Visão Judaica - Edição N° 17
:. Relato de uma viagem ao Birobidjão atual.:

 

Por: Thibaut Klotz

O Birobidjão foi fundado em 1928 no entorno de uma estação ferroviária do Trans-siberiano, próximo de onde correm dois rios, o Bira e o Bidjan, que deram seu nome à cidade e, por extensão, para a região, depois escolhida para dar as boas-vindas a todos os judeus da Rússia. Em 1934 foi criada oficialmente a Região Autônoma dos Judeus e numerosas famílias correram para esta "semelhante Israel soviética". A região não é pobre, está situada em um belo relevo, próximo da fronteira com a China, possui recursos naturais significativos, reserva de ouro, estanho, minério de ferro nas montanhas mais para o Oeste, e um clima favorável à agricultura. Alguém poderia até mesmo encontrar petróleo e gás lá. Em dez anos, um verdadeiro país surgiria da terra, ao término dos anos trinta a cultura nacional do Birobidjão já era muito desenvolvida, com a intelligentsia de seus poetas, seus jornais em russo e em iídiche, suas bibliotecas, seus teatros, e seus balés bem famosos além das fronteiras. O país participa do esforço de guerra e de 1945 a 1948 judeus e outros de várias nacionalidades chegaram em massa. A história de Birobidjão parecia lançar-se então para um futuro promissor. Ele ainda não contava com o materialismo anti-religioso da doutrina stalinista. Em novembro de 1948 todas as instituições judaicas foram fechadas e a emigração parou. A repressão começou em 1949, onde noventa por cento dos artistas de origem judaica ou relacionada foi enviado ao Gulag. Stalin eliminou a maior parte da intelligentsia judaica que levou até ele unicamente a cultura inteira do país. O Birobidjão tornou-se uma região soviética banal. As fábricas continuaram a produzir, os camponeses a trabalhar, mas todo o orgulho desapareceu. À queda da União Soviética, todos esses que puderam deixaram o país, e praticamente tudo o que restou das grandes famílias judaicas emigraram para Israel ou para outro lugar, permanecendo somente ai russos que tentavam sobreviver um pouco mais de dificuldade que no resto da federação.
O Birobidjão não é uma grande cidade (tem noventa mil habitantes) para a imagem de uma Região Autônoma dos Judeus. Ele é tão grande como somente três departamentos franceses (que são minúsculos comparados com a Sibéria). Possui uma rua central, a oulitsa Shalom Aleikhem, uma transversal de Leste para Oeste. A estação está no lado Norte. Para o Sul o rio Bira, poluído como o Om, tem suas águas levadas por uma forte corrente, e está num estágio municipal deixado quase ao abandono. Para o norte da Shalom Aleikhem se sucedem alguns edifícios administrativos modestos, o museu da região, a afamada biblioteca e a única sinagoga da cidade, extremamente modesta. De fato, dos judeus nós não os encontramos em Birobidjão e dificilmente acharíamos alguém que nos indicasse o local da sinagoga... Para o lado Sul da Shalom Aleikhem, próximo do rio, a avenida dos sessenta anos da URSS é flanqueada de edifícios soviéticos comuns, a agência postal parece um imóvel estatal vulgar para locação residencial de baixo custo, os edifícios institucionais estão arruinados, como o edifício enorme que abriga a Filarmônica de Birobidjão, de resto com boa reputação, e a televisão local, denominada Bira. Esse edifício foi construído em 1984 por jovens arquitetos de Moscou, e como se nota, sua massividade não tem igual em sua falta de harmonia e bom gosto. A esplanada está coberta de placas hexagonais de concreto entre as quais brotam ervas furiosas das juntas com o passar do tempo. A Praça Lenine, um pouco mais distante, está coberta dos mesmos horrores... As ruas estão imundas, sujas de terra barrenta, de poças e pó. O mercado é bem provido, não tanto como em Oulan-Oudé ou em Irkoutsk (outras importantes cidades no caminho percorrido pelo trem trans-siberiano), mas pode-se achar mais ou menos de tudo lá. Deixadas à parte algumas placas com inscrições em iídiche, nada fazem crer que aí foi a região autônoma dos judeus.
Raramente a história de um país terá sido tão facilmente apagada, mas é preciso dizer que isso é creditado aos judeus, que não representam hoje mais que cinco por cento da população da região. Com minha persistência acabei encontrando, perdido atrás de um grande conjunto habitacional popular do governo, um distrito nos limites da cidade, no final da Shalom Aleikhem, feito completamente em madeira um agrupamento de edifícios de dois andares, cobertos com uma pintura enfraquecida vermelha e verde. Uma dezena dessas construções foi erguida num formato quadrangular ao redor de grandes espaços repletos de árvores onde as crianças brincavam, os idosos sentavam para descansar em seus passeios, um micro-ambiente quase mediterrâneo nesta cidade de concreto, talvez um dos últimos vestígios da história gloriosa dos anos 30... Busquei refúgio numa escadaria na hora da chuva torrencial, tudo aqui está em ruínas, os mais pobres vivem aqui sem água corrente. Três adolescentes me pediram os cigarros e cansada de perguntas, uma velha embriagada tropeça e cai na grande escadaria de madeira... É isso o que se tornou o Birobidjão?
* Thibaut Klotz é francês e cursa mestrado de russo. O presente artigo é trecho de seu "Diário da viagem à Sibéria" pelo trans-siberiano (Moscou-Vladivostok-Moscou)


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