Visão Judaica - Edição N° 17
:. O toque do shofar em Rosh Hashaná e Iom Kipur .:

 

Durante o mês de Elul, que antecede a Rosh Hashaná, costuma-se tocar o shofar diariamente;
O Midrash conta acerca da origem da prática deste costume:
"Em Rosh Chodesh (primeiro dia do mês) disse o Santo, bendito seja, a Moisés. -" Sobe a Mim, ao monte ". Imediatamente foi anunciado, através do som do Shofar, em todo o acampamento, que Moisés acabara de subir ao monte, com o propósito de que o povo não incorresse no mesmo erro de cálculo sobre a data em que Moisés subiu ao monte, pela primeira vez, fato este que provocou o trágico pecado de idolatria na ocasião anterior (o bezerro de ouro). Neste dia, o Todo-Poderoso foi exaltado com o som do Shofar, tal como está escrito. -" D-us eleva-se ao som da "Teruá", o Eterno - na voz do Shofar ".
É, pois, para comemorar esta ocasião que os Sábios nos ordenaram tocar o Shofar durante todo o mês de Elul, ao término do ofício da manhã, por ter sido Elul o mês designado para harmonizar nosso espírito com os Iamim Noraim - os Dias Temíveis -, o Shofar foi escolhido como o meio mais adequado para atingir este propósito.
Maimônides resumiu o significado do Shofar com as seguintes palavras:
"Apesar de o toque do Shofar em Rosh Hashaná ser um decreto divino, contém em si a seguinte sugestão: Vós, que permaneceis adormecidos, desperta de vosso sono, fortalecei-vos em vossas ações, retomai (ao bom caminho) com arrependimento e tende presente vosso Criador! Os que olvidaram a verdade, submersos em futilidades, e que andaram extraviados durante todos os anos no vazio que não produz benefício nem salvação a ninguém - examinai vossas almas, melhorai vossos atos e vossos propósitos, e abandonei todos os pensamentos maus e os pensamentos que não conduzem ao bem!"

Rosh Hashaná
5764 - 27/28 de setembro de 2003

O que significa Rosh Hashaná? Literalmente "Cabeça do ano".
Assim como a cabeça direciona cada membro do corpo, também a energia e as resoluções de Rosh Hashaná direcionam todos os dias do ano.
Esta é uma época em que o judeu fica mais próximo de D-us, devendo fazer um balanço de todos os seus atos e atitudes durante o ano que termina. Sendo o saldo positivo (perante o "olhar' de D-us), somos" inscritos" no "Livro da Vida".
Dez dias mais tarde, em Yom Kipur, o Livro é selado. Através do arrependimento, da oração e da caridade, podemos merecer as bênçãos de D-us para saúde, bem-estar e prosperidade para o ano que se inicia.

Como celebramos Rosh Hashaná?
O Ano Novo é celebrado na sinagoga. As orações estão compiladas num livro chamado Machzor, que em hebraico significa "ciclo". Nele estão contidas as orações, passagens bíblicas, talmúdicas, poesias religiosas. As orações apresentam três temas fundamentais da fé judaica: D-us é Rei, Juiz e Legislador.
No segundo dia o ofício religioso se repete, mudando apenas a leitura da Torá.
Durante o período de Rosh Hashaná e Yom Kipur é dita a oração Avinu Malkeinu - Nosso Pai, Nosso Rei -, composta de 44 versos na liturgia asquenazi. Ela invoca a bênção de D-us, Pai e Rei, pedindo que Ele nos livre das guerras, fome, doenças, desamor - e perdão pelas faltas cometidas.
"Que sejas inscrito e selado para um ano bom" é o que se deseja a todos. Procure perdoar e pedir perdão para quem isso for preciso e somente falar bem dos outros. Manter-se calmo nos dois dias de Rosh Hashaná - isto é um bom sinal para o ano todo...
Tashlich - No primeiro dia de Rosh Hashaná, à tarde, após a oração de Minchá é costume dirigir-se a alguma fonte de água (e de preferência onde há peixes) e lá fazer a Oração de Tashlich, na qual pedimos à D-us que "jogue nossos pecados nas profundezas do mar"- pois nos arrependemos sinceramente e queremos nos retificar. Procura-se faze-lo num local onde haja peixes para lembrar que a água, cabalisticamente, simboliza a Bondade Divina e os peixes que nunca fecham os olhos nos lembram D-us que tudo vê e sempre está alerta para nos proteger. Isto também é uma alusão ao fato de que "os olhos de D-us estão sempre abertos para aqueles que O temem (Salmo 33:18) para protegê-los com Sua abundante graça, pois "o Guardião de Israel não dorme nem cochila..."

