Vittorio Corinaldi*
Com atraso de 4 anos em relação ao prazo original, será inaugurado
em 2 de novembro próximo o novo terminal do Aeroporto Ben Gurion,
o principal aeroporto internacional de Israel.
Por sua localização ele pode ser definido como Aeroporto de
Tel Aviv, já que se encontra a distância de 15 minutos de viagem
do centro da cidade. Mas tratando-se de projeto de grande envergadura, a
obra não se limitou à construção do novo terminal,
e teve que incluir trabalhos de infra-estrutura que facilitam o acesso também
de todo o resto do país, que como é sabido mas tendenciosamente
deturpado por grande parte da midia, é minúsculo de dimensões
para os conceitos do observador brasileiro ou americano: a ligação
rodoviária foi sensivelmente melhorada com a construção
de estradas e equipamentos de bom nível; foi terminado o ramal ferroviário
que permitirá cômoda conjunção com as linhas ferroviárias
já atuantes, dentro da rede nacional que está agora em fase
de rápido desenvolvimento; e o novo terminal inclui também
como parte orgânica do conjunto uma estação para trens.
O turista que chegar a Israel (e muitos são aqueles que repetidas
vezes se serviram do atual terminal de há muito insuficiente) será recebido
finalmente num aeródromo amplo, luminoso e dotado das modernas facilidades
indispensáveis para um tráfego internacional de grande porte.
O velho edifício (de “gloriosa história” desde
seu passado como aeroporto militar britânico dos tempos do mandato,
passando por inúmeras transformações e acréscimos)
ficará destinado exclusivamente aos vôos nacionais internos,
e a um auspicioso aumento do volume de passageiros, se e quando o momento
político encorajar um considerável reincremento do turismo.
Este quadro otimista e aparentemente paradoxal é bastante típico
da realidade israelense de hoje: em paralelo com a permanente tensão
de segurança e com os altos-e-baixos de uma política cheia
de contradições, erros e fracassos de nosso governo; e apesar
do persistente recesso econômico, do desemprego que não diminui,
das desigualdades sociais que uma visão neocapitalista de cunho thatcheriano
só tende a exacerbar e agravar; da cisão profunda na sociedade
israelense provocada pela intransigência fanática de uma minoria
incitada por falsos rabinos e corruptos pseudo-líderes pregadores
da violência e da desobediência civil ou de uma disforme filosofia
de mercado — a despeito de todos estes fatores, o país apresenta
uma contagiante vitalidade e uma frenética tendência de desenvolvimento
nas infra-estruturas, uma inconfundível melhoria em muitos dos serviços
públicos, um visível desejo de recobrar atrasos de dezenas
de anos impostos por condições de perigo e penúria,
uma imagem de estabilidade, bem-estar e progresso material sugestivos de
uma sociedade segura de si, confiante de sua inviolabilidade frente aos desafios
da história.
Esta porém está longe de ser um fato garantido. Faz-se necessária
uma consciência mais realista de nossa verdadeira força no contexto
global e no entorno de países muçulmanos com seus milhões
de súditos; um retorno a conteúdos morais autênticos
e não moldados por trágicos dilemas de comportamento frente
a angustiantes realidades de um povo historicamente oprimido transformado
malgrado em seu opressor; uma liderança menos pressionada por idéias
de ufanismo nacional obsoleto, por interesses setoriais que poderão
solapar os alicerces de uma sociedade sadia e solidária, por fanáticas
ou arcaicas concepções de um judaísmo implantado sobre
falso messianismo ou cega e dogmática aceitação das
escrituras.
Israel encontra-se hoje nessa difícil encruzilhada: como o indica
a imagem de seu novo aeroporto, possui os meios de “levantar vôo” para
um futuro cheio de potencialidades, ou mergulhar fundo num abismo obscuro
que pode ameaçar sua própria existência e a do povo judeu.
Não se trata de mera metáfora. E os judeus da Diáspora,
dentre os quais se contam muitos dos valores mais esclarecidos do povo, não
poderão se calar ante o difícil momento. A abertura do novo
aeroporto é figurativamente também a porta para uma contribuição
de bom-senso e de visão de mundo equilibrada e atual: pela influência
de identificação, e oxalá pela Aliá!
Há que evitar que o aparente paradoxo dos 2 pólos da situação
descrita seja resolvido por uma irracional supremacia das forças do
radicalismo sectário: a ilusão de potência cria as deformações éticas
que só podem arrastar a uma perda da verdadeira razão de ser
do renascimento nacional judaico – o florescimento de um judaísmo
consciente, vivo, moderno e atualizado, dentro de um mundo de justiça
onde, mais do que a santidade de territórios, se santifiquem vidas
humanas, no contexto de culturas criativas e independentes.
Este é um imperativo que o ainda frágil edifício sionista
exige de nós. E então há de chegar o dia em que – como
no aeroporto – uma construção definitiva e sólida
se apresentará aberta para o mundo, indicativa da profunda vocação
pacífica deste povo.
* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.