Visão Judaica - Edição N° 17
:. Conferência ante o Comitê Judaico Americano em Washington.:

 

Por: Pilar Rahola

Quando Winston Churchill censurou duramente Chamberlain por sua postura perante Hitler, pronunciou uma das suas frases históricas: "Você teve de escolher entre a vergonha e a guerra; escolheu a vergonha e terá a guerra". É impressionante observar como a história tem uma dura tendência para repetir suas misérias e assim, surpreendida pela síndrome de Chamberlain, uma boa parte da Europa escolhe uma e outra vez a vergonha, sem antes ser capaz de afugentar suas muitas guerras.
Eu venho aqui hoje, desde o Velho Continente e desde este mais velho Sefarad mítico e sofrido para lhes pedir desculpas por formar parte de um corpo social cada dia mais judeófobo, cada dia mais antiamericano e, dia-a-dia mais longe do seu próprio sentido moral. Sou européia convicta e amante do que de melhor deu de si essa cultura heterodoxa e vibrante como é a nossa. Porém, também estou convencida de que hoje a Europa não existe mais além do clube de interesses em que se converteu, velha enfadonha com o seu filho pródigo americano e, além de tudo considerado bastardo. O antiamericanismo é dia-a-dia uma das senhas da identidade da Europa, quase tão poderosa como o foi o anti-semitismo endêmico que escreveu sua pior história. Um anti-semitismo que renasce com total virulência e que é justificado pelo guarda-chuva protetor do anti-sionismo (sempre mais fácil de vender, sobretudo graças à ONU), e não é somente patrimônio da extrema direita.
Hoje o anti-semitismo (leia-se judeufobia), assim como o antiamericanismo são de esquerda e, se recordarmos que são os intelectuais de esquerda aqueles que configuram o prestígio do pensamento e formam as grandes correntes de opinião, se conclui que estamos perante um novo, perigoso e sutil pensamento único. Citando meu amigo Marcos Aguinis, poderíamos falar de um retrocesso da esquerda para a antimodernidade. Em todo caso, muito do que vem ocorrendo nas ruas da Europa, tem muito de antimodernidade, muito, muito de irresponsabilidade. Dia-a-dia, a depreciativa e arrogante frase de Clemenceau, afirmando que "os Estados Unidos são o único país que passou da pré-história para a decadência sem passar pelo estágio da civilização". Ficaria muito curta. A Europa é mais arrogante, mais depreciativa e sem dúvida ainda mais antiamericana. Em um processo paralelo, sem ser mais anti-semita do que sempre foi, volta a seus próprios demônios e liberada de sua pele judia, não se livrou ainda do seu ódio aos judeus.
Perguntam-me pelo impacto da América no mundo após o 11 de Setembro e a guerra no Iraque. A primeira parada é Europa. Esta é minha análise. Por mais que falemos da casa comum européia, nossa casa está vazia, como diria Carlos Semprun Maura, mas apresenta mais de um zelador e um bom número de diferentes andares. Lá estão os sonhos imperiais da França de Chirac, o exemplo mais notável de vergonha e do farisaísmo político. Essa França que participa das mais sangrentas guerras da África esquecida, que intenta vender reatores nucleares ao despotismo do Iraque, e cujo perigo nuclear foi abortado por Israel com a participação de um herói chamado Illan Ramon, essa França que teve uma bela participação na guerra Irã-Iraque, uma guerra onde o uso de crianças para limpar campos de minas foi uma prática massiva, e que nunca fez as pazes com seus dois passados mais sangrentos, o colaboracionismo com os nazistas e o passado colonial. Essa França tenta agora vender a receita da paz. O resultado é um imperialismo reacionário que, buscando uma "frente unida jamais será vencida", alternativa à frente americana, não tem problemas em inibir-se pelo terrorismo islâmico e considerar dignos aliados um monte de ditaduras árabes. Os lemas nas ruas de Paris, paradigma de muitas ruas européias, onde o terrorismo do Hamas é considerado uma forma épica defensiva, e onde Saddam parecia um "amado vovô", foi um dos espetáculos mais hediondos da história recente. Como disse alguém, um não à guerra, não significa um sim a paz. No caso da França, ou da muito coerente Bélgica, disposta a julgar presidentes de Estados democráticos como Israel, porém encantada com seu passado no Congo ou na Ruanda, onde é responsável pela morte de 800 mil pessoas, ou mais ainda, da bela Rússia que massacra na Chechênia, porém chora por Saddam. Nesses casos é mais que evidente que o não à guerra tem sido um sim ás suas próprias guerras. Com desprezo absoluto pela luta a favor da liberdade e a democracia, mesmo que seja em nome da democracia que eles disseram agir.
