a Cisjordânia, essas esquerdas inverteram suas simpatias.
Durante o debate forma colocadas questões como o enfrentamento do
preconceito e a liberdade de expressão restrita, o anti-semitismo
como uma modalidade de racismo social e se discutiu com profundidade esses
aspectos.