Visão Judaica - Edição N° 17
:. A vingança de Arafat .:

Por: Antônio Carlos Coelho

O plano de paz está morto - foi o que disse Arafat no dia que antecedeu a renúncia do "primeiro ministro" Abu Mazen. Sua declaração soou como um anúncio dos atentados contra civis e militares israelenses. Simultaneamente foi nomeado o novo "premier", alguém que faz mais o gosto de Arafat. O primeiro ministro não terá muito que fazer. Os atentados foram mais fortes e Israel agiu rápido, buscando os terroristas em casa.
Na realidade, o plano de paz já estava com os dias contados. A situação no Iraque, após o ataque terrorista à sede da ONU, permitiu a Arafat revelar, sem muitas preocupações políticas, a sua estratégia em relação ao road map. Os atentados voltaram a acontecer com freqüência, denunciando a fragilidade do contexto para a continuidade ao já cambaleante processo de paz.
A expectativa gerada pela ocupação de Bagdá e conseqüente derrubada de Saddam Hussein favoreceu, num primeiro momento, a implantação do road map, coisa que Arafat não queria, principalmente depois de ter sido afastado das negociações. Naqueles dias os EUA detinham a vantagem para realizar qualquer acordo no Oriente Médio. Hoje não ocorre o mesmo. O Iraque tornou-se um grande campo de batalha. O fundamentalismo islâmico fez do Iraque o lugar da grande guerra - guerra apocalíptica - onde o "bem e o mal" disputam o controle do mundo. É no Iraque ocupado que todo o ódio do Ocidente será destilado.
Democracia é coisa que está longe de acontecer naquelas terras. Será preciso muito tempo para convencer xiitas de que há lugar para sunitas, e sunitas de que há lugar para curdos. O pós-guerra revelou o tamanho do balaio de correntes islâmicas, de ódios e ressentimentos criados durante o sadanismo e que, só agora, os EUA percebem que não pode administrar sozinho.
Arafat chegou ao que queria. Afastou Abu Mazen, elegeu um fantoche. Pôs fim no plano do qual não participara. Voltou à cena como homem de boa vontade: escolheu um "moderado" para dar continuidade ao processo, ficando livre da acusação de não ter contribuído com a paz. No entanto, não condenou os dois últimos ataques a Israel, pelo contrário, conclamou o povo à luta para o extermínio de Israel.
Neste tempo, e em má hora, oito ministros de Israel pediram o exílio de Arafat. Foi um tiro no pé. Era tudo que Arafat queria. Ele voltou às ruas, nos braços do povo, foi elevado ao pódio dos heróis. Com a corda toda, baterias renovadas e alma lavada, o chairman palestino irá tirar proveito da dificuldade dos EUA no Iraque. Tirará a desforra, não dando a Bush a chance de recuperar seu desgaste com a investida no Oriente Médio. E talvez, nesta hora, já esteja costurando os primeiros acertos com a oposição americana, jogando para frente um possível reinicio das conversações para a criação do estado palestino. Livrando-se, por hora, de qualquer relação visível com os EUA, coisa que seria desaprovada pelos seus companheiros de luta. Além disso, conquista simpatias pelo mundo afora e reforça os laços com os radicais islâmicos.
A promessa feita por Sharon, de expulsar Arafat da Cisjordânia, embora não tenha sido marcada uma data, foi terrível. Ele, que tinha pouco valor no mundo árabe, passou a valer seu peso em ouro. Os governos, em dificuldades com a oposição dos radicais, se apressarão em lhe oferecer asilo e, certamente, ajuda financeira aos palestinos. Por outro lado, Bush fará o possível para impedir o cumprimento da promessa de Israel. Forçará, de todas as maneiras, a retomada do processo de paz, pois precisa recuperar suas perdas na opinião pública.
Enfim, o homem que convenceu uma população de que no fim do arco-íris havia um estado, fortaleceu seu carisma, vingou-se de Bush. Para Israel, que ficou só nesta história, resta continuar a fazer sua defesa interna e cumprir o papel de polícia em Gaza e na Cisjordânia.

/* Antonio Carlos Coelho é professor, diretor do Instituto Ciência e Fé.

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