É claro que a Europa não é somente a França, a Rússia e a Bélgica. Também fazem parte da longa lista dos países do Leste, a Lituânia e a Bulgária, que livres do jugo stalinista, olham com simpatia que os Estados Unidos lutem contra o totalitarismo, não em vão que sofreram na própria carne. E também claro que é a Inglaterra, Itália, Espanha. Mas, precisamente porque é tudo isso, sua definição é a pura confusão. Dia-a-dia a identidade que une maior número de europeus é a mesma que diverte a identidade francesa e unifica os cidadãos dos bairros da periferia com os meninos ricos das universidades de Paris: a identidade é o antiamericanismo. Convertido em pensamento único, simplifica os problemas até o reducionismo mais primitivo, transforma os Estados Unidos no bobo útil de suas próprias misérias e, na demonização permanente do mal americano, se libera de sua própria culpa.
Essa Europa, essa que desenhou a vergonha colonial do mundo, que criou os dois grandes totalitarismos da história da modernidade, o nazismo e o stalinismo, que marcou o século 20 com duas guerras mundiais, essa Europa que esqueceu com cruel indiferença os 221.484 americanos enterrados em seus próprios cemitérios e que tinham vindo salvá-la de si mesma, essa mesma Europa da vergonha balcânica, do horror africano, da indiferença com o extermínio armênio ou curdo, essa Europa não tem o direito histórico de dar lições de moral. E é precisamente por isso, por sua má posição na história, e pela necessidade permanente de pedir ajuda americana, que se agarra ao antiamericanismo. Diria, se me atrevesse a imitar Freud, que a Europa padece de um duplo complexo com relação aos Estados Unidos: um grande complexo de
superioridade, derivado de sua arrogância histórica, não em vão é o berço da modernidade. E um evidente complexo de inferioridade, dada sua incapacidade notória por evitar seus próprios desastres e salvar-se deles.
Portanto, orgulho ferido, amargura, ciúmes, impotência… assunto para psicanalista. Se Woody Allen fizesse um filme sobre as frustrações européias, sem dúvida faria um banquete. Depreciando o americano, nós podemos dizer que a Europa, talvez, tenta não se desprezar a si própria…
A segunda parada da mesma viagem é a esquerda européia, base social do pensamento antiamericano. Falo da esquerda dogmática, claro, com substrato comunista pertinente e ainda não exorcizado.
Quantos dos mais entusiasmados porta-vozes contra a guerra de Iraque fizeram as pazes com seu passado stalinista? Embora possam existir muitos argumentos contra a guerra, e alguns muito oportunos, é evidente que o único argumento que não o é, é o antiamericanismo. E, sem dúvida alguma, podemos dizer que o movimento contra a guerra só foi ativado porque por detrás dos tanques havia bandeiras com listas e estrelas. Não tenham ilusões os mais bem intencionados que me escutam. A Europa não aumentou sua cultura da paz, aumentou sua cultura antiamericana. Nem um só dos ativistas mais comprometidos que há na Europa nunca se mobilizou pelo milhão de mortos que registra o macabro ranking do integrismo muçulmano no Sudão. Nem pelos milhares de mortos pelo integrismo na Argélia, ou pelo Setembro Negro de Hussein (falecido rei Hussein, da Jordânia) ou pelas matanças dos opositores sírios de Hafez Assad. E, é claro, nem lhes interessam as guerras do sudeste asiático, derivadas das aventuras comunistas do passado, nem se comovem pela lenta e invisível morte africana. Não vi bandeiras contra a França por sua recente intervenção na Costa de Marfim, nestes dias de ocupação das ruas. Nem as verei.
Faz falta um tanque com listas e estrelas ou um rifle com a estrela de David, para que a consciência da esquerda européia se indigne, se mobilize ou peça explicações. Contra o chamado imperialismo americano, essa mesma esquerda defende totalitarismos e ditaduras notórias, numa derivação dogmática que se parece muito com os fascismos de esquerdas. O bom senso exige pensar que algumas coisas são boas, embora as defenda Bush ou Sharon, mas o maniqueísmo da esquerda dominante no pensamento europeu não permite que esse pouco bom senso seja o bom senso. Afinal de contas, do que nos surpreende uma esquerda que acabou se apaixonando por todos os tiranos iluminados, Stalin, Pot Pol, Fidel Castro e agora Arafat? Bela esta capacidade de chorar só com o olho esquerdo… Em meu país, por exemplo, convertemos o escritor Saramago em um tipo de guru do pensamento, quando Saramago é o paradigma, junto com García Márquez, de uma declaração irrefutável: alguns podem escrever como os gênios e pensar como os idiotas. Auguste Bebel, em 1884, já chamou a isso de "o socialismo dos imbecis". Por que aquela elevação aos altares de Saramago? Por sua infâmia de comparar a Shoá com as vítimas de Jenin, é difícil encontrar um exemplo de imoralidade mais cruel: lançar, sobre as vítimas da Shoá seu próprio martírio, é outra forma de tornar a matá-las, e por que se tornou o paladino antiamericano.
