Por: Alberto Dines
Não é
o editor nazista Siegfried Ellwanger que está sendo julgado
no Supremo Tribunal Federal, é o próprio nazismo.
Quem colocou a questão nesses termos foi o ministro Carlos
Britto, recém-nomeado pelo presidente Lula, ao proferir
quarta-feira 27, o seu voto num caso que fatalmente será
incorporado aos anais internacionais dos Direitos Humanos.
O réu e seus advogados pretendiam provar que anti-semitismo
não é racismo, crime que nossa Constituição
considera inafiançável e imprescritível.
Por isso, pleitearam um habeas-corpus em nossa corte suprema depois
de fragorosas derrotas em todas as instâncias. O ministro
Britto foi mais longe ao validar e endossar as solertes e insidiosas
falsificações oferecidas aos incautos pelo editor
Ellwanger.
Um tribunal constitucional é um fórum privilegiado
para discutir princípios, estabelecer paradigmas e firmar
jurisprudência. Foi imprudente o ministro Britto ao aventurar-se
numa disciplina onde se mostra rigorosamente neófito. Neófito
e arrogante, porque ainda não apareceu entre nós
algum estudioso qualificado e isento capaz de negar com tamanha
veemência e desfaçatez os horrores do Holocausto.
Estribado nas 86 citações que conseguiu contar numa
das obras da lavra de Ellwanger, o meritíssimo considera-se
credenciado para proferir um voto que certamente não lustrará
o seu currículo jurídico e poderá colocá-lo
como adepto de uma doutrina política que contraria frontalmente
as convicções e a biografia daquele que o indicou
para a suprema magistratura.
Caso não tenha lido, este articulista prontifica-se a oferecer-lhe
exemplares da recém-publicada A Assustadora História
do Holocausto , de Michael Marrus, uma das maiores autoridades
mundiais na matéria (Editora Prestígio-Ediouro,
432 páginas) e do terrível documento sobre a Reunião
de Wansee coligido por Mark Roseman, Os Nazistas e a Solução
Final (Zahar, 165 páginas). Poderão inspirá-lo
senão para uma revisão de voto pelo menos para um
exame de consciência.
O ministro Brito não compreendeu que a ''novidade'' do
neonazismo consiste apenas em negar as barbaridades cometidas
pelos antecessores, os protonazistas. De resto, velhos e novos
hitleristas, fascistas maduros ou imaturos, aqui ou acolá,
todos totalitários, defendem as mesmas causas e perseguem
os mesmos objetivos.
Não há diferença entre os anti-semitas de
antanho e os anti-semitas de hoje - quaisquer que sejam os seus
disfarces. O anti-semitismo é um racismo milenar que encontrou
sua expressão política no pangermanismo, no fascismo,
no nazismo e, agora, no terrorismo islâmico. Para que não
produza um banho de sangue igual ao de 1933-45 é imperioso
mantê-lo isolado, como patologia política, psíquica
e moral.
Evidentemente despreparado para entrar no mérito de uma
obra que sequer estava em discussão, o ministro Carlos
Britto não percebeu a dimensão do caso nem avaliou
que este já é um dos ''julgamentos históricos''
do STF: arrasta-se há nove meses, foi interrompido quatro
vezes, completará um ano e certamente terá repercussão
e desdobramentos em escala mundial.
Ao manifestar-se, não lembrou que o voto do relator, embora
com formulações diferentes, foi idêntico ao
seu. Acontece que Moreira Alves era o juiz remanescente do regime
militar e ele, Carlos Britto, é (ou deveria ser) o representante
de um Brasil novo, sem medo, pleno de esperanças, tolerante
e harmonioso. Apostou numa causa duplamente perdida: o nacional-socialismo
foi batido em 8 de maio de 1945 e o editor Ellwanger está
praticamente condenado.
Erro maior foi a tentativa de borrar as diferenças entre
fato e opinião, deixando de lado a verdade factual e sujeitando-se
a falsificações históricas deliberadas. Deveria
lembrar-se da famosa frase de George Clemenceau depois de selada
a paz em Versalhes: ''Não sei o que dirão os historiadores
no futuro sobre o início da Guerra, mas posso garantir
que ela NÃO começou por que a Bélgica invadiu
a Alemanha...''
Resta muita coisa a esclarecer sobre a incrível ascensão
de Hitler em 1933 e os antecedentes da Segunda Guerra Mundial.
Porém, uma coisa é certa e o ministro Brito não
deveria ignorá-la: NÃO foram os judeus que inventaram
o Holocausto. Os judeus foram as suas vítimas, e em proporções
jamais igualadas na história da humanidade.
E porque o anti-semitismo ainda não foi extirpado e continua
tão letal quanto antes, Sérgio Vieira de Mello incluiu-o
num pronunciamento em Viena, perante o International Press Institute,
em novembro passado: ''Existem obrigações legais
e internacionais, aceitas pela maioria dos Estados, que proíbem
o incitamento ao ódio racial, étnico e religioso
e também o anti-semitismo''.
Sérgio Vieira de Mello, o funcionário da paz, foi
enterrado quinta-feira, 28. Não podemos esquecer aquele
que mostrou ao mundo a nobreza brasileira. Quanto a Carlos Britto,
melhor ignorar que um dia antes nos vexou oferecendo seus préstimos
à memória de Hitler.
* Alberto Dines
é jornalista e escritor escreve no Jornal do Brasil e dirige
o site da Internet Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br)