Visão Judaica - Edição N° 29
:. O Islã contra Alá .:

Pilar Rahola *

Diferentemente de Eduardo Haro Tecglen, que crê que a consciência mais limpa é a do ateu, eu estou convencida de que a consciência tem pouco a ver com crer ou não crer. Em nome da negação de D-us, o stalinismo matou até o horror, e em nome de D-us, a história está repleta de crimes.
D-us, como boa enteléquia, está submetido ao uso bom ou perverso que se possa fazer d'Ele, de forma que é melhor mantê-Lo no âmbito privado que toda transcendência requer. Ainda assim, dado que a realidade nos traz a dor mortífera em forma de crianças assassinadas em altares de Alá, e nos reproduz os olhos sem órbitas dos fanáticos da morte, e nos mostra (para quem quer ver) os campos de treinamento onde a infância é destruída nas mãos dos pais que ensinam a odiar e a morrer matando. Dado que tudo isto se passa nos altares de D-us, fica difícil deixá-lo de fora.
D-us, hoje, é usado para fanatizar, socializar no ódio e matar. Denominado Alá, em outros tempos teve outros nomes, outros ritos e liturgias, e também educou na intolerância e na violência. Todo crente sabe que o D-us individual pode construir almas nobres como santa Teresa de Calcutá, mas que o D-us coletivo engendrou, ao longo da história, terríveis monstros. Apesar disso, e a razão? A razão, como profetizou Goya, também engendra monstros? Estou convencida, e nestes momentos duros em que a morte nos golpeia as entranhas, em sua forma mais abrupta, quero falar dos guerreiros loucos de D-us, e dos intelectuais racionalistas que, nos altares da razão, não estão à altura moral que a história requer.
Primeiro, os guerreiros. Apesar de que a ignorância tenha levado a um padrão de conduta da análise internacional, resulta espantoso ver como analistas de prestígio e intelectuais premiados, não têm nem idéia do que falam. Ou, pior, nos altares da solidariedade e da justiça, mentem, distorcem ou simplesmente defendem formulações incompreensíveis. Uma das barbaridades mais lacerantes foi dita, há poucos dias, no Fórum (das Culturas de Barcelona), Juan Goytisolo: "Os palestinos e os chechenos não são terroristas, mas resistentes", e o público convencido de seu compromisso solidário engoliu a frase com a estupidez que caracteriza determinados cérebros rasos da esquerda. O certo é que a resistência a uma situação de opressão, mítica historicamente, não tem nada a ver com uma ideologia internacionalizada, de base nihilista e de determinação totalitária, como é o integrismo islâmico. Os guerreiros enlouquecidos do Islã não lutam pela liberdade de ninguém, mas contra a liberdade. Não são os defensores dos pobres, mas seus opressores. Não querem a seus filhos, mas os odeiam e os convertem em máquinas de matar. E não estão a favor da resolução dos conflitos abertos no mundo, mas os usam, se aproveitam e os destroem. De gorjeta, Goytisolo considera que colocar uma bomba em um ônibus cheio de crianças em Jerusalém, ou ter um milhar de crianças aterrorizadas, esfomeadas e sedentas, rodeadas de bombas, em uma escola de Beslam, são atos de resistência? Como pode alguém crer nisso? Mais ainda, como é possível que os intelectuais opinem a partir da desinformação se nem sequer conhecem os textos dos grupos terroristas palestinos ou chechenos, onde a intenção bélica não tem nada a ver com libertar seus povos, mas com criar uma república islâmica intransigente em todos os lugares onde possam chegar? Todo o mundo que conheça o conflito checheno já sabe que faz anos que estão se organizando grupos de culto wahabita (1) nas repúblicas caucasianas e que usam as questões nacionais pendentes para alimentar o fanatismo integrista. O mesmo Bassaiev e seu lugar-tenente, o denominado "árabe negro", são cabeças visíveis deste totalitarismo do século XXI. Um totalitarismo que, como o nazismo, não tem deixado nada sagrado exceto o sangue: a infância, a Cruz Vermelha, as ambulâncias, as ONGs que dão ajuda humanitária, tudo vale para uma ideologia que faz do culto à morte seu código de conduta.
Eles são os assassinos. Mas e o resto, os que não matamos? Tomando emprestada a frase de Luther King "o pior não é a maldade dos maus, mas o silêncio dos bons". E lanço minha acusação. Acuso o mundo islâmico de calar, de outorgar, de minimizar o caráter assassino do integrismo, de disfarçar terroristas como resistentes, de não levantar a voz para criar um grande movimento autocrítico, de não cumprir com o dever moral que tem com sua própria cultura.
Acuso seus meios de comunicação, com Al-Jazira à frente, de fomentar o antiocidentalismo, o anti-semitismo e de praticar um paternalismo com o terrorismo que só pode conduzir o Islã a sua destruição. Acuso aos Tariq Ramadan e às Nawal al Sadawi de camuflarem-se sob o duplo discurso em função da língua que falam, e de não assumirem a obrigação histórica que têm de rechaçar a ideologia totalitária que nasceu em seu seio. Como os intelectuais europeus que não estiveram à altura quando o nazismo matava a torto e a direito, ou quando o stalinismo matou até a fadiga, os intelectuais islâmicos atuais — fora poucas exceções — praticam o antiamericanismo furibundo, justificam o terrorismo e não assumem a lista de defensores da liberdade que lhes seria apropriado. E, no Ocidente, acuso a legião de intelectuais de esquerda que, como os macacos, nem escutam, nem vêm, mas falam como se ainda tivessem o cartaz do Che pendurado em seus narizes, e pensando que todos estes loucos que vão seqüestrando, matando e violentando nos altares de Alá são o ressurgimento dos movimentos guerrilheiros de sua adolescência. Alimentados pelo ódio ao grande “Satã” americano, estes intelectuais conseguiram um extraordinário pretexto para a justificação da ideologia totalitária. Da mesma maneira como fizeram com o stalinismo. Por essa razão crêem que o Hamas é um grupo de resistência, e não o bando de fanáticos assassinos que têm demonstrado ser. Desta maneira, quando a maldade seqüestra e mata a infância, nos altares da Chechênia, preferem falar da culpa russa. Suponho que estariam encantados se finalmente Bassaiev criasse a grande república islâmica do Cáucaso, a paladina da liberdade.
A inteligência islâmica é, hoje, cúmplice pela minimização, paternalismo e justificação do integrismo islâmico. E a inteligência ocidental é cúmplice pela pura imbecilidade. Em ambos os casos, os que mais falam de liberdade e solidariedade, mas a estão traindo. E, no caminho, traem o dever moral que, como intelectuais, deveriam ter. "O pior é o silêncio dos bons..."

1. wahabita — Movimento surgido na Arábia, que afirmava que o islamismo baseia-se unicamente no Alcorão, deixando de lado a tradição, os usos e os costumes, tudo enfim que foi feito durante os séculos. Só vale o Alcorão interpretado ao pé da letra.

* Pilar Rahola é ex-deputada no Parlamento espanhol pela "Izquierda Republicana Catalana" e foi vice-prefeita da cidade de Barcelona. Escreve nos jornais El País, El Periódico e Avui (em catalão). Dirige o programa de entrevistas na TV espanhola. Além disso, participa de debates públicos e congressos internacionais sobre a temática da mulher e da infância. Tem vários livros publicados em catalão e castelhano. Publicado originalmente no Diario Avui, Barcelona, em 9/9/04. Traduzido do catalão por Es-Israel.org e do espanhol pelo jornalista Szyja Lorber.

 

 


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