Outro exemplo também deplorável: A Esquerda Unida (partido parlamentar das esquerdas na Espanha), recusou-se a participar da rememoração do Holocausto, por sentir-se, e eu menciono textualmente - há imbecilidades que nós devemos mencionar com precisão - "solidária com a causa palestina e com os milhões de mortos soviéticos da Segunda Guerra Mundial". Quer dizer, à parte de demonstrar que não entendeu nada da história da Europa (nunca serão comparáveis às vítimas de uma guerra o inigualável horror da criação de uma indústria do extermínio de um povo), também demonstra que há vítimas que não a movem. Aquele mesmo partido considera Arafat um novo mito épico.
Dizia Freud em sua célebre carta a Einstein em 1932, que "tudo aquilo que impele a evolução cultural, trabalha contra a guerra". Eu ouso, humildemente, refutar o grande mestre. Em meu país e em meu continente, muitos dos agentes da cultura, são, também, agentes do discurso mais maniqueísta, acrítico e dogmático que existe hoje na Europa. Sem dúvida ler muito não garante pensar corretamente…
Do meu ponto de vista, o pior da esquerda atual é a traição que está fazendo à democracia perdoando o niilismo terrorista. Com isto obtém dois resultados dolorosos: trair o princípio de justiça segundo o qual todas as vítimas são iguais; e dar asas ao terrorismo. Os exemplos são escandalosos: nunca vi uma só manifestação contra o terrorismo integrista por causa do 11 de Setembro e nunca ouvi que alguma ONG quisesse enviar escudos humanos para as cafeterias e pizzarias de Tel Aviv. Ha uma solidariedade seletiva, derivada de um pacifismo também seletivo que por sua vez, em seu momento, chegou a considerar o atentado às Torres Gêmeas como uma pura conseqüência da política americana.
Também em Israel as vitimas judias acabam sendo, na boca destes chamberlianos, seus próprios carrascos. Só fez falta passear per esses restos do naufrágio revolucionário dos anos 60 que foi o Fórum de Porto Alegre, para entender do que falamos. O lúcido intelectual André Glucksman avisa do perigo do niilismo integrista, porém os intelectuais europeus só estão preocupados com a democracia americana.
Com isto não coloco em questão a necessidade de um olhar crítico a respeito da política norte-americana, mas sempre a par de uma séria autocrítica européia e, além de tudo, uma ríspida rejeição ao integrismo islâmico. Hoje isto não se dá, de forma que a crítica antiamericana passa a ser uma forma de maniqueísmo, de um maniqueísmo irresponsável. O integrismo islâmico é o herdeiro natural dos dois grandes totalitarismos da humanidade: o nazismo e o stalinismo.
Como eles é fundamentalmente anti-semita (judeófobo), e como eles apresenta um corpo de doutrinas baseado no terror, a anulação de todo princípio de liberdade e o expansionismo sangrento. Também como eles atua ante a indiferença; lembrem da frase de Herman Broch: "a indiferença é uma forma de violência" - a impotência e o paternalismo europeus. Um paternalismo que no caso da esquerda chega a converter-se em cumplicidade.
Os motivos são múltiplos, entre eles a ausência de épicos próprios, e o afundamento das grandes utopias que marcaram a modernidade. Órfãos desses sonhos uma grande maioria de cidadãos olha o mundo árabe buscando a ressonância de Lawrence da Arábia e se apaixonam pelas guerras totais, pelos gritos tribais da revolução, talvez convencidos de que entre a "revolução ou morte" do Che, e o "viva a morte", do Hamas, não há muita diferença. Procuram, pois, Lawrence da Arábia e, ainda não descobriram que, com que se encontraram foi com Bin Landen...
...Ou com Arafat. E é Arafat e a causa palestina que nos obriga a parar na terceira estação: a estação terminal do anti-semitismo europeu.
Sustento com grande dor que o europeu e o palestino se identificam tanto por serem vizinhos de um território comum: a judeufobia. E é a judeufobia, não reconhecida como tal, escondida sob o guarda-chuvas do anti-sionismo, que explica a tremenda criminalização de que padece Israel, a demonização dos seus direitos legítimos e, sobretudo sua adesão total à causa palestina, esteja ou não banhada em sangue.
