Por: David Brooks
Fomos forçados a testemunhar o massacre de inocentes.
Em Nova York, Madri, Moscou, Tel Aviv, Bagdá e Bali
vimos milhares de pessoas destruídas enquanto realizavam
atividades comuns de suas vidas.
Fomos forçados a agüentar o massacre de crianças.
Adolescentes do lado de fora de uma discoteca israelense ou
estudantes em Beslan, na Rússia, vimos jovens sendo
escolhidos como alvos preferenciais.
Deveríamos agora já estar acostumados ao culto
da morte que prospera na periferia do mundo muçulmano. É o
culto de pessoas que se orgulham de dizer: “Vocês
amam a vida, mas nós amamos a morte”. É o
culto que enviou ondas de crianças indefesas para serem
trituradas nos campos de batalha da Guerra Irã-Iraque,
que treina crianças do jardim de infância para
tornarem-se bombas, que torna a morte um fetiche, que envia
pessoas alegremente a assassinatos em massa.
Este culto liga a si mesmo a uma causa política, mas,
como um parasita a estrangula. O culto da morte estrangulou
o sonho de um Estado palestino. Os homens-bomba não
conseguiram paz para a Palestina; mas represálias. Os
carros-bomba não estão empurrando os EUA para
fora do Iraque; estão forçando-os a ficar lá.
O culto da morte está agora estrangulando a causa chechena,
e não trará independência, mas sangue.
Mas é esta a idéia. Porque o culto da morte não
se importa com a causa que professa servir. Trata-se de prazer
absoluto de matar e morrer.
Trata-se de massacrar pessoas enquanto eles estão num
estado de elevação espiritual. Trata-se de experimentar
a liberdade total da barbárie — liberdade até mesmo
em relação à natureza humana, que diz
ame as crianças e ame a vida. Trata-se da alegria do
sadismo e do suicídio.
Deveríamos estar acostumados com este patológico
movimento de massas. Deveríamos ser capazes de falar
sobre tais coisas. Mas quando se olha para a reação
do Ocidente ao massacre de Beslan, vêem-se pessoas desviando
a atenção do total horror deste ato, como que
dizendo: não queremos olhar para este abismo. Não
queremos reconhecer esta parte da natureza humana. Algo aqui,
se for motivo de um profundo raciocínio, mina as categorias
com as quais estávamos acostumados a viver, mina nossa
fé na bondade essencial dos humanos.
Três anos depois do 11 de Setembro pessoas demais se
tornaram especialistas em desviar os olhos. Se forem vistos
os editoriais e declarações públicas feitos
em resposta a Beslan, será notado que eles evitam os
responsáveis pelo ato e buscam alvos bem mais convencionais
para serem odiados.
Não foi uma tragédia. Foi uma operação
de assassinato coletivo, cuidadosamente planejada. E não
foram autoridades russas que encheram de explosivos cestas
de basquete e atiraram em crianças pelas costas.
Quaisquer que sejam os horrores que os russos cometeram contra
os chechenos, qualquer que tenha sido sua incompetência
na resposta ao ataque, a natureza essencial deste ato estava
no ato em si mesmo. Foi o fato de uma equipe de seres humanos
poder entrar numa escola, viver com centenas de crianças
por alguns dias, olhar em seus olhos e ouvir seu choro e depois
explodi-las.
Serão escritas dissertações sobre os eufemismos
que a mídia usou para descrever os assassinos. Foram
chamados de “separatistas” e “seqüestradores”.
Três anos após o 11 de Setembro muitos ainda são
incapazes de falar sobre esta maldade. Ainda tentam racionalizar
o terror. O que leva terroristas a fazer isso? O que pretendem?
Eles ainda são vítimas da ilusão que Paul
Berman diagnosticou após o 11 de Setembro: “Era
a crença que, no mundo moderno, mesmo os inimigos da
razão não podem ser os inimigos da razão.
Até o irracional deve ser, de algum modo, racional”.
Este culto da morte não tem razão e está além
da negociação. É isto que o torna tão
assustador. É o que faz com que tantos iniciem um desvio
de atenção proposital. Não querem confrontar
este horror. Então correm em busca de coisas mais compreensíveis
para odiar.
* David Brooks é colunista do jornal “The New
York Times”, onde foi publicado este artigo em 7/9/2004.
Traduzido pelo Paz Agora/BR.