Visão Judaica - Edição N° 29
:. Reflexões aéreas e terrestres .:

Vittorio Corinaldi*

Com atraso de 4 anos em relação ao prazo original, será inaugurado em 2 de novembro próximo o novo terminal do Aeroporto Ben Gurion, o principal aeroporto internacional de Israel.
Por sua localização ele pode ser definido como Aeroporto de Tel Aviv, já que se encontra a distância de 15 minutos de viagem do centro da cidade. Mas tratando-se de projeto de grande envergadura, a obra não se limitou à construção do novo terminal, e teve que incluir trabalhos de infra-estrutura que facilitam o acesso também de todo o resto do país, que como é sabido mas tendenciosamente deturpado por grande parte da midia, é minúsculo de dimensões para os conceitos do observador brasileiro ou americano: a ligação rodoviária foi sensivelmente melhorada com a construção de estradas e equipamentos de bom nível; foi terminado o ramal ferroviário que permitirá cômoda conjunção com as linhas ferroviárias já atuantes, dentro da rede nacional que está agora em fase de rápido desenvolvimento; e o novo terminal inclui também como parte orgânica do conjunto uma estação para trens.
O turista que chegar a Israel (e muitos são aqueles que repetidas vezes se serviram do atual terminal de há muito insuficiente) será recebido finalmente num aeródromo amplo, luminoso e dotado das modernas facilidades indispensáveis para um tráfego internacional de grande porte. O velho edifício (de “gloriosa história” desde seu passado como aeroporto militar britânico dos tempos do mandato, passando por inúmeras transformações e acréscimos) ficará destinado exclusivamente aos vôos nacionais internos, e a um auspicioso aumento do volume de passageiros, se e quando o momento político encorajar um considerável reincremento do turismo.
Este quadro otimista e aparentemente paradoxal é bastante típico da realidade israelense de hoje: em paralelo com a permanente tensão de segurança e com os altos-e-baixos de uma política cheia de contradições, erros e fracassos de nosso governo; e apesar do persistente recesso econômico, do desemprego que não diminui, das desigualdades sociais que uma visão neocapitalista de cunho thatcheriano só tende a exacerbar e agravar; da cisão profunda na sociedade israelense provocada pela intransigência fanática de uma minoria incitada por falsos rabinos e corruptos pseudo-líderes pregadores da violência e da desobediência civil ou de uma disforme filosofia de mercado — a despeito de todos estes fatores, o país apresenta uma contagiante vitalidade e uma frenética tendência de desenvolvimento nas infra-estruturas, uma inconfundível melhoria em muitos dos serviços públicos, um visível desejo de recobrar atrasos de dezenas de anos impostos por condições de perigo e penúria, uma imagem de estabilidade, bem-estar e progresso material sugestivos de uma sociedade segura de si, confiante de sua inviolabilidade frente aos desafios da história.
Esta porém está longe de ser um fato garantido. Faz-se necessária uma consciência mais realista de nossa verdadeira força no contexto global e no entorno de países muçulmanos com seus milhões de súditos; um retorno a conteúdos morais autênticos e não moldados por trágicos dilemas de comportamento frente a angustiantes realidades de um povo historicamente oprimido transformado malgrado em seu opressor; uma liderança menos pressionada por idéias de ufanismo nacional obsoleto, por interesses setoriais que poderão solapar os alicerces de uma sociedade sadia e solidária, por fanáticas ou arcaicas concepções de um judaísmo implantado sobre falso messianismo ou cega e dogmática aceitação das escrituras.
Israel encontra-se hoje nessa difícil encruzilhada: como o indica a imagem de seu novo aeroporto, possui os meios de “levantar vôo” para um futuro cheio de potencialidades, ou mergulhar fundo num abismo obscuro que pode ameaçar sua própria existência e a do povo judeu.
Não se trata de mera metáfora. E os judeus da Diáspora, dentre os quais se contam muitos dos valores mais esclarecidos do povo, não poderão se calar ante o difícil momento. A abertura do novo aeroporto é figurativamente também a porta para uma contribuição de bom-senso e de visão de mundo equilibrada e atual: pela influência de identificação, e oxalá pela Aliá!
Há que evitar que o aparente paradoxo dos 2 pólos da situação descrita seja resolvido por uma irracional supremacia das forças do radicalismo sectário: a ilusão de potência cria as deformações éticas que só podem arrastar a uma perda da verdadeira razão de ser do renascimento nacional judaico – o florescimento de um judaísmo consciente, vivo, moderno e atualizado, dentro de um mundo de justiça onde, mais do que a santidade de territórios, se santifiquem vidas humanas, no contexto de culturas criativas e independentes.
Este é um imperativo que o ainda frágil edifício sionista exige de nós. E então há de chegar o dia em que – como no aeroporto – uma construção definitiva e sólida se apresentará aberta para o mundo, indicativa da profunda vocação pacífica deste povo.

* Vittorio Corinaldi é arquiteto e mora em Tel Aviv, Israel.


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