A neutralidade européia a respeito do Oriente Médio é uma neutralidade pró-palestina.
Foi esse grande homem, Martin Luther King, que já disse, em sua carta a um amigo anti-sionista em 1967: "Os tempos converteram em impopular a manifestação aberta do ódio aos judeus (judeufobia). Sendo assim, o anti-semita procura novas formas e foros onde possa instilar seu veneno. Agora se esconde sob uma nova mascara! Agora não odeia os judeus, somente os sionistas".
Trinta e seis anos depois, quem aqui lhes fala teve que enfrentar em foros públicos a mais de um intelectual celebrado, que sustentava isso mesmo que Luther King denunciava: que só é anti-sionista. Se o anti-sionismo é a nova formulação retórica a criminalização permanente e implacável de Israel, é sua fixação pratica. Israel é o único pais do mundo obrigado a cada dia pedir perdão por existir, censurado, distorcido e, a todas luzes rechaçado. Não se trata da defesa do palestino, se trata, sobretudo, da rejeição ao israelense, uma rejeição que mostra na Europa a agonia da informação, assassinada a golpes do sectarismo e propaganda; e a agonia da inteligência, assassinada a golpes panfletários. Sem duvida nenhuma, podemos afirmar que Israel tem perdido a batalha da opinião e que hoje, não se projeta como o país da paz, que realmente é. Perdeu-a pelas suas muitas culpas? Atrevo-me a dizer que nem suas melhores virtudes seriam capazes de redimi-la do ódio europeu.
Nada surpreendente no final das contas. Não obstante a feroz tradição cristã que durante séculos fez do povo judeu o povo deicida ("uma praga no coração da terra", dizia Lutero), nenhum europeu decente fala hoje nesses termos (por certo, podem dizer a Mel Gibson, da minha parte, que é um cretino...), porém entre o judeu medieval malvado que matou Jesus e o soldado do exército israelense que mata crianças em Belém existe uma perversa e agradável relação simbólica que qualquer europeu goza inconscientemente. Nesse cabide estão penduradas as distorções informativas, as perversões gramaticais que convertem terroristas em nobres lutadores e a ditadores corruptos em líderes românticos. Não existem vítimas judias, como não existem carrascos palestinos. No cúmulo da distorção da verdade, o terrorismo árabe passa a ser compreensível e até aceitável. O Oriente Médio é um cúmulo de falsidades que têm feito da confusão o pior inimigo da verdade, e provavelmente o mais feroz inimigo da paz. Sem dúvida nenhuma Israel paga muito caro o otimismo de Camp David. Não sendo responsável pelo seu fracasso, paga as conseqüências.
Venho da Europa. Novamente peço desculpas. É o meu Parlamento, o europeu, que financia o sistema educativo palestino onde, dia-a-dia se inculca o ódio contra os judeus, numa apologia do fatalismo que termina sendo um elogio planificado da cultura da morte. Um fatalismo que, além disso, impossibilita o acesso à cultura democrática de gerações inteiras. Meu Parlamento, o europeu, que se nega a conhecer o que se faz com esses fundos, o que ocorre com a corrupção de Arafat "et caterva", ou que conseqüências terá a hipermilitarização da sociedade palestina. É o meu Parlamento que se mostra indiferente ao único perigo real da região: a desaparição de Israel. Nem essa esplêndida ONU que teve o belo Waldheim entre seus presidentes, que converteu o sionismo numa espécie racismo e que, dos seus 220 estados, 150 deles são ditaduras, nem a ONU, nem a Europa mandariam um só soldado para salvar Israel. Acrescento mais: no próprio coração do Parlamento europeu está viva a idéia de que o Estado de Israel não teria que existir. É óbvio que as responsabilidades dessa mesma Europa na criação do Estado, após o intento do extermínio de todo um povo desapareceram num esquecimento memorável. Permitam-me dizer-lhes algo com incontida raiva: o esquecimento é sempre uma opção. De fato esquecer significa ter uma boa memória. A Europa tem para desgraça do seu racionalismo uma muito boa má memória, e sabe bem que a culpa judia sempre vende nos mercados da demagogia.
