(Entre a genialidade e a intolerância)
Sergio Feldman *
No século XVIII encontramos duas personagens ímpares
da História Judaica: o rabi Israel ben Eliezer, denominado
Baal Shem Tov (ou pela sigla Bescht) e o sábio judeu alemão
Moisés Mendelssohn. Duas mentes iluminadas e refinadas,
tão diferentes “como a água e o vinho”.
Ousamos afirmar que ambos têm um profundo e enraizado Judaísmo
e que possuem mais coisas em comum do que se costuma afirmar.
Uma delas é o fato de terem sido mal compreendidos por
muitos de seus contemporâneos e por vezes acusados de heréticos
e até de revolucionários. Analisemos os contextos
históricos de sua época e as suas trajetórias
de vida.
Os judeus da Europa Oriental haviam sofrido uma enorme perda
humana, no século anterior (séc. XVII) e perdido
comunidades inteiras, após a onda de extermínios
que ocorrera no reino da Polônia, após a revolta
dos cossacos liderados por Bogdan Chmielnicki, entre 1648 e 1658.
As cifras não são precisas, mas fala-se de algumas
centenas de milhares de judeus. Talvez possa ter sido quase meio
milhão. Nunca ocorrera um massacre de população
judaica em tais proporções. Dezenas de milhares
de órfãos, viúvas e viúvos, famílias
desfeitas que se tornaram um bando de famintos e desesperados à espera
da “salvação vinda dos céus”.
Os que sobreviveram se tornaram miseráveis, famintos e
desesperados. Buscavam consolo na fé de seus ancestrais:
na religião judaica. Por algumas décadas viveram
na esperança da chegada do Tempo Messiânico e da
Redenção Divina. Com tal expectativa, não
surpreende que surgissem alguns falsos Messias que alegaram que
eram os Salvadores de seu povo. Um destes foi Shabetai Tzvi que
foi considerado por seus seguidores como o Redentor. O rabino
Nathan de Gaza declarou que Tzvi seria o Messias. Isto ocorreu
no vizinho Império Otomano, por voltas de 1650-1670. O
outro pseudo-Messias foi Jacob Frank, que já em meados
do séc. XVIII se autodenominava o Salvador. Ambos iludiram
um povo já tão maltratado com promessas impossíveis
de cumprir e aumentaram sua distância de algum tipo de
consolo ou apoio religioso.
Então surge a figura mística e sensível
do rabi Israel ben Eliezer, mais tarde denominado Baal Shem Tov.
Sem grande estudo, mas dotado de uma compreensão da realidade
que extrapolava a sua geração encontrou a massa
dos judeus poloneses, famintos e sem perspectivas. Os grandes
rabinos da época insistiam nos estudos talmúdicos
como a via para se aproximar de D-us: passar a maior parte do
dia estudando e aprofundando os saberes e as práticas
judaicas era algo difícil para a massa empobrecida e faminta
que era a maioria da comunidade judaica na Polônia e na
Ucrânia. Na Lituânia havia melhores condições
e alguns judeus conseguiam manter a freqüência às
ieshivot (academias talmúdicas) e o alto nível
dos estudos. Isso marginalizava a massa judaica: tornava-os párias
e ignorantes, e além de pobres, esta condição,
os excluía da participação nas sinagogas
e nas escolas sinagogais (Beit Midrash). O que fazer? Baal Shem
Tov iniciou um processo de aproximação dos judeus
de sua época, às suas raízes, contornando
as dificuldades, a pobreza e a ignorância.
Como ele fez isso? Um breve artigo não faz jus à genialidade
do Bescht, mas vamos resumir e simplificar a sua “revolução
religiosa”. Se os judeus não sabiam ler e nem rezar com o sidur
(livro de orações), deveriam aprender a rezar e entoar pequenas
músicas e rezas decoradas, utilizando-se da música, de movimentos
corporais para se aproximar de D-us. Criava novas formas de “dialogar
com o sagrado”, sem perder a essência da religião judaica,
mas mudando a forma. O Tzadik (trad.: Justo) seria o líder do grupo
de discípulos, os chassidim. Baal Shem Tov era um sábio com um
sólido espírito pragmático, carismático e afetivo.
Sempre encontrava soluções sensíveis e inteligentes para
os problemas cotidianos. Todas as suas explicações ou conselhos
tinham como fonte a Torá e o Talmud (lei judaica), mas eram transformadas
em estórias e lendas, de maneira pedagógica e simplificada. Um
conselho simples, realista e prático – mas repleto de idishkait
(maneira judaica de ver e entender o mundo). Baal Shem Tov fez uma revolução
religiosa: mudou as formas, mas manteve o conteúdo: os judeus pobres
e ignorantes puderam participar da reza mesmo sem saber ler; os judeus ouviam
de seu mestre e líder espiritual, o Tzadik, através de lendas
e parábolas, muitas explicações e conteúdos do
Talmud. Passou a ser possível ser judeu, se confortar na sua fé ancestral,
mesmo sem ter dinheiro ou estudo.
