Visão Judaica - Edição N° 17
:. Ética- Tsahal, o único exército do mundo com um código escrito .:

Por: Sacha Gironde

Como toma forma, dentro do comando do Tsahal (o Exército de Defesa de Israel) a decisão que precede o ataque civil contra um terrorista? Que doutrina prevalece neste assunto? Quais são, em geral, as regras éticas que circunscrevem a ação do exército e o comportamento dos soldados israelenses?

Em julho de 2002 uma bomba de uma tonelada foi solta sobre o prédio onde estava Salah Shehadeh, um dos líderes do Hamas. Quatorze civis morreram com ele, dos quais nove eram crianças. Em junho de 2003 o ataque falhou contra Rantissi, o porta-voz do Hamas, deixando-lhe danos colaterais e a perda de uma criança. Depois do ataque contra Shehadeh, o chefe do estado-Maior do exército israelense, Moshe Yaalon, expressou seu pesar pelas perdas civis. Ele indicou que uma falha de informação tinha levado a supor que o edifício vizinho ao de Shehadeh estava desocupado. Mas ele também recordou que repetidamente, considerando que a oportunidade para eliminar Shehadeh se apresentou, tinha sido salvo porque estava com sua esposa e suas crianças: ao mesmo tempo, ele continuava planejando alguns ataques contra israelenses. Shehadeh era responsável por centenas de ataques contra civis ou soldados israelenses. A pergunta então é: foi necessário salvá-lo uma primeira vez? Retroativamente, de um ponto de vista útil, parece que não. Teriam sido economizadas perdas civis israelenses e palestinas. Em outros casos, como o de 13 de junho de 2003, por exemplo, um terrorista é diretamente eliminado com a esposa e suas crianças. Como toma forma, dentro do comando do Tsahal, a decisão que precede um ataque civil contra um terrorista? Que doutrina prevalece neste assunto? Quais são, em geral, as regras éticas que circunscrevem a ação do exército israelense o comportamento dos soldados israelenses?
A resposta está contida num código, formado por cerca de uma dezena de princípios, escritos em meados dos anos 90 por alguns quadros do exército e um filósofo especialista em Ética Aplicada da Universidade de Tal Aviv, Asa Kasher. O exército israelense é o único exército no mundo a ter um código escrito desde 1994. Ele foi revisado desde então por outros militares e outros especialistas em Ética. Suas fontes são várias: a lei judaica, a lei israelense, as convenções internacionais. O fato de que este código foi escrito ao mesmo tempo por militares e por filósofos, e estar ancorado nesta diversidade de fontes, lhe dá uma tonalidade particular; sua compreensão permite cobrir melhor o estilo das ações que o exército israelense empreende, especialmente na hora de seus ataques contra os alvos dos terroristas palestinos. A existência e a aplicação deste código ética permitem, por exemplo, explicar a flagrante diferença dos métodos usados pelo Tsahal nos Territórios e pelo exército russo na Chechênia, para lutar contra o terrorismo islâmico.
O código se intitula "O espírito do Exército de Defesa Israelense". Apresenta-se sob a forma de uma lista de onze valores: tenacidade, responsabilidade, integridade, exemplo pessoal, vida humana, pureza das armas, profissionalismo, disciplina, lealdade, representação e camaradagem. Ele governa o comportamento do soldado dentro de um conjunto de circunstâncias típicas: durante o serviço em terreno, no encontro com o inimigo, frente a frente com as populações civis, etc… E é extensivamente apreciado pelos soldados em ação e, desde sua revisão em 2001, tem sido assunto de grande consenso em Israel. Ainda não foi o caso, mas alguns o acusam de ser a emanação de uma ideologia pós-sionista cada vez mais influente e outros não entendem que este código serve acima de tudo os princípios democráticos na prática da guerra, frente a um inimigo que menospreza todas as regras das éticas militares.
À sua aparição em 1994, o novo código de ética do Tsahal causou uma polêmica pelo fato de estar desprovido de toda a referência explícita ao Sionismo e ao Judaísmo. Ele não incluía então nenhuma referência à defesa de um Estado judeu ou nem ao amor a terra (ahavat haaretz). De uma certa maneira esse código poderia satisfazer o exército de qualquer país democrático. Nada indicava que se tratava do código do exército israelense e nenhuma referência era feita aos eventos que embasaram a formação nas primeiras três décadas de Israel da psique do soldado israelense: a reconquista do Muro Ocidental (Muro das Lamentações) em 1967, a escalada do Monte Hermon pela brigada Golani em 1973 ou a repatriação dos judeus da Etiópia, do qual o exército participou ativamente. É fato que a existência de um código de ética escrito, mais tarde revisado, explica como, particularmente durante a segunda Intifada, o exército israelense tem um comportamento em campanha mais meticuloso e mais preocupado com a ética do que exércitos de países mais democráticos em situações militares semelhantes? Há duas hipóteses: ou os valores particulares, israelenses e judeus, aprofundaram e determinaram o comportamento dos soldados de maneira mais intensa que as regras recém escritas; ou então o código corresponde às necessidades e situações novas que o Tsahal tem que enfrentar e sua presença é um guia necessário e eficiente de sua ação. Ou os dois.
