Apesar
dessas convulsões no organismo social
da França, os judeus franceses prosseguiram
desenvolvendo sua vida e sua cultura, pois sempre
o mundo olhava a França como um guia de
liberdade e fraternidade. Mas a França
também tinha suas contradições.
Voltaire, pensador que se desfez das amarras
e dos preconceitos medievais, foi um anti-semita
visceral. Já no século passado,
por exemplo, figuravam no parlamento seis deputados
e três senadores judeus. Nas esferas intelectuais
francesas contava-se com várias personalidades
proeminentes que gozavam de fama positiva. Esta
era a situação francesa na época
da invasão alemã em 1940.
Na
Itália, na idade moderna, aos judeus ali
já residentes foram-se agregando muitos
exilados da Espanha, Portugal, Alemanha e França.
Os da Espanha estabeleceram-se primeiramente
na Itália meridional, donde foram expulsos
por Carlos V, no ano de 1541; os da França
e da Alemanha instalaram-se na Itália
setentrional, no Estado pontifício. Até a época
da Reforma, as condições de vida
foram boas, porém, com a contra-reforma,
os judeus voltaram a ser atacados.
Júlio
III proibiu o estudo do Talmude. Os judeus foram
encerrados em guetos, excluídos de suas
profissões e finalmente, em 1569, expulsos
de todas as cidades, menos Roma e Ancona. Em
Toscana, Mântua, Ferrara e Veneza a situação
era muito melhor. Na primeira destas cidades,
por obra dos judeus e anussim imigrados da Espanha,
surgiu a comunidade de Liorna.
Estas
situações permaneceram quase inalteráveis
até a Revolução Francesa.
No ano de 1848, começou a emancipação
dos judeus em certas localidades e a mesma sorte
tiveram os que foram se agregando ao reino da
Itália, gozando assim estas comunidades
judias de uma das melhores situações
na Europa.
Nunca
estalou ali um movimento anti-semita e os judeus
puderam ocupar posições destacadas
tanto no terreno político como no cultural.
Muitíssimos foram os professores universitários,
os homens de ciência e os políticos.
Contudo, também a Itália, desde
o ano de 1938, foi envolvida na onda racial anti-semita.
Na
Alemanha e na Áustria a época moderna
caracteriza-se, no início, por uma grande
tranqüilidade para os judeus. Em Hamburgo,
no século XVI, os anussim puderam constituir
uma comunidade importante; e em fins do século
XVIII, também na Alemanha, começou
o movimento de emancipação conseguida
na Áustria nos anos de 1869-70.
Mas
o alemão carrega em si, desde séculos,
o ódio ao judeu. Nos tempos medievais
ele matava em nome da cruz; depois, com a ascensão
do nazismo extermina em nome de um mito racial.
O fato é que sempre na Alemanha havia
sede de sangue judeu e se procura na história
uma causa para derramá-lo. E é por
isso que, apesar da emancipação,
ainda que o judeu alemão haja dado à sua
nova pátria o melhor de si mesmo e sua
maior glória com homens como Hertzl, Ehrlich,
Einstein e Freud, o alemão não
pode eximir-se de seu anti-semitismo. A vida
judaica na Alemanha e na Áustria nunca
teve o alento liberal que se podia respirar na
França, na Itália, na Inglaterra
e na América. A emancipação
foi praticamente uma palavra, nunca um feito;
tudo o que aconteceu na Alemanha desde 1933,
e nos países dominados pelos nazis, não
foi mais que uma conseqüência atávica
do ódio profundamente arraigado nos corações
teutônicos.
Na
Holanda, depois da expulsão da Espanha,
foram-se formando distintas comunidades judaicas,
entre as quais celebrizou-se a de Amsterdã.
Sua situação ali foi sempre boa,
conseguindo-se logo a emancipação.
Até a invasão nazista em 1940 continuaram
gozando de todos os seus direitos.
Na
Inglaterra os judeus foram admitidos novamente
por Oliver Cromwell no ano 1657, graças à intervenção
de Menasche Ben Israel. Em 1685, um decreto de
Jacobo II declarava livre o culto hebreu e o
exercício de suas práticas religiosas.
Em 1701, edificava-se em Londres a primeira sinagoga.
Os judeus que imigraram para a Inglaterra eram
em parte sefaradim procedentes de Espanha e Portugal
e em parte ashkenazim procedentes da Alemanha.
Também aí a emancipação
foi bem acolhida e, desde a segunda metade do
século XIX, a Inglaterra foi um dos países
onde os judeus encontraram melhores condições
de vida e desenvolveram suas atividades tanto
no terreno político como no cultural.
Não se deve olvidar que o insigne ministro
inglês Lord Beaconsfield, Benjamim Disraeli,
foi judeu, e que o grande químico que
salvou a Inglaterra das dificuldades da falta
de combustíveis na guerra mundial de 1914-18
foi também judeu, o Dr. Chaim Weizman,
que seria mais tarde o primeiro presidente do
Estado de Israel.
Na
Polônia, nos séculos XVI e XVII,
a população judia aumentou notavelmente,
chegando a seu máximo esplendor econômico,
intelectual e espiritual. O judaísmo sefaradi
parecia ter-se reduzido na vida difícil
do desterro, mas a luz judaica não está destinada
a apagar-se. Na Europa oriental e central, os
chamados ashkenazim de Ashkenaz, isto é,
Alemanha - recolheram a luz de seus irmãos
da Espanha e iniciaram um importante trabalho
intelectual.