Deixo para o final o tema islâmico, a última parada. A Europa também é islâmica. O são os bairros periféricos de muitas cidades francesas, inglesas ou alemãs e logo, também, as espanholas. Ingleses eram os terroristas que perpetraram um dos últimos ataques em Israel. E nas mesquitas de Barcelona, foram cidadãos espanhóis que se manifestaram a favor de Bin Laden primeiro, e de Saddam depois. Uma das piadas de Efraim Kishon diz que "Israel era o país mais avançado no Oriente Médio graças a seus vizinhos". Certo? Sem nenhuma dúvida o grande lastro do mundo e o perigo mais sério para a democracia é este: um bilhão e.200 milhões de muçulmanos vivem acorrentados a regimes teocráticos, autocráticos e a ditaduras despóticas, e embora vários milhões vivam em democracias, (16 na Europa), a permeabilidade de alguns ao irredentismo integrista é preocupante.
Como foi historicamente a permeabilidade ao fascismo por alguns populismos cristãos. Sabemos que no mundo muçulmano se banaliza a "Shoá" e inclusive se nega. O mesmo Abu Mazen, esperança branca da paz, escreveu uma tese negacionista, onde se pode ler sua afirmação de que "somente morreram 890 mil judeus, e que o resto foi uma invenção sionista". E como era a frase que obrigatoriamente estudavam as crianças das escolas de Saddam? "Há três coisas que Alá não deveria ter criado; os persas, os judeus e as moscas"! Os terríveis "Protocolos dos Sábios de Sião" são, junto com o "Mein Kamf", autênticos best-sellers e nas madrassas de meio mundo, se inculca dia após outro uma cultura fatalista que odeia o judeu como base da identidade. E que obviamente odeia a democracia. Somente no Paquistão existem 7000 madrassas que atendem 600.000 alunos. Calcula-se que metade passa a ser militantes radicais. Seu objetivo? Seu objetivo sem nenhuma dúvida é o combate à modernidade. Como o stalinismo, como o nazismo. Por isso é evidente que a queda de duas ditaduras do Oriente Médio, Afeganistão e Iraque, alimentadoras poderosas do terrorismo, e ass duas agentes desestabilizadores da região, são as melhores noticias do combate atual pela democracia. É claro que o Egito, Síria e Arábia Saudita estão aí, com nossos piores sonhos, mas algo se movimenta muito seriamente nesse paiol de pólvora do mundo.
Por isso, por que o mundo está melhor sem Saddam e sem Bin Landen e, sobretudo está mais segura a democracia, sustento que se atraiciona a si própria quando não combate o integrismo islâmico. Passa a ser a histórica, quando não anti-histórica. E se trai a Europa, outra vez repetindo seus próprios erros. Há quem diga que a Europa não tem solução.
Precisamos de uma solução e passa pelo combate a favor da democracia. O mesmo combate que Israel trava há 55 anos, rodeado de inimigos antidemocráticos. Sem dúvida nenhuma paga a anomalia de ser um estado racionalista no meio do irracionalismo.
O mesmo combate que sempre manteve os Estados Unidos, apesar de seus muitos inimigos e de seus graves erros. O mesmo combate que a Europa perdeu tantas vezes... Uma escritora espanhola escreveu faz pouco que "um pensamento independente é um lugar muito incômodo e solitário" Hoje, esse lugar incômodo o ocupamos na Europa, onde somos muito meticulosos ao apontar Israel, ao odiar o americano e ao esquecimento cego das nossas próprias culpas. Porém, somos os donos da razão, sem nenhuma duvida, porque a história nos fala muito claro: ante cada novo totalitarismo, a maioria da Europa foi fazer a sesta, e alguns encantados com o passado stalinista ainda dormem.
O integrismo islâmico é o novo totalitarismo do mundo. Como tal é inimigo do mundo livre, e também inimigo do próprio mundo muçulmano, que escraviza numa espiral de ódio, fanatismo e ignorância. Levantar a voz contra esse perigo não somente é uma exigência moral e uma obrigação do pensamento. É, também, um ato de autodefesa.
Termino com o desejo de que sejam indulgentes com a velha Europa. A Europa tem dado ao mundo os pilares da democracia, também tem fabricado as formigas que têm tentado destruí-la. Mais antinorteamericanos que nunca, novamente anti-semitas e acima de tudo panarabistas.
Somos uma parte do problema, porém temos que formar parte da solução. Como americanos não caiam, por solidão, na prepotência. Como judeus, que posso dizer-lhes! Que me sinto judia por que sou européia, e essa é a única condição moral que redime um europeu do seu passado de vergonha. Shalom.

* Pilar Rahola mora em Madri, é jornalista e ex-deputada espanhola, e foi membro do Parlamento Europeu. Este artigo é transcrição da conferência que ela proferiu para o Comitê Judaico Americano em Washington, Estados Unidos. Comentários para pilarrahola@hotmail.com Tradução de Jaime Ruben Lichtenstein.


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