A história do capitão francês que foi injustamente
acusado e condenado porque era judeu
Por: Giulio Sanmartini *
Muito oportuna a analogia feita por Alberto Dines do caso Ibsen Pinheiro/Veja,
com o caso Dreyfus. Passados 100 anos de seu início, deu-se a cassação
do deputado Ibsen Pinheiro (18/5/1994), ao que tudo indica, também
motivada por fatos falsificados.
O affaire Dreyfus resultou na imortal peça jornalística do
escritor francês Emile Zola (1840/1902) J’Accuse, que dividiu
o povo, os intelectuais e a imprensa francesa em duas partes, os dreyfusards
e os antidreyfusards. Como o caso Ibsen ainda não está de todo
esclarecido, tudo leva a crer que o affaire ainda será muito citado,
portanto é interessante conhecer sua história.
Tudo começou em 1894, quando Marie Bastian, agente da contra-espionagem
francesa, que trabalhava disfarçada de faxineira na embaixada alemã de
Paris, encontrou no cesto de lixo do adido militar von Schwartzkopen pedaços
de uma carta rasgada, que juntados, revelavam segredos sobre armamentos franceses.
Esse bilhete, durante o processo, tornou-se conhecido como bordereau.
A França, depois de ter sido derrotada pelos prussianos na batalha
de Sedan (1870), onde até o imperador Napoleão III foi feito
prisioneiro, para justificar-se passou a falar em traição.
As relações tensas com os outros países europeus criaram
uma onda de nacionalismo exacerbado e junto com ele também de xenofobia.
Obviamente era impossível imaginar que o traidor fosse um oficial
do Estado-Maior, que constituía uma casta rigidamente selecionada,
de preferência pertencente à nobreza. Tinha que se encontrar
o culpado entre os oficiais que estivessem ali cumprindo tirocínio.
Caiu como uma luva o nome do jovem capitão Alfred Dreyfus (1859-1935),
pois era de origem alemã, vinha da Alsácia e tinha optado pela
nacionalidade francesa em 1871; mais que tudo, era hebreu. Em 1886, havia
sido publicado o livro La France juive, de Edouard Drumont, que teve grande
sucesso de vendas e era de caráter anti-semita, tanto que estabelecia
a seguinte equação: "Hebreu = traidor, por definição".
A prisão de Dreyfus aconteceu em 13 de outubro do mesmo ano e teve
ampla divulgação nos jornais. Levado à Corte Marcial,
o julgamento, entre os dias 19 e 22 de dezembro, foi feito a portas fechadas,
sob a alegação de sigilo das informações em questão.
A imprensa foi toda favorável a uma condenação exemplar,
alguns jornais noticiaram que Dreyfus tinha dívidas de jogo e uma
amante dispendiosa. O Conselho de Guerra, composto pelo coronel Maurel e
mais 5 juízes, condenou-o por unanimidade à degradação
e à deportação perpétua. As provas contra ele
foram somente o tal bilhete anônimo encontrado num cesto de lixo e
um dossiê secreto, mas tão secreto que nem o réu nem
seu defensor puderam tomar conhecimento de seu conteúdo.
Sua degradação aconteceu em 5 de janeiro no pátio interno
da Escola Militar. Foram-lhe arrancados os graus e quebrada a espada. A multidão
que assistia à cerimônia do lado de fora do pátio gritava
insistentemente "Morte ao traidor" Quando ele saiu, agrediram-no
a socos e pauladas. Com grande dificuldade a escolta conseguiu evitar seu
linchamento.
Esquerda e direita
Dreyfus foi mandado para a prisão na Ilha do Diabo (Guiana Francesa),
onde ficou preso, incomunicável, até proibido de escrever.
Sua mulher e seu irmão Mathieu, ajudados pelo escritor Bernard Lazare,
tentaram em vão reabrir o processo. Os franceses eram de opinião
que o tribunal militar fora muito condescendente: Dreyfus deveria ter sido
condenado à morte. Até a comunidade hebraica era contra a reabertura
de um caso que manchava sua honra.