O que fizeram os outros rabinos? Um grande número deles pressionou ou
até mandou perseguir os seguidores (chassidim) de Baal Shem Tov. O Chassidismo
conseguiu superar as perseguições, as críticas agudas
e as pressões sociais nas comunidades. Um de seus detratores era o grande
sábio Elias, o Gaon de Vilna. Líder do grupo denominado “Mitnagdim” (opositores),
que se opunham de maneira firme ao Chassidismo. Ferrenho defensor dos estudos
talmúdicos, erudito e considerado um gênio, não conseguia
conceber um Judaísmo tão simplificado, popular, e repleto de
hábitos novos: dançar, cantar, mexer o corpo durante as orações,
ensinar os difíceis conteúdos judaicos de maneira simples, compreensível
e acessível aos pobres e miseráveis judeus da Polônia.
Muitas perseguições foram movidas aos “heréticos” chassidim,
por estarem distorcendo a tradição.
Quem tinha razão?
Moisés Mendelssohn nasceu em Dessau em 1729 e morreu em 1786. Sabia
hebraico, e estudou a Torá e o Talmud com o rabino David Frankel. Foi
com este a Berlim, aos 14 anos e lá estudou tanto o Judaísmo,
como a filosofia. De tanto estudar sua coluna se encurvou e ficou com uma corcunda.
Sua inteligência transcendia a sua imagem pouco estética. Acabou
se aproximando de sábios alemães cristãos, de sua época,
através de sua amizade com o filósofo Lessing. Torna-se um sábio
reconhecido nos círculos literários de Berlim, nunca negando
sua condição judaica e defendendo sua religião, diante
de críticas e agressões como as do pastor Lavater. Mendelssohn
compreendia que os judeus não poderiam permanecer para sempre no gueto
físico e tampouco no gueto espiritual. Para isso inicia um processo
que será a mola mestra da Haskalá ou o Iluminismo Judaico: abrir
as portas da sociedade européia, aos judeus. Como fazê-lo? Não
havia nenhuma experiência anterior: séculos de preconceito permeavam
o ambiente. Filósofos iluministas consideravam a própria Igreja,
como execrável, com valores antiquados e inadequados aos novos tempos
de “luz”. Os judeus eram vistos sob uma ótica que mesclava
o preconceito que a sociedade cristã tradicionalmente devotava aos judeus,
com um novo preconceito que via nos judeus, uma crença antiquada, arcaica
e repleta de costumes inadequados aos novos tempos.
Mendelssohn entendeu que havia que lançar pontes que aproximassem as
duas margens. Para os judeus poderem passar à sociedade européia
e para a sociedade cristã compreender e tolerar o Judaísmo e
suas crenças. Um de seus feitos foi traduzir a Torá ao alemão.
Uma tradução judaica que era diferente da tradução
da Bíblia feita por Lutero. Em conjunto com outros sábios judeus,
redigiu comentários ao texto bíblico, em hebraico, denominado
BIUR, que mais tarde foi traduzido ao alemão.
Assim judeus aprenderam o alemão e os alemães entenderam a nossa
LEI. Os rabinos ortodoxos consideraram este gesto uma heresia; já os
iluministas o elogiaram. Alguns rabinos coletaram e queimaram a “Bíblia
de Berlim”, gesto que já fora feito na Idade Média, com
as obras filosóficas de Maimônides. (se quiser, leia nosso artigo,
editado na Visão Judaica, denominado “Intolerância e Evolução”).
Moisés Mendelssohn critica a visão destes rabinos e amplia a
reflexão de seus tempos em sua obra “Jerusalém”.
Para ele o Judaísmo não exige de seus adeptos uma “fé cega”,
senão a compreensão e o cumprimento das leis históricas
e morais.
Muitos de seus discípulos iniciaram um processo de modernização
do Judaísmo. Escolas foram fundadas, oferecendo uma visão mais
ampla do Judaísmo. O renascimento do hebraico bíblico foi incentivado,
mas mesmo não resultando, foi estímulo para uma posterior tentativa
dos iluministas judeus russos no séc. XIX, que culminou com renascimento
do hebraico através de Eliezer ben Iehuda, na virada do séc.
XIX para o XX, em Israel.
Algumas pessoas acusam os iluministas judeus, discípulos de Mendelssohn,
de terem aberto as portas do Judaísmo para a assimilação
e para o desaparecimento. Isso ocorreu em parte, com alguns de seus seguidores
ou descendentes. Outros, porém darão continuidade a seus projetos
e ideais, tendo influências diferentes em movimentos diversos: a Reforma
religiosa judaica que deu origem aos movimentos conservador e reformista e
ao Sionismo da segunda metade do séc. XIX, que culminou com a colonização
de Israel e a criação do Estado. Seguramente não foi esperando
passivamente a vinda do Messias, vivendo em guetos físicos e mentais é que
se deu a modernização do Judaísmo. A Reforma judaica e
o Sionismo têm em Moisés Mendelssohn, seu antecessor. Ambos nos
levaram ao Mundo e nos permitiram sair do gueto.
E o que une Baal Shem Tov e Moisés Mendelssohn? Ambos compreenderam
o mundo em que viviam e trataram de agir neles, com soluções
sensíveis e inteligentes. Ambos foram vitimas da intolerância
e da cegueira de lideranças judaicas rigidamente tradicionais. Ambos
ajudaram a manter o Judaísmo vivo, renovando-o e impedindo que desaparecesse.
* Sergio Feldman é professor adjunto de História
Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do
Paraná e doutor em História pela UFPR.