Pilar Rahola *
Diferentemente de Eduardo Haro Tecglen, que crê que a consciência
mais limpa é a do ateu, eu estou convencida de que a consciência
tem pouco a ver com crer ou não crer. Em nome da negação
de D-us, o stalinismo matou até o horror, e em nome de D-us, a história
está repleta de crimes.
D-us, como boa enteléquia, está submetido ao uso bom ou perverso
que se possa fazer d'Ele, de forma que é melhor mantê-Lo no âmbito
privado que toda transcendência requer. Ainda assim, dado que a realidade
nos traz a dor mortífera em forma de crianças assassinadas
em altares de Alá, e nos reproduz os olhos sem órbitas dos
fanáticos da morte, e nos mostra (para quem quer ver) os campos
de treinamento onde a infância é destruída nas mãos
dos pais que ensinam a odiar e a morrer matando. Dado que tudo isto se
passa nos altares de D-us, fica difícil deixá-lo de fora.
D-us, hoje, é usado para fanatizar, socializar no ódio e
matar. Denominado Alá, em outros tempos teve outros nomes, outros
ritos e liturgias, e também educou na intolerância e na violência.
Todo crente sabe que o D-us individual pode construir almas nobres como
santa Teresa de Calcutá, mas que o D-us coletivo engendrou, ao longo
da história, terríveis monstros. Apesar disso, e a razão?
A razão, como profetizou Goya, também engendra monstros?
Estou convencida, e nestes momentos duros em que a morte nos golpeia as
entranhas, em sua forma mais abrupta, quero falar dos guerreiros loucos
de D-us, e dos intelectuais racionalistas que, nos altares da razão,
não estão à altura moral que a história requer.
Primeiro, os guerreiros. Apesar de que a ignorância tenha levado
a um padrão de conduta da análise internacional, resulta
espantoso ver como analistas de prestígio e intelectuais premiados,
não têm nem idéia do que falam. Ou, pior, nos altares
da solidariedade e da justiça, mentem, distorcem ou simplesmente
defendem formulações incompreensíveis. Uma das barbaridades
mais lacerantes foi dita, há poucos dias, no Fórum (das Culturas
de Barcelona), Juan Goytisolo: "Os palestinos e os chechenos não
são terroristas, mas resistentes", e o público convencido
de seu compromisso solidário engoliu a frase com a estupidez que
caracteriza determinados cérebros rasos da esquerda. O certo é que
a resistência a uma situação de opressão, mítica
historicamente, não tem nada a ver com uma ideologia internacionalizada,
de base nihilista e de determinação totalitária, como é o
integrismo islâmico. Os guerreiros enlouquecidos do Islã não
lutam pela liberdade de ninguém, mas contra a liberdade. Não
são os defensores dos pobres, mas seus opressores. Não querem
a seus filhos, mas os odeiam e os convertem em máquinas de matar.
E não estão a favor da resolução dos conflitos
abertos no mundo, mas os usam, se aproveitam e os destroem. De gorjeta,
Goytisolo considera que colocar uma bomba em um ônibus cheio de crianças
em Jerusalém, ou ter um milhar de crianças aterrorizadas,
esfomeadas e sedentas, rodeadas de bombas, em uma escola de Beslam, são
atos de resistência? Como pode alguém crer nisso? Mais ainda,
como é possível que os intelectuais opinem a partir da desinformação
se nem sequer conhecem os textos dos grupos terroristas palestinos ou chechenos,
onde a intenção bélica não tem nada a ver com
libertar seus povos, mas com criar uma república islâmica
intransigente em todos os lugares onde possam chegar? Todo o mundo que
conheça o conflito checheno já sabe que faz anos que estão
se organizando grupos de culto wahabita (1) nas repúblicas caucasianas
e que usam as questões nacionais pendentes para alimentar o fanatismo
integrista. O mesmo Bassaiev e seu lugar-tenente, o denominado "árabe
negro", são cabeças visíveis deste totalitarismo
do século XXI. Um totalitarismo que, como o nazismo, não
tem deixado nada sagrado exceto o sangue: a infância, a Cruz Vermelha,
as ambulâncias, as ONGs que dão ajuda humanitária,
tudo vale para uma ideologia que faz do culto à morte seu código
de conduta.