Surgiu uma novidade em março de 1896: o tenente-coronel Georges Picquart,
que havia assumido no ano anterior a chefia do Serviço de Informações
do Estado-Maior, descobriu um contato da embaixada alemã com o major
Walsin-Esterhazy, nobre de origem húngara, este sim, dado ao jogo,
cheio de dívidas e envolvido em negócios escusos. Recebeu também
um relatório de uma agente francesa em Berlim, informando que o serviço
secreto alemão desconhecia totalmente o capitão Alfred Dreyfus,
que seu informante era um major nobre e condecorado. Picquart certificou-se
de que a caligrafia do bordereau coincidia com a de Esterhazy, e assim decidiu,
contra a cúpula militar, reabrir o caso Dreyfus. Por seu lado, Esterhazy
pediu para ser julgado por um tribunal militar. Foi absolvido e tornou-se
por um momento herói da época.
Em 10 de novembro do mesmo ano, os jornais conservadores Le Matin e L’Éclair
publicaram um facsimile do bordereau e alguns documentos ditos "secretos",
pensando dessa forma encerrar o caso, mas o efeito foi contrário,
pois revelou que a caligrafia de Dreyfus era totalmente diferente da dos
documentos. Começaram a tomar a defesa de Dreyfus alguns intelectuais,
o filosofo Lucien Herr, os historiadores Albert Mathiez, Paul Mantoux e Leon
Blum, o sociólogo Lévy-Bruhl e Durkheim, o cientista político
Sorel, o economista Simiand, os literatos Charles Peguy, Marcel Proust, Anatole
France, Sarah Bernhardt, Andre Gide, pintores como Monet, Pissarro, Toulouse-Lautrec,
Signac.
Também os jornais Petite République, Le Siècle, Le Figaro,
Le Rappel. Mas existiam também os antidreyfusards apoiados pelos jornais
Le Croix, Le Plerin, por professores e estudantes da Sorbonne e nomes como
os de Alphonse Daudet, Maurice Barrès, Charles Maurras, Paul Valery,
Jules Verne, Renoir, Cèzanne e Degas.
Zola não viu reabilitação
Desde maio de 1896, Emile Zola, vinha escrevendo artigos no Le Figaro contra
as teses anti-semitas de Drumont, publicadas sistematicamente no jornal La
Libre Parole. Zola, sem citar Dreyfus, incitava os jovens franceses no sentido
de se manifestarem na procura da justiça. Não obtendo os resultados
esperados, resolveu escrever carta aberta ao presidente da República,
dando nome a todos os envolvidos no Affaire Dreyfus. Esta carta, intitulada
J’Acuse, foi publicada no jornal L’Aurore, de Georges Clemenceau,
em 13 de janeiro de 1898, tornando-se panfleto único na história
jornalística do século 19. Por este motivo, Emile Zola foi
processado sob acusação de vilipêndio às forças
armadas, sendo condenado, sob aplausos da grande maioria da população
parisiense, a um ano de prisão e multa de 3 mil francos. Essa condenação
foi anulada por vícios processuais, mas Zola voltou a ser condenado
e exilou-se em Londres.
Nesse mesmo período o major Esterhazy foi preso por fraude, expulso
do exército e fugiu para Londres. Numa entrevista ao jornal Le Matin,
reconheceu que o bordereau, a peça fundamental na condenação
de Dreyfus, fora escrito por ele, com o objetivo de lançar uma isca
contra o serviço secreto alemão. Na França, a direita
se agitou, afirmou que o país estava ameaçado por inimigos
internos e externos e que a prova da inocência de Dreyfus punha em
risco o prestígio do exército. Dreyfus foi solto e voltou à França.
O presidente da República sofreu atentado dos monarquistas, e os antidreyfysards
quiseram linchá-lo, Assim, foi levado de volta à cadeia para
esperar um segundo julgamento, que aconteceu em 7 de agosto de 1899. O tribunal
militar tornou a condená-lo, mas desta vez a 10 anos de trabalhos
forçados.
No dia 12 de julho de 1906, 12 anos depois de ter sido condenado e desonrado,
pela maior calúnia na história do país que se dizia
civilizado e tinha por dístico "liberdade, igualdade e fraternidade",
o capitão Alfred Dreyfus foi reintegrado ao exército, que lhe
conferiu a Legião de Honra.
Emile Zola não pôde assistir a esse fato: morreu em 5 de outubro
de 1902. Todavia, seu J’Acuse ficou registrado de forma definitiva
na história da humanidade.
* Giulio Sanmartini é jornalista e mora em Belluno, na Itália,
de onde escreve para o Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br).