Evelyn Gordon *
Do xadrez ao futebol europeu, há um jogo sujo em ação
Muitos críticos de Israel gostam de dizer que seu problema não é Israel,
mas as políticas de Israel em relação aos palestinos.
E para alguns destes críticos isso é, sem dúvida, verdade.
Não obstante, este argumento seria mais persuasivo não fosse
o fato de que uma discriminação excessiva contra Israel ocorre,
mesmo sendo em áreas distantes do conflito. E nada ilustra melhor
isso que o mundo dos esportes internacionais.
O preconceito anti-Israel no mundo dos esportes rapidamente produziu manchetes
mundiais durante as Olimpíadas de Atenas, quando o Comitê Olímpico
Internacional recusou-se a censurar um atleta iraniano que, em desafio ás
regras olímpicas, negou-se a competir na modalidade de judô contra
um oponente israelense.
Ainda que o incidente fosse comparativamente algo secundário - porque
apesar do insulto, o iraniano na verdade não feriu a ninguém,
a não ser a si próprio. Ele foi o único que perdeu sua
chance de uma medalha; Israel continuou competindo, e um judoca israelense
ganhou depois uma medalha de bronze.
Porém, normalmente são os fanáticos que emergem como
vitoriosos — como foi o caso do Campeonato Mundial de Xadrez que acontecera
dois meses antes.
A Líbia era a anfitriã do torneio que correu entre 18 de junho
a 13 de julho e inicialmente, a Federação Mundial de Xadrez
(conhecido por sua sigla francesa Fide) muito corretamente insistiu para
que todos os jogadores fossem bem-vindos. Se a Líbia se sentisse incapaz
de satisfazer essa exigência, declarou a Fide, o torneio seria dividido,
com metade dos jogos na Líbia e outra metade em Malta.
Mas a Líbia concordou e assim foram derrubados os planos para Malta.
Então, em 6 de maio, Mohammed Kaddafi, o cabeça do comitê organizador
do torneio e filho do líder líbio, anunciou durante uma entrevista à imprensa
que, apesar da promessa, “não convidamos e nem convidaremos
o inimigo sionista para este campeonato, mesmo se isso conduzir ao cancelamento
do referido torneio na Líbia".
Israel (que, causalmente, é um sério competidor em xadrez,
e atualmente está classificado em oitavo lugar entre 132 países
no quadro de posições da Fide) prontamente exigiu que a Fide
reavivasse o plano de Malta. Foi apoiado pela Associação Internacional
de Profissionais de Xadrez (ACP) que enviou à Fide uma carta com expressões
fortes sobre o assunto, no dia 26 de maio.
Não havia qualquer barreira logística para a mudança:
Um torneio de xadrez, diferentemente, diz um jogador de futebol, não
requer uma elaborada estrutura de um estádio; algumas salas simples
bastarão.
Não obstante, a Fide recusou. Apesar da declaração muito
pública de Kaddafi, que foi divulgada amplamente pela mídia
internacional, insistiu a Federação de Xadrez de que não
fora avisada de nenhum problema.
E depois, com respeito à carta da ACP, o presidente da Fide, Kirsan
Ilymzhinov, teve o desplante de escrever que a Líbia tinha se comportado
impecavelmente; tudo era culpa desses israelenses teimosos que não
iriam para a Líbia sem vistos — eles foram os únicos
jogadores a quem a Líbia recusou concedê-los com antecedência — e
de acordo com a afirmação da Fide, a eles seriam dadas boas-vindas
de qualquer maneira.
"
Estou um tanto surpreso que não veja a importância do Campeonato
Mundial de Xadrez ser na Líbia, justamente agora quando o país
está se abrindo á comunidade internacional", concluiu
Ilymzhinov, com orgulho.
O resultado imediato: A Líbia conseguiu barrar os jogadores israelenses
no torneio, com a bênção do alto organismo internacional
daquele esporte.
Mas constata-se que os organismos esportivos internacionais ficam satisfeitos
em dificultar a vida de Israel até mesmo quando árabes ou muçulmanos
não estejam envolvidos — como ficou provado pela Uefa (Associação
de Futebol da União Européia), o organismo que dirige o futebol
europeu, semanas atrás.
O problema parecia ser um simples equívoco no princípio: a
Uefa tinha programado uma partida do Macabi Tel Aviv no dia 15 de setembro,
a primeira noite de Rosh Hashaná. Assim, o Macabi solicitou que o
jogo fosse adiantado em um dia, para evitar que se jogasse no feriado.
O adversário do Macabi, o Bayern de Munique, concordou gentilmente,
e a estação de televisão alemã com direitos de
radiodifusão do jogo também se adaptou de forma semelhante.
Nem mesmo havia um problema de jurisdição: A partida era para
ser jogada no estádio da sede do Macabi, em Ramat Gan, que estava
disponível no dia 14 de setembro.
Não obstante, a Uefa recusou.
"
Nós não podemos levar em consideração cada feriado
nacional, religioso ou político como um argumento para remarcar os
jogos", declarou o porta-voz da Uefa, William Gaillard. "Assim,
agora a população de Israel tem que decidir entre a sinagoga
e o futebol”.
Aquela declaração era, claro, tão ridícula quanto
ofensiva: Rosh Hashaná não é só um feriado qualquer; é o
segundo dia mais santo do calendário judaico. Duvido, seriamente,
que a Uefa programasse um jogo no Natal ou na Páscoa.
Com justeza, o Macabi minimizou seu próprio argumento neste caso:
Seu presidente, Loni Herzikovic, que não é nenhum Sandy Koufax,
e até antes mesmo que a Uefa anunciasse sua decisão, declarou
para a imprensa israelense que o Macabi jogaria caso o jogo não fosse
mudado.
E se o Macabi não estiver disposto a perder um jogo nessa rodada,
alguém pode achar que a Uefa pensa que Rosh Hashaná não é nada
importante.
Ainda que infame, entretanto, a decisão de Herzikovic era, para não
diminuir-se de nenhuma maneira ante a vergonhosa decisão da Uefa:
Confrontada com uma situação na qual todas as partes interessadas
estavam perfeitamente dispostas a adaptar-se a um grande feriado judaico,
a Uefa apesar disso, insistiu, contrariando completamente as partes, em que
Israel fizesse sua escolha "entre sinagoga e futebol".
Qualquer um dos incidentes anteriores poderia ter sido considerado um acaso
fortuito. Mas três no espaço de vários meses, cada um
envolvendo uma organização diferente, indica uma tendência
definida.
Claramente, esta tendência envergonha o mundo esportivo. Mas também
levanta indagações sérias sobre a real motivação
por trás do preconceito contra Israel — a menos que, claro,
você acredite que jogos de xadrez e serviços de Rosh Hashaná são
somente sutis conspirações israelenses contra os palestinos.
* Evelyn Gordon é jornalista, escritora e comentarista. Este artigo
dela foi publicado no Jerusalém Post, de Israel, dia 7/9/2004.