Visão Judaica - Edição N° 17
:. Rosh Hashaná - Cabeça do ano .:

 

Por: Edda Bergmann

O primeiro dia do sétimo mês do ano seja para vocês um dia consagrado à comemoração da criação do mundo. Deixareis todo e qualquer trabalho porque é o dia em que pelo toque do shofar sereis chamados a responder pelas vossas ações.
Esta é a interpretação tradicional da frase com a qual é anunciada na Torá a celebração da hodierna solenidade conhecida com o nome de Rosh Hashaná (cabeça do ano).
Pode parecer estranho que o começo do ano deva ser celebrado no sétimo mês do ano, seria bem mais lógico que devesse ser celebrado no 1º dia do ano, ou seja, no 1º dia de Nissan, mês em que os judeus realmente se constituíram num povo livre, fugindo da escravidão do Egito. Foi realmente aquele dia o dia da formação da Nação Hebréia.
Ao invés disso, a Torá fixou sete meses depois como "cabeça do ano" o dia em que se comemora a criação do mundo, com a chamada do shofar para um juízo universal.
Foi uma idéia verdadeiramente genial a de se destinar um dia do ano para comemorar a criação do mundo, algo que somente a civilização judaica soube compreender em toda a sua profundidade.
O povo latino celebrava o nascimento de Roma, assim como outros povos talvez celebrem a data de sua origem, cada um por conta própria esquecendo portanto, que existem outros povos sobre este planeta, enquanto que o judaísmo antecipou de séculos e séculos aquela idéia de universalismo que outros se vangloriam de terem descoberto, convida os homens de qualquer fé religiosa, seja qual for a sua cor de pele ou classe social a qual pertença, a celebrar em conjunto aquele imenso e misterioso acontecimento que foi a criação do mundo, deste mundo no qual se movem e se agitam as paixões de todos os homens, para que reflitam naquele dia, que no final das contas somos todos filhos deste mesmo mundo, razão pela qual todos os indivíduos têm os mesmos deveres e os mesmos direitos, que nenhum povo tem o direito de suprimir o outro, que não deveriam existir nem vencedores nem vencidos neste mundo de D-us.
Parece, porém, que os povos esqueceram do mundo e de quem o criou e as leis que o regem e isto porque ainda não conseguiram dedicar um dia às comemorações de toda a Criação.
Buscam-se plataformas políticas e sociais que unam os homens com a motivação de um ponto comum de referência e contato, este é o único viável de universalismo plausível.
Alguns traços destas comemorações esquecidas pelo mundo ficaram entre os povos latinos. Rosh Hashaná cai sempre no sétimo mês do calendário, no mês de setembro, uma lembrança do ano judaico.
Na Sardenha, o povo ao invés de dizer setembro, diz "Capi d'Anno". Assim se infiltraram e permaneceram os traços de nossa civilização ainda hoje fáceis de reconhecer.
O homem não está destinado a viver isolado, e mesmo que o quisesse não o poderia. Numa grande parte das ações que cada um de nós pratica não dizem exclusivamente a respeito de quem as pratica, mas também dos homens que tem contato conosco.
É portanto natural que a Torá enquanto reguladora da vida, das normas de conduta relacionadas com a forma pela qual cada um de nós deve se comportar em relação aos outros e que, sob este respeito a vida do judeu deve almejar aquele ideal de santidade que lhe é próprio.
Estas relações estão essencialmente regulamentadas por aqueles dois parágrafos do Decálogo que proibiram o homicídio e o furto declarando a invulnerabilidade da vida e da propriedade.
A Torá permite as guerras defensivas, o necessário à sobrevivência da vida da nação e de seus habitantes, enquanto proíbe as guerras ofensivas de conquista.

Devemos nos comportar com o nosso próximo de acordo com aquelas normas pelas quais ele como ser humano deve se comportar conosco.
O ser humano é o ato mais sublime da Criação e a nós compete mostrar ao mundo, que nada supera o valor da vida que deve ser defendida e preservada com todas as nossas forças.
A Torá nos relembra o Rosh Hashaná, que o direito à vida é o ato supremo da Criação, hoje e sempre.

* Edda Bergmann é presidente da B'nai B'rith do Brasil

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