Tila Dubrawsky*
A mikve, casa do banho ritual em Primishlan se encontrava no
sopé de uma colina íngreme. Mesmo sob as melhores
condições era uma escalada precária, mas
durante os meses do inverno quando coberta com gelo, a ladeira
era totalmente intransitável. Até as pessoas
mais corajosas e ágeis eram obrigadas a desistir após
os primeiros passos e pegar um caminho mais longo com rodeios.
Todas as pessoas, menos um. Rabi Meir, o idoso rebe de Primishlan,
caminhava na colina gelada para mergulhar na mikve, diariamente,
antes de fazer a sua prece matinal. Inabalável, fazia
o seu caminho ida e volta. Outros que tentavam fazer igual
caíam e se quebravam. Perguntaram para o Rebe como conseguia
e ele respondeu: “Quando alguém está amarrado
em cima ele não cai para baixo. Meir’l (o jeito
que ele costumava falar de si) está amarrado em cima,
então ele não cai para baixo”.
D-us, o Criador, anexou à coroa de Sua criação,
o complexo e intricado ser humano, um manual de instruções,
Sua Torá. Torá vem da palavra hebraica Horaá – instrução
e é chamada de Torat Chayim, pois é o nosso guia
de instruções para a vida. As mitsvot da Torá não
são apenas mandamentos ou boas ações.
Mitsvá vêm da raiz etimológica tsavta que
quer dizer elo, ligação. Cada mitsvá nos
proporciona oportunidades de nós nos ligarmos e atarmos
lá em cima, com a Fonte da vida e poder que é D-us.
O Criador nos concedeu livre arbítrio. “Vê,
que, hoje pus diante de ti a vida e o bem, e a morte e o mal.” (Devarim:30:15)
Mas Ele não ficou alheio, apático; Ele pediu “Uvachartá bachayim”- “Escolherás
pois, a vida”. (Idem versículo 19) É análogo
a um homem que possui muitas terras e oferece ao seu filho
escolher para si uma porção. Depois o pai amoroso
leva o seu filho até um terreno bonito e o aconselha
ficar com aquele. (Rashi)
Assim como faz o nosso Pai Celestial, podem e devem fazer todos
os pais (mães e pais). Não podemos ficar alheios;
devemos dar palpite, exprimir a nossa opinião, transmitir
os nossos valores e mostrar o exemplo certo.
O sexto Rebe de Chabad, o Rabi Yossef Yitschok Schneerson,
em um pronunciamento a um grupo de mulheres no ano 1934 na
cidade de Riga, fez as comparações que seguem
abaixo. É muito relevante ao nosso assunto e mostra
como todas as narrativas da Torá constituem orientações
para nosso dia-dia.
Foram as mulheres que em primeiro lugar vieram trazer as suas
contribuições na hora da construção
do Tabernáculo. (Shemot: 3:22) Trouxeram brincos, aros,
anéis e pulseiras, enfim as suas jóias mais preciosas.
(Ibn Ezra). Ao edificar o nosso lar tornando-o um santuário
para a presença divina também temos que fazer
oferendas semelhantes.
O brinco simboliza, espiritualmente, a necessidade de ouvir
bem o que a Torá e os nossos Rabinos nos ensinam a respeito
de como devemos educar os nossos filhos e conduzir um lar judaico.
Também, devemos prestar bem atenção às
conversas dos nossos filhos, o que falam entre eles e com seus
amigos. Geralmente as crianças “cospem o que os
adultos mastigam”, então os pais terão
de tomar muito cuidado para que os seus filhos tenham exemplos
educados e refinados.
O aro representa o sentido de olfato, poder “cheirar” a
situação; ficar atento às amizades dos
nossos filhos: quem são os amigos que vem visitá-los,
a casa de quem eles freqüentam e com quem eles andam.
Os primeiros dois cuidados ainda não são o suficiente
para garantirmos um ambiente de santidade em nosso lar. Precisamos
da terceira jóia, do anel que significa indicar o caminho
e esclarecer aos nossos filhos os benefícios de seguir
certos comportamentos e atitudes e o prejuízo de D-us
nos livre não o seguir. Finalmente a pulseira demonstra
disciplina saudável, coerência e firmeza, componentes
imprescindíveis para o crescimento e prosperidade dos
nossos filhos.
Uma vez uma senhora pediu uma bênção do
Lubavitcher Rebe para merecer ter um filho tão especial
como o Rebe. O Rebe respondeu que para isto precisaria ter
uma mãe tão especial quanto a dele.
De fato, quando utilizamos e aproveitamos bem do manual que
nosso Criador nos proveu, quando educamos os nossos filhos
dentro dos valores da nossa Torá, quando contribuímos
com nossas “jóias” para o nosso pequeno
santuário - o nosso lar, podemos esperar que com a ajuda
de D-us, nós e nossos descendentes podemos escalar as
colinas traiçoeiras da vida e permanecermos ilesos e íntegros
física e espiritualmente.
(Dedico esta coluna para a elevação da alma da
minha avó, Ienta Braina bat Meshulam Zussia, falecida
em 8 de Kisslev, 5764).
* Tila Dubrawsky é esposa do Rabino Yossef Dubrawsky,
diretor do Beit Chabad de Curitiba, mãe, avó,
coordenadora de programas educacionais e culturais, orientadora
de pureza e harmonia familiar para noivas e mulheres de todas
as idades.