Visão Judaica - Edição N° 29
:. Culto da morte .:

Por: David Brooks

Fomos forçados a testemunhar o massacre de inocentes. Em Nova York, Madri, Moscou, Tel Aviv, Bagdá e Bali vimos milhares de pessoas destruídas enquanto realizavam atividades comuns de suas vidas.
Fomos forçados a agüentar o massacre de crianças. Adolescentes do lado de fora de uma discoteca israelense ou estudantes em Beslan, na Rússia, vimos jovens sendo escolhidos como alvos preferenciais.
Deveríamos agora já estar acostumados ao culto da morte que prospera na periferia do mundo muçulmano. É o culto de pessoas que se orgulham de dizer: “Vocês amam a vida, mas nós amamos a morte”. É o culto que enviou ondas de crianças indefesas para serem trituradas nos campos de batalha da Guerra Irã-Iraque, que treina crianças do jardim de infância para tornarem-se bombas, que torna a morte um fetiche, que envia pessoas alegremente a assassinatos em massa.
Este culto liga a si mesmo a uma causa política, mas, como um parasita a estrangula. O culto da morte estrangulou o sonho de um Estado palestino. Os homens-bomba não conseguiram paz para a Palestina; mas represálias. Os carros-bomba não estão empurrando os EUA para fora do Iraque; estão forçando-os a ficar lá. O culto da morte está agora estrangulando a causa chechena, e não trará independência, mas sangue.
Mas é esta a idéia. Porque o culto da morte não se importa com a causa que professa servir. Trata-se de prazer absoluto de matar e morrer.
Trata-se de massacrar pessoas enquanto eles estão num estado de elevação espiritual. Trata-se de experimentar a liberdade total da barbárie — liberdade até mesmo em relação à natureza humana, que diz ame as crianças e ame a vida. Trata-se da alegria do sadismo e do suicídio.
Deveríamos estar acostumados com este patológico movimento de massas. Deveríamos ser capazes de falar sobre tais coisas. Mas quando se olha para a reação do Ocidente ao massacre de Beslan, vêem-se pessoas desviando a atenção do total horror deste ato, como que dizendo: não queremos olhar para este abismo. Não queremos reconhecer esta parte da natureza humana. Algo aqui, se for motivo de um profundo raciocínio, mina as categorias com as quais estávamos acostumados a viver, mina nossa fé na bondade essencial dos humanos.
Três anos depois do 11 de Setembro pessoas demais se tornaram especialistas em desviar os olhos. Se forem vistos os editoriais e declarações públicas feitos em resposta a Beslan, será notado que eles evitam os responsáveis pelo ato e buscam alvos bem mais convencionais para serem odiados.
Não foi uma tragédia. Foi uma operação de assassinato coletivo, cuidadosamente planejada. E não foram autoridades russas que encheram de explosivos cestas de basquete e atiraram em crianças pelas costas.
Quaisquer que sejam os horrores que os russos cometeram contra os chechenos, qualquer que tenha sido sua incompetência na resposta ao ataque, a natureza essencial deste ato estava no ato em si mesmo. Foi o fato de uma equipe de seres humanos poder entrar numa escola, viver com centenas de crianças por alguns dias, olhar em seus olhos e ouvir seu choro e depois explodi-las.
Serão escritas dissertações sobre os eufemismos que a mídia usou para descrever os assassinos. Foram chamados de “separatistas” e “seqüestradores”. Três anos após o 11 de Setembro muitos ainda são incapazes de falar sobre esta maldade. Ainda tentam racionalizar o terror. O que leva terroristas a fazer isso? O que pretendem?
Eles ainda são vítimas da ilusão que Paul Berman diagnosticou após o 11 de Setembro: “Era a crença que, no mundo moderno, mesmo os inimigos da razão não podem ser os inimigos da razão. Até o irracional deve ser, de algum modo, racional”.
Este culto da morte não tem razão e está além da negociação. É isto que o torna tão assustador. É o que faz com que tantos iniciem um desvio de atenção proposital. Não querem confrontar este horror. Então correm em busca de coisas mais compreensíveis para odiar.
* David Brooks é colunista do jornal “The New York Times”, onde foi publicado este artigo em 7/9/2004. Traduzido pelo Paz Agora/BR.

 

 


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