O debate sobre a natureza pós-sionista do código de 1994 revestiu-se de um caráter de ataque ideológico ad hominem de anúncio que perde de vista a questão principal: por que em 1994 sentiu-se a necessidade de escrever esse código? Alguns culpam Asa Kasher, único representante da sociedade civil no comitê de redação, e suas posições de esquerda durante a guerra do Líbano. Porém é suficiente entender que foi precisamente a situação militar nova para qual foi confrontado o Tsahal durante a Guerra do Líbano, e especialmente na época da primeira Intifada, como também as diferenças entre estas duas situações, que motivaram a introdução de um código ético escrito independentemente das posições ideológicas de seus autores. Esta situação nova exigiu que se inclinasse a uma maneira pragmática no tratamento de situações de guerrilha onde o inimigo se dissimula na população civil e onde tenta perpetuar a memória de fatos passados.
Asa Kasher explicou, entretanto, repetidamente suas posições durante a Guerra do Líbano: Ele justificou o que chamou de atos de desobediência civil por parte dos soldados chamados a servir. Um ato de desobediência civil se define como uma ação que visa a defesa do ideal democrático de um Estado, quando parece que certos princípios estão em processo de violação. Colocar em perigo a vida de soldados israelenses por metas militares mal definidas pode ser assimilado como violação de um princípio democrático. Atos de desobediência civil são então restritos a circunstâncias muito precisas e a uma definição muito clara dos princípios democráticos em jogo. O amor pela pátria - que estava ausente na lista dos valores que compunham o código ético do Tsahal em 1994 foi colocado na conta do suposto esquerdismo de Kasher - é um princípio ou um sentimento geral, vago, que não traz a priori muita coisa para a definição de uma escolha moral e especialmente de uma ação para realizar numa situação militar complexa. O código de 1994 tem como objeto respostas para necessidades precisas, assim como a justificação da desobediência civil nos anos 1980 é uma resposta ética e conveniente a uma situação militar estranha e confusa.
Hoje não há nenhuma pergunta para Kasher ou para qualquer outro sério especialista em éticas militares. Ele foi classificado bem à esquerda por justificar qualquer ato de desobediência civil. Recusar servir o exército hoje produz o efeito precisamente inverso do que aquele que eventualmente produziria durante a Guerra do Líbano: em 2003 a desobediência civil é um enfraquecimento da democracia através de algum de seus princípios fundamentais. Se alguém considera que faz parte de deveres de um Estado democrático assegurar a proteção de seus cidadãos que enfrentam perigos internos (empobrecimento, saúde, segurança) e externos (agressão militar, terrorismo), recusar servir nos Territórios e lutar contra o terrorismo palestino é aceitar que se coloque em perigo a vida livre dos cidadãos numa democracia. Outro efeito da recusa em servir traz hoje de volta a questão do senso de solidariedade e da amizade entre soldados (esse é um dos onze princípios do código do Tsahal) considerando que para a maioria deles - ao contrário do lodo libanês - a situação e as estacas são claras.
A questão principal que define o caráter ético do fato de servir ou recusar-se particularmente a servir em circunstâncias militares não é então uma questão de saber se o soldado engajado no exército ama ou não sua pátria e se define a si mesmo como um religioso sionista, um sionista de esquerda ou um pós-sionista. Ele está unicamente ligado à maneira pela qual, quando a pessoa realizar "assim ou assado" qualquer ato em campanha, a pessoa infringe ou não os princípios de um Estado democrático e, concretamente, se ela está pronta a defender com tenacidade e coragem estes princípios. Não surpreende então que o código ético do Tsahal fosse capaz de, em sua versão inicial, parecer um adereço de opinião válido para qualquer Estado democrático e não especialmente para o Estado de Israel. Mas perde-se de vista a idéia de que em Israel os valores democráticos - em um contexto externo (o mundo árabe) e também no interno (o assassinato de Rabin por um fanático) hostis a esses valores - devem ser proibidos prioritariamente e iniciar seu registro. Ainda em 2001 o código foi revisado e foram incluídas as referências explícitas ao amor por Israel. Por que?
