Por: Sergio Feldman *
Aproximamo-nos de Iom Kipur (Dia da Expiação), o décimo
dia do novo ano judaico, um dos momentos mais solenes, do calendário
judaico. Alguns judeus que não freqüentaram a sinagoga, durante
todo o ciclo anual, se dirigem à nossa casa de orações
e buscam nela resgatar, um pouco de suas raízes. São os judeus “de” Rosh
Hashaná (Ano Novo) e “de” Iom Kipur. Uma das motivações
que os conduzem às suas raízes é a oração
em recordação de entes queridos que já “não
estão conosco”: o Izkor. Muitos não sabem, mas esta oração
IN MEMORIAM dos que se foram, é feita quatro vezes por ano. No último
dia das três festas que compõem os Shalosh Regalim ou três
festas de peregrinação (oitavo dia de Pessach, no segundo dia
de Shavuot e no oitavo dia de Sucot) e no último dia dos Dez dias
de Penitência, ou seja, em Iom Kipur.
A maioria dos judeus só reverencia seus entes queridos no Izkor de
Iom Kipur. A sinagoga fica repleta de pessoas que só vêm uma
vez por ano, que só se recordam que são judeus, nesta data.
Isso comprova que memória e história são elementos centrais
de nossa identidade.
Ouve-se muito falar que os judeus são desmemoriados. Que não
aprendem da sua História e que se esquecem das lições
que seus antepassados vivenciaram. Trata-se de uma questão contraditória:
somos a um tempo, o povo da História, da memória e em contraponto,
também somos às vezes desmemoriados. Isso é comum a
todos seres humanos. Não seria diferente com os judeus.
Na Idade Média se fizeram muitos dias de jejum e de recordação,
no calendário de certas comunidades e certas regiões. As Cruzadas
(1095-1250) foram o momento mais doloroso do judaísmo ashkenazi (europeu
franco-alemão, originado no Medievo e que veio a migrar para a Europa
Oriental e criar as comunidades polonesas e russas, p.ex.). Massacres ocorreram
em diversas ocasiões: comunidades foram arrasadas, milhares de judeus
se imolaram em Kidush Hashem (pela santificação do Nome Divino)
e alguns poucos (minoria) se converteram para sobreviver fisicamente. Em
muitas congregações se decretou luto e jejum na data dos massacres.
Por décadas, e às vezes, por séculos, orações
eram proferidas IN MEMORIAM, nestas comunidades ou em outras derivadas destas.
O genocídio não é um fato novo, tampouco se limitava
aos judeus, mas sempre foi mais intenso e duradouro, em relação
aos judeus. Massacres seguiram ocorrendo através da História.
Outro momento terrível da história dos judeus ashkenazim foi
a revolta dos cossacos contra o domínio polonês. Iniciada em
cerca de 1648 e tendo se desenvolvido por mais de uma década, foi
palco de violentos massacres de comunidades judaicas inteiras, pelo fogo,
pelas torturas, pela violência física em diversas formas e maneiras.
As cifras divergem, mas tratam-se com certeza de algumas centenas de milhares.
O maior genocídio antes do Holocausto. Há notícias de
seus efeitos por mais de um século: judeus vendidos como escravos,
famílias que foram destruídas ou desapareceram. Autores analisam
seus motivos e atribuem as causas à função sócio-econômica
dos judeus, que serviam como intermediários entre os nobres poloneses
(exploradores) e os camponeses ucranianos ou russos (explorados). Esse foi
o motivo do ódio, na ótica de alguns historiadores. Explicação
que não resolve o dilema da perda e da irracionalidade de um ódio
milenar.
O filósofo existencialista francês Jean Paul Sartre na sua clássica
obra, “A questão judaica”, associava a persistência
do Judaísmo e da questão judaica, ao fato de existir e persistir
o preconceito antijudaico: o anti-semitismo. Na sua interpretação,
o Judaísmo e o problema judaico desapareceriam se o preconceito deixasse
de existir. Ou seja, “somos judeus por que nos perseguem”. Dura
conclusão que fica cada vez mais difícil de contestar. A maioria
dos judeus, esqueceu de sua “alma judaica”, de seu cotidiano
judaico, e de sua ética judaica (componentes tradicionais do idishkait)
e só pensa no preconceito, só se preocupa com a mídia
e com sua postura agressiva contra Israel. O crescimento do preconceito aproximou
muitos judeus que haviam se distanciado: parece que Sartre estava certo.