Mais
aferrados à tradição e à religião,
seus movimentos foram mais religiosos que culturais.
Por causa das perseguições e dos
sofrimentos, difundiu-se entre eles a crença
da chegada imediata do Messias. Shabetai Tzvi,
aproveitando vantagens momentâneas, entusiasmou,
para logo desiludir, as povoações
judias da Europa central e oriental.
Quando
este pensamento coletivo que fez brotar uma esperança
salvadora apagou-se, a sonhada época messiânica
e o falso messias tiveram seu fim como conseqüência
da falta de lógica do pensamento que os
gerou. Surgiu então outro movimento místico-religioso:
o hassidismo. Foi iniciado por Israel Baal Shem
Tov; e a multidão deu-lhe prosseguimento
e até nossos dias o hassidismo continua
vivendo entre os judeus da Europa Oriental.
Com
o século XVII terminou a vida tranqüila
dos judeus na Polônia, iniciando-se as
perseguições, a matança
e a escravidão moral. Sua condição
na Polônia e na Rússia, apesar de
todas as emancipações, continuou
sendo a mais triste de todas; por isso o judeu
polonês sempre considerou a emigração
como o único meio de salvação.
Depois da 1ª Guerra Mundial, a situação
foi aparentemente melhorada em virtude da ação
de Pilsudsky. Hoje é muito doloroso falar
dos judeus da Polônia, dizimados pelos
nazistas.
Na
Rússia, ao modificar-se em 1742 a lei
que proibia aos judeus viver em território
russo, começou a imigração
para lá e em 1804 obtiveram os judeus
algumas concessões, sendo, porém
confinados em determinadas regiões. Em
1840 o Conselho de Estado adotou um processo
para melhorar a situação judaica,
mas em 1843, imputando aos judeus o exercício
de contrabando, obrigaram-nos a residir em cidades
distantes 60 quilômetros da fronteira.
Em 1874 foi promulgada a lei de serviço
militar obrigatório; mas o anti-semitismo
muito difundido produziu os tristemente célebres
progroms (assaltos seguidos de pilhagens, violência
e massacres), sendo particularmente grave o de
Kishinev. Pela melhora relativa em suas condições
diárias de vida, os judeus puderam desenvolver
sua vida intelectual. Muitos são os homens
de letras judeu-russos que enriqueceram nossa
literatura com suas obras. Durante a revolução,
os judeus obtiveram todos os direitos e o anti-semitismo
foi considerado pelo governo dos sovietes como
um grave delito. É claro que a religião
foi perseguida, assim como outras religiões,
e o judeu russo não sentiu diferença
alguma do russo ortodoxo neste sentido; isto
significa que três milhões de judeus
ficaram totalmente isolados do judaísmo.
Houve uma tentativa, fracassada, de Stálin
criar uma república soviética judaica,
um território autônomo que levou
o nome de Birodidjão, no extremo oriente
russo, numa terra inóspita entre a China
e o mar do Japão.
Na
Romênia, a população judia
aumentou muito no século XVII devido às
imigrações procedentes da Polônia
e da Rússia. A emancipação
teve ali muito pouco êxito e, na realidade,
a Romênia foi a única nação
cristã onde a tolerância religiosa
não encontrou guarida.
Persiste
ali, de certo modo, a influência da dominação
russa, que infiltrou superstições
no povo. Ainda que a lei proteja todos os cultos,
os judeus tinham seus templos e um deles, a sinagoga
de Bucareste, seja notável como monumento,
a predominância religiosa atual do país é a
ortodoxia grega. Durante a 2ª Guerra Mundial
os romenos encontram no nazismo um impulso para
a perseguição aos judeus.
Na
Turquia, os judeus expulsos da Espanha foram
bem acolhidos e sempre viveram bem ali. As comunidades
fundadas em Constantinopla, Esmera e Salônica
floresceram cada vez mais. No século XVII
os judeus do império turco tomaram parte
no movimento messiânico de Shabetai Tzvi.
Em geral, a vida dos judeus turcos foi tranqüila
até o início da 2ª Guerra
Mundial
Na
América, o judaísmo começou
com a chegada dos primeiros judeus da Espanha
que vieram em companhia de Colombo. Desde então
foi aumentando a imigração judaica
para as Américas. Em 1665 constituiu-se
em Nova Iorque (então Nova Amsterdã)
a primeira comunidade israelita, fundada por
parte dos judeus que deixaram Recife, no Brasil,
onde viviam bem até que os holandeses
foram expulsos e a Companhia das Índias
Ocidentais perdeu o território que ocupava
em Pernambuco . Em 1790 a Constituição
dos Estados Unidos estabeleceu a liberdade de
religiões e, mais tarde, em princípios
do século XIX, a igualdade de direitos.
A imigração da Europa Oriental
aumentou depois que o Barão Maurício
Hirsch (1831-93) fundou a Jewish Colonization
Association (JCA) que estabeleceu colônias
na Argentina para os perseguidos da Rússia
e da Polônia.
Na
realidade, pode-se afirmar que a condição
dos judeus em toda a América do Norte
desde então tem sido a melhor do mundo.
Em
novembro de 1947 a Organização
das Nações Unidas (ONU) votou pela
partilha da Palestina para a criação
de dois países, um para os judeus e outro
para os árabes palestinos.E em maio de
1948, após dois mil anos de espera pelos
judeus, David Ben Gurion proclamou a independência
do Estado de Israel.
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