Eles são os assassinos. Mas e o resto, os que não matamos?
Tomando emprestada a frase de Luther King "o pior não é a
maldade dos maus, mas o silêncio dos bons". E lanço minha
acusação. Acuso o mundo islâmico de calar, de outorgar,
de minimizar o caráter assassino do integrismo, de disfarçar
terroristas como resistentes, de não levantar a voz para criar um
grande movimento autocrítico, de não cumprir com o dever
moral que tem com sua própria cultura.
Acuso seus meios de comunicação, com Al-Jazira à frente,
de fomentar o antiocidentalismo, o anti-semitismo e de praticar um paternalismo
com o terrorismo que só pode conduzir o Islã a sua destruição.
Acuso aos Tariq Ramadan e às Nawal al Sadawi de camuflarem-se sob
o duplo discurso em função da língua que falam, e
de não assumirem a obrigação histórica que
têm de rechaçar a ideologia totalitária que nasceu
em seu seio. Como os intelectuais europeus que não estiveram à altura
quando o nazismo matava a torto e a direito, ou quando o stalinismo matou
até a fadiga, os intelectuais islâmicos atuais — fora
poucas exceções — praticam o antiamericanismo furibundo,
justificam o terrorismo e não assumem a lista de defensores da liberdade
que lhes seria apropriado. E, no Ocidente, acuso a legião de intelectuais
de esquerda que, como os macacos, nem escutam, nem vêm, mas falam
como se ainda tivessem o cartaz do Che pendurado em seus narizes, e pensando
que todos estes loucos que vão seqüestrando, matando e violentando
nos altares de Alá são o ressurgimento dos movimentos guerrilheiros
de sua adolescência. Alimentados pelo ódio ao grande “Satã” americano,
estes intelectuais conseguiram um extraordinário pretexto para a
justificação da ideologia totalitária. Da mesma maneira
como fizeram com o stalinismo. Por essa razão crêem que o
Hamas é um grupo de resistência, e não o bando de fanáticos
assassinos que têm demonstrado ser. Desta maneira, quando a maldade
seqüestra e mata a infância, nos altares da Chechênia,
preferem falar da culpa russa. Suponho que estariam encantados se finalmente
Bassaiev criasse a grande república islâmica do Cáucaso,
a paladina da liberdade.
A inteligência islâmica é, hoje, cúmplice pela
minimização, paternalismo e justificação do
integrismo islâmico. E a inteligência ocidental é cúmplice
pela pura imbecilidade. Em ambos os casos, os que mais falam de liberdade
e solidariedade, mas a estão traindo. E, no caminho, traem o dever
moral que, como intelectuais, deveriam ter. "O pior é o silêncio
dos bons..."
1. wahabita — Movimento surgido na Arábia, que afirmava que
o islamismo baseia-se unicamente no Alcorão, deixando de lado a
tradição, os usos e os costumes, tudo enfim que foi feito
durante os séculos. Só vale o Alcorão interpretado
ao pé da letra.
* Pilar Rahola é ex-deputada no Parlamento espanhol pela "Izquierda
Republicana Catalana" e foi vice-prefeita da cidade de Barcelona.
Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão).
Dirige o programa de entrevistas na TV espanhola. Além disso, participa
de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática
da mulher e da infância. Tem vários livros publicados em catalão
e castelhano. Publicado originalmente no Diario Avui, Barcelona, em 9/9/04.
Traduzido do catalão por Es-Israel.org e do espanhol pelo jornalista
Szyja Lorber.