Por: Morris Abadi *
Muitos se lembram do que faziam em um determinado dia, ou em
determinada hora. Aliás, todos temos alguma lembrança
associada deste tipo.
Alguns, por exemplo, se lembram exatamente do que estavam fazendo,
do que estavam falando, com quem estavam falando, onde estavam,
quando Kennedy foi assassinado em Dallas, quando Senna morreu
no acidente em Ímola, quando o Brasil perdeu a Copa do
Mundo para a França, quando as torres gêmeas foram
alvo de um atentado.
Em um aspecto mais pessoal, temos também nossas lembranças
associadas. Lembro da roupa que estava usando quando dei uma
surra naquele cara que me chamou de judeu sujo, ou do motivo
que me levou a tomar aquela lendária bofetada de meu pai
(que nunca batia na gente), o que estava comendo quando recebi
a notícia de que havia entrado na faculdade, que música
tocava quando decidi casar com ela, e assim por diante.
Aquele dia, eu me lembro do que estávamos estudando. Estávamos
estudando o significado de alguns sonhos. Este não é o
foco desta conversa, mas foi em cima de sonhos que deduzimos
que Yossef haTzadik (José o sábio) foi libertado
para se tornar o chefão do Egito exatamente em Rosh Hashaná.
Pois o Faraó teve aquele sonho sobre as vacas gordas e
as vacas magras e tudo o mais na noite anterior ao dia em que
Yossef os interpretou. E naquela noite, D-us tinha determinado
qual seria a sorte do Faraó e de seu império.
Mas qual o motivo de termos tido um shiur (grupo de estudos)
em grupo faz anos, e eu me lembrar exatamente do shiur, de quem
estava presente, e assim por diante?
Aquele dia, o Rav (rabino) de repente fechou o Chumash (Pentateuco).
Era uma ocasião em que a sena estava com o prêmio
acumulado. Coisa, na época, equivalente a US$ 10 milhões.
E o Rav perguntou, a cada um de nós (éramos quatro
bachurim [rapazes], a assistir aquele shiur): “Se vocês
ganhassem o prêmio sozinhos, o que fariam?”
Um colega respondeu que doaria a metade para instituições
de caridade, e que com o resto se aposentaria, e passaria o tempo
fazendo esportes e estudando no kolel (instituto de estudos).
O outro respondeu que daria 10% para os necessitados, e que ficaria
com o restante aplicado e se aposentaria, e faria somente o que
gosta.
Mais um disse que daria 20% do valor para tzedaká (caridade),
e que aplicaria o restante, vivendo confortavelmente para o resto
de sua vida.
O quarto bachur disse que daria uma parte a cada um de seus sobrinhos,
daria uma quantia respeitável para escolas, sinagogas
e instituições, e com o resto (cerca de 50%) se
aposentaria para estudar e conviver o máximo que pudesse
com sua esposa e filhos, além de fazer esportes diariamente.
O Rabino já havia feito as contas enquanto falávamos.
Ele começou analisando nossas respostas comentando de
que cada um de nós optara por ficar, do total de US$ 10
milhões, com algo entre US$ 5 milhões e US$ 9 milhões.
Então veio a conversa séria. Ele nos disse que
não havíamos entendido nada, absolutamente nada
de tudo o que havíamos estudado até então.
Disse que não tínhamos noção de limites,
que não merecíamos parte do que tínhamos.
Pois colocamos valores inacreditavelmente altos como necessários
para que vivêssemos. E não havíamos levado
em consideração, que precisávamos de muito
menos do que estipuláramos para viver bem e muito bem,
e sequer havíamos levado em consideração
que se tivéssemos tanto, é por que a parte de muitos
estaria então conosco. E que o objetivo verdadeiro seria
o de dar àquelas pessoas o que precisavam. E não
nos regalarmos às custas do que não nos pertencia.
Por isso, quando estamos à frente de nosso armário
com nossas roupas e sapatos, quando estamos confortavelmente
deitados em nossas camas de noite, quando estamos frente a uma
magnífica mesa de shabat, não custa nada lembrar
que temos tudo. E que tem tantos, tantos que nada têm.
Naquela noite, nós nos envergonhamos.
Shaná Tová Umetuká (um ano novo doce), e
que Am Israel (Povo de Israel) alcance a paz tão querida
e tão almejada.
Shalom lekulam (Paz a todos).
* Morris Abadi é administrador de empresas.