O plano de paz está morto - foi o que disse
Arafat no dia que antecedeu a renúncia do "primeiro
ministro" Abu Mazen. Sua declaração soou como
um anúncio dos atentados contra civis e militares israelenses.
Simultaneamente foi nomeado o novo "premier", alguém
que faz mais o gosto de Arafat. O primeiro ministro não
terá muito que fazer. Os atentados foram mais fortes e
Israel agiu rápido, buscando os terroristas em casa.
Na realidade, o plano de paz já estava com os dias contados.
A situação no Iraque, após o ataque terrorista
à sede da ONU, permitiu a Arafat revelar, sem muitas preocupações
políticas, a sua estratégia em relação
ao road map. Os atentados voltaram a acontecer com freqüência,
denunciando a fragilidade do contexto para a continuidade ao já
cambaleante processo de paz.
A expectativa gerada pela ocupação de Bagdá
e conseqüente derrubada de Saddam Hussein favoreceu, num
primeiro momento, a implantação do road map, coisa
que Arafat não queria, principalmente depois de ter sido
afastado das negociações. Naqueles dias os EUA detinham
a vantagem para realizar qualquer acordo no Oriente Médio.
Hoje não ocorre o mesmo. O Iraque tornou-se um grande campo
de batalha. O fundamentalismo islâmico fez do Iraque o lugar
da grande guerra - guerra apocalíptica - onde o "bem
e o mal" disputam o controle do mundo. É no Iraque
ocupado que todo o ódio do Ocidente será destilado.
Democracia é coisa que está longe de acontecer naquelas
terras. Será preciso muito tempo para convencer xiitas
de que há lugar para sunitas, e sunitas de que há
lugar para curdos. O pós-guerra revelou o tamanho do balaio
de correntes islâmicas, de ódios e ressentimentos
criados durante o sadanismo e que, só agora, os EUA percebem
que não pode administrar sozinho.
Arafat chegou ao que queria. Afastou Abu Mazen, elegeu um fantoche.
Pôs fim no plano do qual não participara. Voltou
à cena como homem de boa vontade: escolheu um "moderado"
para dar continuidade ao processo, ficando livre da acusação
de não ter contribuído com a paz. No entanto, não
condenou os dois últimos ataques a Israel, pelo contrário,
conclamou o povo à luta para o extermínio de Israel.
Neste tempo, e em má hora, oito ministros de Israel pediram
o exílio de Arafat. Foi um tiro no pé. Era tudo
que Arafat queria. Ele voltou às ruas, nos braços
do povo, foi elevado ao pódio dos heróis. Com a
corda toda, baterias renovadas e alma lavada, o chairman palestino
irá tirar proveito da dificuldade dos EUA no Iraque. Tirará
a desforra, não dando a Bush a chance de recuperar seu
desgaste com a investida no Oriente Médio. E talvez, nesta
hora, já esteja costurando os primeiros acertos com a oposição
americana, jogando para frente um possível reinicio das
conversações para a criação do estado
palestino. Livrando-se, por hora, de qualquer relação
visível com os EUA, coisa que seria desaprovada pelos seus
companheiros de luta. Além disso, conquista simpatias pelo
mundo afora e reforça os laços com os radicais islâmicos.
A promessa feita por Sharon, de expulsar Arafat da Cisjordânia,
embora não tenha sido marcada uma data, foi terrível.
Ele, que tinha pouco valor no mundo árabe, passou a valer
seu peso em ouro. Os governos, em dificuldades com a oposição
dos radicais, se apressarão em lhe oferecer asilo e, certamente,
ajuda financeira aos palestinos. Por outro lado, Bush fará
o possível para impedir o cumprimento da promessa de Israel.
Forçará, de todas as maneiras, a retomada do processo
de paz, pois precisa recuperar suas perdas na opinião pública.
Enfim, o homem que convenceu uma população de que
no fim do arco-íris havia um estado, fortaleceu seu carisma,
vingou-se de Bush. Para Israel, que ficou só nesta história,
resta continuar a fazer sua defesa interna e cumprir o papel de
polícia em Gaza e na Cisjordânia.
/* Antonio Carlos Coelho é professor, diretor
do Instituto Ciência e Fé.