Visão Judaica Online
:. Está morto o ditador da palestina .:



“A morte do bode’

Por: Pilar Rahola

É curioso como, com alguns escritores, tenho uma peculiar e esquizofrênica relação. Enamoro-me de suas obras e, ao mesmo tempo, tento esquecer a muita antipatia que me produz. Acontece com Saramago, autor do magnífico “Memorial do convento”, que pude seguir seus passos numa viagem inesquecível por Portugal, mas analista jurássico, cuja vinculação com o comunismo mais distante (anti-semitismo incluído) não o define precisamente como democrata. O que podemos dizer de Cela, misógino, mal-educado, desagradável, anti-catalão, mas autor do monumento literário que é “A família de Pascual Duarte”? Com Vargas Llosa, a relação oscila em função das oscilações de suas opiniões, freqüentemente mais mutantes do que seria recomendável. Às vezes me parecem impossíveis, outras transcendem mais próximas. Seja como for, contribuiu à história da literatura com obras muito memoráveis, e assim faz parte de minha bagagem literária, mesmo que não faça parte de meu tecido sentimental. “La fiesta del chivo”,[“A festa do bode], a novela que Vargas Llosa dedicou para entender a “colonização do espírito” da qual padecem os que vivem sob ditaduras que duram dezenas de anos, retratou com magistral intuição a paralisação política que sofreram todos aqueles que tiveram que administrar o cadáver de Trujillo, pesada carga herdada do asfixiante peso do cadáver de todo ditador.
A ópera bufa que tem acompanhado a agonia de Arafat recorda com precisão a morte do bode Trujillo. Como, de fato, recorda a morte de todos os ditadores: luta pela herança econômica, sempre cifrada em centenas de milhões de dólares, por mais que sempre opaca e sempre negada. Por sorte, no caso de Arafat, por causa da revista Forbes (que informou com detalhes a sua imensa fortuna), e até dezenas de outras fontes, faz anos que sabemos, os que queremos saber mais além da intoxicação, que tem acumulado uma fortuna indecente. Da batalha pela herança, à sensação de caos político, ao choque entre facções, à desolação sentimental dos que o haviam elevado à categoria de mito, etcétera, todo o vazio que provoca o desaparecimento dos poderes absolutos. A morte de um líder democrático nunca gera este caos político-econômico-sentimental que sempre gera a morte dos déspotas. Vargas Llosa fala da “colonização do espírito”. Sem dúvida, o regime absoluto de Arafat havia conseguido colonizar de tal forma os espíritos palestinos, que o espetáculo foi tão dantesco como estes dias temos visto. Brigas com a divina e rica Suha incluídas…
Está morto o ditador dos palestinos, assim como está morto também seu símbolo. E, sem dúvida, para a imensa maioria deles morre un mito. E provavelmente aí está a raiz do problema: em como se forjam os mitos palestinos, de onde nascem as liturgias, quais são os lugares comuns que alimentam as razões sentidas e, freqüentemente, servem de desculpa para as ações violentas. Desde a mítica frase de Golda Meier assegurando que haveria paz o dia em que os palestinos amarem mais os seus filhos do que odeiam os judeus, pouco tem mudado. E se alguém respondia com presteza a esta imagem que fere, era precisamente Arafat. Gestou-se como dirigente muito antes da ocupação israelense, motivado não pela vontade de criar um estado palestino, mas pelo manifesto desejo de destruir Israel. Não esqueçamos que a causa e até mesmo o conceito palestino não surgem a favor dos palestinos, mas como identidade negativa: contrária a dos judeus. É uma identidade ao contrário, nascida no alvor do ódio, sem raízes, mais além das contingências históricas recentes, e com uma única projeção de futuro: destruir o outro. Por desgraça, ser palestino ainda significa ter uma identidade ao contrário. É o ódio o motor da luta, sentimento muito mais forte e motivador que o do próprio amor. E este ódio tem criado uma cultura coletiva que impossibilita qualquer ação de futuro. Arafat gestou o ódio, mimou-o durante décadas, alimentou-o com a destruição sistemática da esperança, e seus herdeiros recolhem esse ódio com dedicada servilidade. Com seu cadáver ainda quente, os Hamas e os Mártires e companhia já aseguraram que nunca firmarão a paz. Todavia e, apesar dos porta-vozes do ódio, por mais que isso pareça chocante aos ouvidos palestinos, a Palestina não tem nenhum futuro sem Israel. Pode ser que achem que Israel seja seu inimigo, mas é seu único aliado. Mesmo que nas ruas de Gaza não queiram saber disso.
E, como irão sabê-lo? Liderados desde o início dos tempos (dos seus tempos. Ser palestino é algo muito recente) por um líder que criou organizações terroristas com vocação destrutiva e que encheu de sangue a desmemoriada Europa. Como também cobriu de sangre o Oriente Médio. Algum dia as centenas de cristãos libaneses massacrados pelas fações palestinas, terão quem os recorde, quem os mencione, quem escreva sobre eles…? Um líder que dinamitou todas as pontes de diálogo e frustrou todas as negociações de paz, incluindo a grande esperança de Camp David. Estas são as palavras do mesmíssimo Arafat, explicadas há pouco tempo por seu próprio guarda-costas, em pleno processo de negociação: “se assino este acordo, terás que ir ao meu enterro”. Quer dizer: havia criado o monstro do ódio, e os monstros têm vida própria. Nunca quis ser como o Sadat egípcio, um estadista por fim assassinado. Preferiu destruir toda esperança pacífica e viver com a auréola da resistência épica, plenamente assentado no populismo da violência e na demagogia antijudaica. Provavelmente Arafat foi, simplesmente, um grande medíocre. Ele, somado à corruptela generalizada, à cultura antidemocrática que impôs, à permisiva cumplicidade com o terrorismo e à nula vontade dos países árabes implicados no conflito em estabelecer uma paz segura, tudo isso nos levou a uma via morta, cheia de assassinatos e sem nenhuma saída.
O povo palestino é bem livre para criar seus próprios mitos, e, certamente, para escolher seus dirigentes. Mas se algo parece claro, em sua jovem história, é que sempre tem escolhido dirigentes bons para o discurso artificioso, a demagogia e a violência, mas péssimos para a paz. Talvez porque, como povo, ainda não a quer. Seja como for, Arafat sempre fez parte de um problema que ele mesmo ajudou a criar. E nunca fez parte da solução. Não sei se sua morte gerará caos, mesmo que seja um processo típico da morte dos ditadores. Mas é uma tampa que desaparece da pia, um obstáculo obtuso que, em sua miséria de querer protagonizar a história dos resistentes, não foi capaz de protagonizar a grandeza dos líderes. Mito, mas não estadista. Símbolo, mas não da paz. Dirigente, mas déspota. Glorificado, porém mediocre. Seu legado fará parte da história da Palestina e do mundo, mas alguns, cremos, com dados à mão, que faz parte da história obscura.

* Pilar Rala foi deputada no Parlamento espanhol e foi vice-prefeita de Barcelona. Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão). Dirige programa de entrevistas na TV espanhola e participa de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática da mulher, da infância e do Oriente Médio. Tem vários livros publicados em catalão e castelhano. Traduzido do espanhol pelo jornalista Szyja Lorber. (www.pilarrahola.com).










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