Os judeus perderam suas raízes e seu elevado conteúdo humanista
judaico. Perderam seus costumes que não sabem adaptar a um mundo renovado
e que mal praticam ou não praticam. São apenas judeus porque
não conseguem se desvencilhar de sua memória por causa daqueles
que os apontam e lhes lembram que são judeus. Judeus por pressão
externa, mas sem a neshamá (a alma) judaica. É importante defender-se
e defender Israel, mas será que isso basta e justifica a identidade
e a continuidade judaica?
Recordar é viver. No IZKOR devemos recordar os que se foram. Pais,
avôs, bisavôs. Os mortos do Holocausto. Os que se foram através
da história: nas Cruzadas, nos massacres dos cossacos, nas teias da
Inquisição (sendo cristão-novos, mas sendo lembrados
de sua eterna condição judaica). Rezar pela sua alma, por sua
elevação espiritual e por sua memória é um gesto
digno e respeitoso, integrado na tradição judaica.
Mas como homenageá-los de maneira plena? Além de rezar e recordar
no IZKOR, também devemos rever nosso conceito do que é “ser
judeu”: não podemos comprovar a tese sartreana, de que somos
judeus pelo ódio que nos devotam. Eu creio que podemos ser judeus
de uma maneira mais espiritual e humanista, e movidos pela maneira judaica
de ser (Idishkait), com um jeito próprio de entender o mundo, de agir
na História, de portar os valores éticos e morais de nossos
ancestrais. Nunca se julgando superiores: somos iguais como seres humanos,
mas diferenciados por uma identidade própria. Não vivendo no
passado, mas tendo-o como inspiração e motivação.
Saindo do gueto e vivendo no mundo contemporâneo, sendo cidadãos
atuantes no meio em que vivemos, defensores de causas humanistas e sociais,
mas não deixando de ser judeus. Estas causas são a “raison
d’etre” (razão de ser) do Judaísmo: desde Abraão,
passando pelos profetas, temos oferecido aos homens de consciência
no mundo ocidental, uma ética humanista repleta de valores sociais.
Por isso não se deixa de ser judeu quando se engaja nos movimentos
de transformação e melhoria do mundo em que vivemos. Judaísmo
não é alienação ou fuga da realidade: é agir
nele de acordo a certos princípios que norteiam, nossos valores.
Se você pretende homenagear seus antepassados deve ser judeu, agir
como judeu, vivendo no mundo e tentando melhorá-lo. A autodefesa é fundamental.
A defesa do Estado de Israel e de seus valores democráticos é um
dos alicerces de nossa identidade judaica. Combater todos os tipos de Racismo
deve ser uma forma de se combater o anti-semitismo. Mas ser judeu, não é se
fechar numa redoma de vidro, e/ou viver na busca de inimigos e críticos.
Há algo que temos que resgatar: o nosso ego não será sadio,
se não rechearmos nossa identidade judaica com história, cultura,
valores e tradições judaicas renovadas e atuantes no meio social
em que vivemos. Um ser humano precisa de corpo e alma, de bens materiais
e espirituais para compor uma identidade sadia. Um judeu não é diferente
de outras pessoas: precisa destes componentes, sob o risco de se alienar,
de perder sua identidade e até se tornar um ser sem raízes.
E seres humanos sem raízes são seres vazios de alma que tendem à crise
espiritual, ao vazio, à depressão e à falta de equilíbrio. É preciso
SER um pouco mais e TER um pouco menos (tema de meu artigo na edição
anterior).
Recordar é viver: lembre de suas raízes e de sua identidade.
Lembre de seus mortos, mas ao homenageá-los, trate de perpetuar seu
legado espiritual, preservando-o de alguma maneira. Shaná Tová.
Chatimá Tová (Um bom ano e uma assinatura boa no livro da Vida).
Foto-legenda
IN MEMORIAM
Maquete da sinagoga de Wadowice, comunidade judaica situada a 50 km de Cracóvia
e a 30 km de Auschwitz. Em 1939, a cidade tinha cerca de 10 mil habitantes,
sendo 2 mil judeus. Os nazistas dinamitaram e incendiaram a sinagoga, reproduzida
na maquete, por Chanan Waissman, judeu sobrevivente e membro desta comunidade.
Alguns milhares ou talvez dezenas de milhares de sinagogas foram destruídas
pelos nazistas, no intuito de acabar com a identidade judaica. Nesta reprodução,
através desta sinagoga, homenageamos as comunidades destruídas,
seus componentes e sua memória sagrada. Em Iad Vashem, no vale das “comunidades
caídas”, há um memorial que lembra estas Kehilot. IZKOR.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História Antiga do
Curso de