A resposta mais óbvia é que não há uma contradição entre a defesa dos princípios democráticos, por um lado, e a referência a Israel e ao Judaísmo, do outro. Nada impede em princípio que estes valores e estas influências se justapõem em um mesmo código ético. Asa Kasher lamenta "esta adição emocional" no código do qual ele foi o autor. Moshe Halbertal, outro filósofo, da Universidade de Jerusalém, que participou da revisão do código sublinha, de seu lado que, no contexto da segunda Intifada, os terroristas palestinos fazem uma guerra a Israel e como tal recusam toda a distinção entre os soldados e os civis (como muitos israelenses quanto palestinos). A postura dos cidadãos de Israel é apontada através da segunda Intifada e não só por seu exército. Isto então tem vocação para responder uma ameaça existencial explícita contra a sociedade civil e a democracia e não nada há de chocante em recordar um código ético, revisado neste contexto particular, que o Tsahal tem por vocação de os defender.
Os terroristas palestinos querem uma guerra total de todos contra todos e constantemente expõem sua própria população civil. Desde 2000, eles não pararam de ridicularizar a regra elementar da guerra que faz a separação entre o civil e o soldado, entre o não combatente e o combatente. Eles tentam tirar uma vantagem dupla disto enquanto permitem o desrespeito às outras regras éticas da guerra e dizem sobre seus ataques, que sua luta não é de natureza militar, mas estritamente política e que todo o contra-ataque feito a eles é, assim, um ataque ilegítimo à sociedade palestina em seu todo. As regras éticas do Tsahal, pelo contrário, visam refinar, numa situação de luta, e respeitar, num contexto que é deliberadamente confundido pelo inimigo, a diferença entre lutar e não combater. Neste contexto, a escolha dos ataques direcionados contra os terroristas parece dar ao Estado Maior do Tsahal mais moral, se não dar-lhe a condição de mais eficiente.
A legalidade dos ataques dirigidos - A proibição contra atos de assassinato não se aplica em casos de ataques dirigidos contra terroristas palestinos: alguém pode afirmar que eles são legítimos e legais. De outra forma provavelmente é sobre a escolha da moral e do preenchimento de um certo número de condições. A questão de sua eficiência também surge, mas a intervenção traz outras considerações. Os ataques dirigidos contra os terroristas palestinos, ou contra os agentes egípcios e os físicos alemães não "desnazificados" que finalizavam o sistema de projéteis balísticos controlados contra o Israel nos anos 60, são parte das antigas práticas de Israel.
Os ataques dirigidos de acordo com a lei israelense - o advogado geral do Tsahal observou as condições de acordo com as quais esses ataques são legais. O primeiro é poder determinar se um ataque for suscetível para prevenir um ataque terrorista por vir. Por outro lado um ataque não pode ser decidido como motivo de vingança, embora esteja claro que, de outro lado, os ataques dirigidos satisfaçam a necessidade de vingança do público israelense. Outra condição é que o ataque dirigido só é decidido depois de provado que a Autoridade Palestina ignorou os pedidos de prisão dos terroristas apontadas. Assim como também devem ser feitos se não é possível ou se parece impossível deter o indivíduo apontado. Para determinar se uma pessoa é capaz de conduzir ou promover um ataque terrorista no futuro, o exército aplica seus critérios duplamente: ter a prova de que essa pessoa conduziu ou promoveu ataques em pelo menos quatro ocasiões no passado e ter a prova de que ela está planejando uma nova tentativa nova. Caso contrário nota-se uma interação cada vez maior entre os peritos legais e aqueles que tomam decisões militares nos ataques em caso a caso, embora esta precaução seja supérflua do ponto de visão legal. Realmente, a Alta Corte de Justiça israelense a aceitou como de conformidade com a lei israelense os critérios propostos pelo advogado geral do Tsahal e a realização estritamente militar do ataque legal.