Comidas típicas
Como todas as festas, Rosh Hashaná tem as suas comidas típicas:
Chalá (Pão) - Trançado de forma arredondada, que simboliza a natureza cíclica e eterna da vida, expressa a esperança de que o ano vindouro será completo e não será interrompido por alguma tragédia. Alguns costumam assar as chalót de Rosh Hashaná em forma de espiral, simbolizando o desejo de que nossas preces ascendam aos céus e que possamos crescer, ética e moralmente, ao longo do ano"
Mel - O costume de comer coisas doces em Rosh Hashaná tem mais de 1500 anos. Ele expressa a esperança de que a doçura permeie a vida dos judeus no ano vindouro. Lêcach (torta de mel) é uma palavra hebraica que significa "porção". Serve-se torta de mel com a esperança de que, quem observar as tradições judaicas, será abençoado com uma " boa porção", um conceito expresso no Livro dos Provérbios (4:2) " Eu vos dou uma boa doutrina (lêcach), não abandoneis Minha instrução".
O peixe - é o prato principal dessa ocasião, e para o dono da casa serve-se a cabeça, como recordação da promessa bíblica: "O Senhor, teu D-us te colocará como cabeça, e não como cauda; estarás sempre por cima, e não por baixo, si ouvires os mandamentos do Senhor teu D-us...".
Uma fruta que ainda não se comeu aquele ano - o que representa o princípio de algo. No segundo dia muitos judeus têm por tradição comer uma fruta que ainda não se comeu naquele ano. A bênção especial pronunciada quando se realiza uma ação pela primeira vez é o Shehecheiánu, que expressa a gratidão por ter alcançado este importante momento da vida com boa saúde e em paz. A romã é muito popular, porque tem muitas sementes, o que simboliza a esperança de que no ano vindouro, a pessoa realizará muitas ações meritórias.

