Visão Judaica - Edição N° 29
:. Uma cerca para mim, mas não para ti .:

Shawn Macomber *

Numa viagem recente a Israel, o repórter George Neumayr, do American Spectator, viu-se num táxi com um jovem judeu ortodoxo exatamente após a saída de Ramallah. “Você é a favor ou contra a cerca?”, perguntou o rapaz, antes de acrescentar, em seguida: “Nessa estrada você tem que ser a favor dela”.
Você tem que ser “a favor da cerca” naquela estrada porque os palestinos militantes gostam de praticar ‘tiro ao alvo’ nos motoristas com rifles de alta potência como parte de sua “guerra de libertação”. Essa conversa entre Neumayr e o jovem judeu é importante porque ilustra com precisão o quanto é difícil para qualquer um colocar-se no lugar de um povo que vive sob a ameaça constante do terrorismo palestino.
“ Diplomatas internacionais, que têm o luxo de não viverem perto da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, usam esta propaganda para divulgar a cerca de segurança como [sendo] o Muro de Berlim do Oriente Médio”, escreve Neumayr. “Sentado confortavelmente na Corte de Haia, a cerca simplesmente não parece tão necessária.”
De volta a casa, porém, a União Européia – apesar de sua oposição verbal e injuriante à cerca de Israel frente à Corte Mundial – descobriu recentemente a utilidade de um cerca de fronteiras. Não para se proteger de terroristas. Não, nada tão sério. Ao invés disso, os europeus procuram defender-se dos trabalhadores migrantes que afluem à Hungria e à Polônia, países membros da União Européia, a partir da Rússia, da Bielo-Rússia e da Ucrânia.
O critério ambíguo é claro: uma cerca que diminuiu os ataques suicidas de homens-bomba a quase zero e salvou inúmeras vidas de judeus é, para a União Européia, absolutamente inaceitável. Mas uma cerca para proteger dos pobres as economias socialistas da Europa é [sinônimo de] bom-senso. “É inacreditável que a Europa não tenha qualquer objeção à construção de uma cerca apenas para manter os imigrantes ilegais do lado de fora, mas quando o estado judeu constrói uma cerca de segurança como último recurso na tentativa de manter terroristas afastados e salvar vidas israelenses, nós sejamos ‘dinamitados’ por eles [europeus] e pela ONU”, disse um porta-voz de Ariel Sharon a Aaron Klein, do World Net Daily. “Dá o que pensar, não dá?” Certamente fez pensar Daniel Pipes, diretor do Fórum do Oriente Médio. “A hipocrisia européia é tão rançosa quanto ostensiva”, disse Pipes ao World Net Daily no mesmo artigo.
Aumenta ainda mais a já bizarra confusão uma notícia que veio recentemente à tona na revista de negócios israelense Globes de que a União Européia vai utilizar especialistas em “cercas de separação” para construir sua [própria] cerca – empresas israelenses. A Globes informa que a Magal Security Systems “deve assinar um acordo de cooperação com uma grande empresa oriental de construção de cercas e sistemas de comando e controle.” A Magal, principal [empresa] contratada para a construção da cerca de segurança israelense, “produz [e equipa] para as IDF salões de planejamento estratégico1, sistemas de comando e controle para as zonas de monitoramento2, e o sistema Fortis integrado de comando e controle dos assentamentos e zonas de segurança.”
A Magal recusou-se a comentar os rumores sobre o negócio, mas o sítio da empresa na Internet – com subsidiárias nos EUA, Canadá, Inglaterra, Alemanha, Romênia, México e um escritório na China – menciona o controle de fronteiras no topo da lista de suas especialidades: “Uma grande preocupação da maioria dos países é a capacidade de dar segurança às suas fronteiras contra a imigração ilegal, o contrabando e a infiltração de terroristas”, diz a apresentação sintética. “O Grupo Magal vem aplicando com sucesso seus produtos de detecção de intrusão de perímetros a usos de segurança de fronteiras em que, devido às grandes extensões, aparelhos de alarme incômodos depreciariam a reputação da instalação.”
Outra empresa israelense, a El-Far Electronics, também está buscando envolvimento, segundo boatos, no que promete ser um projeto muito lucrativo. Estimativas baseadas na construção da cerca de segurança de Israel colocam o provável custo do projeto da União Européia na casa das centenas de milhões de dólares [norte-americanos].
Parece perfeito – e, conquanto [a cerca] não detenha qualquer terrorista palestino, a Corte de Haia provavelmente a apoiará. Conquanto a tecnologia e o know-how israelenses beneficiem os europeus, não há necessidade de refreá-los. Conquanto somente o “amo e senhor” correto seja servido, tudo será kosher [adequado, legal] – nenhum voto de condenação da ONU ou qualquer outra coisa. Ah, abençoados são aqueles que nasceram europeus! Censores de todos, subordinados de ninguém e tão completamente hipócritas quanto sempre quiseram ser.

Notas
[1] “war rooms”, no original (N. da T.)
[2] “buffer areas”, no original (N. da T.)

* Shawn Macomber faz parte da equipe de redatores da revista The American Spectator e tem escrito também para a revista FrontPage Magazine, para o jornal Los Angeles Times, National Review On-line entre outros. Publicado originalmente no FrontPageMagazine.com – 20 de agosto de 2004 e em Mídia Sem Máscara (www.midiasemmascara.org/artigo.php?sid=2513). Tradução de Gisella Gonçalves, 24.08.2004



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