Introdução
A
história dos judeus no Brasil constitui
um caso único; pois de nenhum outro país
se pode dizer que nele os judeus tenham vivido
ao longo de toda a sua existência, contribuindo
substancialmente para o seu desenvolvimento econômico
e social.
De fato, desde o descobrimento do país - evento este do qual participaram,
tendo inclusive ajudado nos seus preparativos - até a época presente,
os judeus, quase sem intermitência, aberta ou disfarçadamente,
estiveram integrados nos processos de formação da nacionalidade.
Isso não obstante, vale dizer, embora os judeus tenham representado
continuamente uma parcela da sociedade, a sua história não acompanha
simplesmente a do Brasil. Longe de um esperado paralelismo, o que se verifica é a
existência de inúmeros desvios e meandros, os quais não
raro atingem o grau de contraste.
À guisa de exemplo, mencione-se o período da ocupação
holandesa, que, traduzindo um fracasso para o país, constituiu, entretanto,
o ponto mais alto do desenvolvimento da coletividade judaica local, dando-se
o inverso com a fase subseqüente, quando, após a expulsão
dos invasores, sobreveio a decomposição, o êxodo e a dispersão
dos judeus do Brasil.
Semelhantemente, as intensas perseguições religiosas da primeira
metade do século XVIII, de parcos efeitos diretos sobre a população
geral do país, tiveram influência específica marcante sobre
a vida dos judeus brasileiros.
Finalmente, sob outro aspecto, a implantação do regime e disposições
liberais no país, no início do século XIX, culminando
com a proclamação da Independência, e que resultou tão
favorável ao progresso geral do país, determinou porém
a assimilação quase total dos judeus, efeito este que é de
se considerar negativo do ponto de vista da preservação da comunidade
judaica brasileira.
Por tais motivos, o estudo da história dos judeus no Brasil não
pode ater-se às fases e aos marcos gerais da evolução
política e social do país, senão orientar-se, ao revés,
segundo os fatos e acontecimentos históricos que hajam repercutido especificamente
nas condições de vida individual, e sobretudo, coletiva dos judeus.
De acordo com tal critério, impõe-se destacar as seguintes oito
fases na história dos judeus no Brasil, de 1500 a 1900:
1)
1500-1570 - FASE PACÍFICA DE CRESCENTE
IMIGRAÇÃO e de ampla integração
dos judeus na vida econômica do país,
compreendendo os três sub-períodos:
a) - Primeiras explorações (1501-1515);
b) - Primeira colonização (1515-1530);
c) - Colonização sistemática (1530-1570)
2) 1570-1630 - FASE TUMULTUÁRIA, caracterizada pelo surgimento de DISCRIMINAÇÕES
ANTI-JUDAICAS.
3)
1630-1654 - Período de EXUBERANTE DESENVOLVIMENTO,
sob o domínio holandês - verdadeiro
APOGEU DA ORGANIZAÇÃO COLETIVA
dos judeus do Brasil.
4)
1654-1700 - Período pós-holandês,
FASE CRÍTICA na vida dos judeus brasileiros,
compreendendo ÊXODO em massa, desagregação
da comunidade, DISPERSÃO e final acomodação
local.
5) 1700-1770 - Período das GRANDES PERSEGUIÇÕES promovidas
pela Inquisição portuguesa.
6)
1770-1824 - Período de LIBERALIZAÇÃO
progressiva, queda da imigração
judaica e GRADUAL ASSIMILAÇÃO dos
judeus.
7)
1824-1855 - Fase de ASSIMILAÇÃO
PROFUNDA, subseqüente à cessação
completa da imigração judaica homogênea
e à igualização total entre
judeus e cristãos perante a lei.
8)
1855-1900 - Período PRÉ-IMIGRATÓRIO
MODERNO, caracterizado pelas primeiras levas
de imigrantes judeus, oriundos, sucessivamente,
da África do Norte, da Europa Ocidental,
do Oriente Próximo e mesmo da Europa Oriental,
precursores das correntes caudalosas que, nas
primeiras décadas do século XX,
vieram gerar e moldar a atual coletividade israelita
do país. |