Yom Kipur
5764 - 10 de Tishrê - 06 de outubro de 2003
Os dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur são conhecidos como os Dez Dias de Penitencia, uma oportunidade a todos de fazer um auto-exame e buscar o perdão e a purificação para serem inscritos no Livro da Vida.
Conforme o Talmude (a bíblia oral), todas as ações do ser humano no ano que passou são avaliadas por D-us em Rosh Hashaná e o julgamento é realizado em Yom Kipur.
Para todos os judeus, estes se tornaram dias de reverencia, os Dias Temíveis.
"... Aos dez dias deste sétimo mês é o dia das expiações; convocação de santidade será para vós, e afligireis suas almas (através do jejum)..." (Lev. 23)
Yom Kipur, o Dia do Perdão, é o dia mais sagrado e solene do ano, o auge dos Dez Dias de Penitencia iniciados em Rosh Hashaná. Neste dia, em cada congregação, os rolos da Torá (bíblia) são retirados da Arca Sagrada e carregados dentro das sinagogas.
O Kol Nidrei (em aramaico significa "todos os votos" ou "todas as promessas"), apesar de tocar o fundo da alma judaica, infundindo em cada um dos presentes temor e esperança, na realidade não é uma oração e o texto sequer menciona o tema arrependimento. É uma declaração coletiva que permite aos que estão presentes anular promessas, votos ou juramentos feitos a D-us e não cumpridos. No Yom Kipur, na hora do Kol Nidrei, somos lembrados que a palavra é sagrada e que promessas assumidas dever ser escrupulosamente respeitadas.
Para o judaísmo, votos e juramentos são compromissos de extrema importância e a Torá é explícita neste ponto. Um mandamento bíblico afirma que uma promessa proferida não deve ser quebrada. Esta proibição é tão grave que o Talmude diz que o mundo treme diante dela e, portanto, não podemos nos aproximar de D-us para implorar Seu perdão sem antes nos termos livrado do grave pecado de ter violado nossa palavra a Ele. O Talmude aconselha evitar juramentos e votos.
É muito importante lembrar que, assim como o Yom Kipur só absolve as transgressões do homem em sua relação com D-us, o Kol Nidrei nos libera somente de votos ou juramentos pessoais feito a D-us e só a Ele. Em hipótese alguma nos libera de promessas, juramentos ou votos que envolvam outras pessoas; estes só poderão ser anulados quando, na presença de todos os envolvidos, todos estiverem de acordo com a anulação.
Sem a possibilidade do arrependimento o mundo não poderia existir, já que ao criar o homem com o livre arbítrio - a liberdade de escolha entre o bem e o mal - D-us deu-lhe a possibilidade de errar, de se afastar Dele. Mas ofereceu-lhe também a possibilidade de voltar para Ele, a possibilidade de mudar o curso de sua vida, de arrepender-se, de "aproximar-se de D-us afastado-se do pecado", de retornar.
Yom Kipur é um dia único, especial e indispensável, no qual o homem tem condições espirituais para d'Ele se aproximar. No dia de Yom Kipur o poder do mal é suspenso e a Santidade Suprema é revelada. Em Yom Kipur o homem tem a possibilidade de se elevar espiritualmente atingindo o nível dos anjos. Os pecados que cometeu contra D-us, se ele se arrepender sinceramente, serão perdoados, permitindo-lhe retomar seu caminho em direção à Luz. Neste dia, assim como os anjos, Israel não come, não bebe, não usa sapato de couro. É o único dia que podemos recitar em voz alta a bênção do primeiro versículo da oração Shmá Israel (Escuta ó Israel...): "Bendito seja o Nome da glória...eternidade". Segundo a tradição, no momento em que recebeu a Torá e a trouxe para o povo de Israel, Moisés ouviu esta bênção dos anjos. Sendo esta oração dos anjos, é recitada em voz baixa o ano inteiro. Apenas em Yom Kipur, quando Israel se assemelha a um anjo, esta frase é dita em voz alta.
Nossos sábios ensinam que, apesar dos Portões do Arrependimento estarem sempre abertos, as condições espirituais que estão presentes neste dia e que nos permitem distinguir com mais facilidade o bem do mal, não existem em nenhum outro momento.
Foi neste dia 10 de Tishrê, Yom Kipur, que D-us perdoou o imperdoável: o bezerro de ouro. Foi neste dia que, após 40 dias de súplica para que D-us perdoasse os Filhos de Israel, Moisés desceu com o segundo par de tábuas dos Dez Mandamentos, prova do perdão Divino pelo pecado do bezerro de ouro. Enquanto Moisés estava no Monte Sinai pedindo e suplicando pelos Filhos de Israel, D-us lhe revelou Seus Treze Atributos de Misericórdia. Ao proclamá-los, D-us estava mostrando a Moisés que a Sua Misericórdia supera todas as considerações sobre erros que o homem possa ter cometido no passado ou venha a cometer no futuro. D-us também mostrou a Moisés que se o homem usar de misericórdia, perdoando os que estão a sua volta, ele poderá se conectar espiritualmente com o mundo da Misericórdia Divina, conseguindo que seus próprios erros sejam perdoados. Por isso nossos sábios nos ensinam que se o homem perdoar a quem o magoou, se mostrar benevolência e generosidade para com seu semelhante, os Céus vão tratá-lo da mesma forma.

 


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