Os ataques dirigidos de acordo com o direito internacional - Neste caso, a justificativa dos ataques é muito complexa, pois deve corresponder a dois critérios: eliminação de um inimigo combatente em tempo de guerra - eliminação em conformidade com os meios da metodologia militar. No primeiro caso, os adversários dos ataques dirigidos tentam "passar para a frente" a idéia de que Israel não pode estar em guerra contra os palestinos enquanto estes últimos não tenham Estado nem exército. Este ponto permite então crer que esta argumentação serve para definir que toda a ação militar do Tsahal seja um ataque injustificado contra a sociedade palestina em seu todo. Mas o direito internacional decidido mais: Só reconhece a paz ou a guerra. E desde que Israel e os palestinos se envolvem em um conflito armado, é legítimo que Israel elimine os combatentes hostis tanto que este conflito armado continua. Isso tem que ser feito porém de acordo com certos métodos: de uma maneira aberta, com meios militares reconhecidos como tal (por oposição para ardis que passam pela manipulação das armas de combate). Considerando que alguns ardis particulares foram usados no passado (Ehoud Barak disfarçou-se de mulher no Líbano), durante a segunda Intifada os meios usados são operações militares convencionais.
Na hora de atacar prevalecem as considerações éticas, além das considerações legais. A questão principal é salvar os não-combatentes, o que ainda não é o caso, ou nem sempre possível, a menos que tolerar uma dor maior enquanto se salva um inimigo. É parte das éticas militares, em geral e não só israelenses, tolerar a morte de inocentes se quatro condições são preenchidas:
1. O ato de combate (aqui o ataque dirigido) é legítimo (alguém cuidou para que as condições sejam legítimas);
2. o efeito deste ato é moralmente aceitável: a destruição de um inimigo, por exemplo;
3. a intenção do executante e de quem toma a decisão é boa: E está concentrada no combatente inimigo e não sobre os inocentes; os danos colaterais produzidos entre inocentes não fazem parte das intenções em jogo;
4. os efeitos positivos produzidos por esse ato combate compensam claramente as conseqüências nefastas (a morte de inocentes) resultantes possíveis desse ato.
Toda a dificuldade provém do item 3 (e, dentro de outra medida, do tipo de cálculo aplicado no 4). Na hora de atacar, a intenção do soldado deve ser concentrada no combatente inimigo e ele deve fazer tudo o que estiver a seu alcance para assegurar-se que também não eliminará, quando golpear, os não-combatentes. É uma certeza difícil de obter. As condições não estipulam na realidade o que é necessário fazer para obter isto, mas o fato de não obtê-lo, considerando o que a pessoa fez para que obtê-lo, é suficiente para permitir o ataque que resultará, na pior das hipóteses, na morte de inocentes.
O chefe do estado-maior do Tsahal, Moshe Yaalon, se desculpou pelas perdas civis na hora do ataque contra Shehadeh. Talvez a falha na informação, se foi o caso, tenha sido um engano que poderia ser evitado, então se entende que a Yaalon se desculpe. Os ataques dirigidos são uma ação que significa mais moral, notadamente, que uma invasão armada dos territórios palestinos que conduzem a mais de perdas civis e danos à infra-estrutura. A questão que fica, entretanto, é a eficácia desses diferentes meios. Os ataques dirigidos mostraram que eles tiveram um certo efeito de dissuasão nos terroristas, mas eles pareciam também levar a algumas tentativas de represálias. A invasão territorial tem a vantagem para permitir atacar a infra-estrutura terrorista na raiz, mas é, militar e politicamente, mais caro. É necessário tentar tirar uma resposta de acordo com o novo contexto que se apresenta: o possível fim da segunda Intifada. Neste contexto, a invasão territorial não tem mais razão de ser. Se a Autoridade Palestina administrar o problema terrorista com rigor, os ataques dirigidos se tornarão deslegitimados. No melhor dos casos, arrisca-se a assistir então, de uma vez por todas, a suspensão de uma velha prática do exército israelense.

* Sacha Gironde é mestre de conferências em filosofia analítica da Escola Normal Superior de Letras e Ciências Humanas e do Seminário Microdiplomacia

Olhos

O Tsahal é o único exército do mundo que tem um código escrito

A situação militar nova para a qual foi confrontado o Tsahal durante a Guerra do Líbano e especialmente durante a primeira Intifada motivaram a introdução de um código de ética escrito

Recusar servir o exército hoje produz o efeito precisamente inverso do que aquele que eventualmente produziria durante a Guerra do Líbano


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