O dia em que chegou o Messias
Por: Sérgio Feldman *


A vida judaica nos séculos XVI e XVII não foi fácil. No mundo judeu ibérico, ou sefaradi, acabara-se um longo convívio e uma permanência judaica em Sefarad (Península Ibérica) que hoje seria Espanha e Portugal.
No final do século XV, em 1492, os judeus foram expulsos da Espanha (então reinos de Castela e Aragão) pelos Reis Católicos, Fernando e Isabel. A Inquisição já havia sido instaurada e os cristãos novos, descendentes dos judeus convertidos à força a partir de 1391, eram acusados de seguir sendo judeus às escondidas, e por vezes eram sentenciados a duras penas que podiam chegar à fogueira. Assim, quem optou por ficar na Espanha (reinos ibéricos) como convertido, sofria o preconceito e os riscos de ser acusado, julgado e sentenciado; já quem não se convertera e emigrara, tinha perdido bens e a estabilidade, fugindo pelo Mediterrâneo para rincões distantes e tendo que recomeçar a vida. Em Portugal algo ainda mais trágico se deu: o rei Manuel não querendo perder “seus judeus” optou por expulsá-los, mas sem deixá-los sair, não oferecendo navios. No porto de Lisboa mesmo, os “judeus” foram batizados “em pé”. Conversão forçada. Milhares de judeus foram “violentados”, daí seu nome em hebraico: Anusim ou violentados.
Na distante Polônia outra tragédia ocorrera. Os poloneses usavam os judeus para cobrar os impostos dos camponeses russos e ucranianos, que viviam sob o domínio polonês. Uma revolta estala em 1648: bandos de cossacos se rebelam contra os dominadores poloneses e seus “cobradores” judeus. Os poloneses fogem na sua maioria, mas os judeus são massacrados aos milhares. O líder cossaco foi o cruel e sanguinário Bogdan Chmielnicki que organizou uma chacina dos judeus. Fala-se de cerca de 250 a 500 mil judeus exterminados, entre 1648 e 1656. Mesmo que não haja consenso nestes números, trata-se da maior chacina de judeus até o Holocausto produzido pelos nazistas. A memória judaica polonesa manteve datas de luto e jejum por dois séculos. Os efeitos serão duradouros: pobreza, órfãos e viúvas, comunidades inteiras arrasadas e milhares de judeus vendidos como escravos alem da terrível mortandade. O desconsolo e a falta de perspectivas acentuaram uma saída sobrenatural. Tanto os sefaradim (judeus de origem ibérica), quanto os ashkenazim (judeus poloneses, especialmente) se viram diante de uma situação insuportável. Apelar para D-us era a saída. O Messias deveria estar em vias de chegar e resgatar seu povo humilhado e oprimido.
O Messias veio. Seu nome era Shabetai Tzvi. Nascido em 1626, na cidade turca de Esmirna, que na época fazia parte do Império Turco ou Otomano. Tzvi era de origem sefaradi, de boa aparência e intelectualmente bem dotado. Estudou como a grande parte dos jovens judeus a Torá (Pentateuco), o Talmud e a Cabala. Seu mestre foi o rabino Iosef Ascupi, que era o líder espiritual da sua comunidade em Esmirna. Sendo simpatizante do grande sábio Ari (ou rabi Itzchak Luria) de Safed, um místico e profundo conhecedor da doutrina cabalística, foi influenciado por suas concepções. Jejuava e meditava por longos períodos. A solidão era muito comum a este jovem que se divorciou de sua esposa e optou por uma vida de estudo e meditação relendo o Zohar e interpretando a Cabala do rabino Ari. Queria se integrar no processo da Redenção divina e ajudar na vinda do Messias que redimiria o povo judeu e a humanidade. Caia seguidamente em estado de inconsciência ou em êxtase cabalístico.
Em 1648 quando o violento e sanguinário líder cossaco Chmielnicki iniciara suas matanças de judeus, este jovem judeu pronunciou o “inefável Nome de D-us”, ou seja, o Tetragrama que nas orações é substituído por Adonai e nas falas por Hashem. Só o Sumo Sacerdote poderia pronunciá-lo em ocasiões especiais no Templo. Isso só ocorreria quando viesse o Messias. Um tumulto ocorreu e não foi fácil de buscar um entendimento. Uns se entusiasmaram e outros o acusaram de heresia e loucura. Ele jejuava e “mergulhava” em meditação e êxtase. Seus seguidores o exaltaram, mas o rabi Iosef Ascupi e outros eruditos da sua cidade o excomungaram.
Shabetai não se melindrou e saindo da cidade, começou a sua “peregrinação e desterro” que foram uma seqüência de visitas e pregações nas cidades do Império Turco: Constantinopla, Cairo, Salônica e Jerusalém. Os judeus que haviam sido expulsos da “Espanha” viam neste momento a esperada Redenção. As notícias do massacre dos judeus pelos cossacos na Ucrânia e Polônia acentuaram o clima espiritual. A vinda do Messias se daria num contexto de crise e de provações e isto não era diferente da realidade tanto dos sefaradim, quanto dos ashkenazim. Multidões o seguiam. Alguns adeptos saíram de remotos lugares, venderam seus pertences e se lançaram ao encontro do enviado. O sábio rabino Natan de Gaza referendou a sua condição messiânica e aumentou seu prestígio. Chegou ao ponto de afirmar que o Messias de Esmirna tiraria o cetro do Sultão e devolveria os judeus a Jerusalém, onde reinaria e traria um reino de paz e felicidade.
Seu retorno a Esmirna foi glorioso. Aclamado pelos judeus entre gritos entusiasmados e louvores ao “Rei Messias” e ao Libertador. As posturas do pretenso Messias não eram de todo ortodoxas: permitia danças coletivas entre homens e mulheres e alternava momentos de depressão e autoclausura com momentos de euforia e pregação entusiasmada. Suas atitudes não eram condizentes com um homem santo.
O autor Gershon Scholem, em sua obra “A Mística Judaica”, editada no Brasil pela Editora Perspectiva, traz um capítulo sobre o “sabatianismo” ou heresia de Shabetai Tzvi. Nele salienta o papel marcante de Natan de Gaza na ‘definição’ de Shabetai como Messias e na explicação de seus gestos ‘inadequados e até bizarros e sacrílegos’, como ações que reordenavam o caos do mundo, ou seja, de Tikun. O conceito de Tikun é complexo, mas de maneira simplificada seria o ‘conserto do mundo’. Os gestos não ortodoxos do Messias serviam para arrumar o Mundo e afastar o mal do Universo. Uma adequação de certos comportamentos ‘não judaicos’ do “Pseudo Messias” para fazê-los aceitáveis e inteligíveis. Scholem admite a possibilidade de que Shabetai Tzvi fosse maníaco-depressivo, mas o afirma de maneira comedida. Faltam elementos para esta avaliação.
A data era simbólica: 1666. A profecia que corria de “boca a boca” era de que nesta data ocorreria o confronto de Shabetai com o Sultão turco otomano. No inicio deste ano um séqüito de seguidores acompanhou o Messias a Istambul, a capital otomana. O Sultão não relutou em detê-los e isolar Shabetai na fortaleza de Abidos. Isso não fez esmorecer os seguidores. Marcavam visitas e o consultavam: nada mudara, apesar de tudo.
Eram as penúrias que antecediam a grande transformação. Simpatizantes se dirigiam a Istambul, para tentar ver Shabetai. O Messias estava ‘doente’, mas logo se recuperaria e faria portentos e milagres. Nada fazia os seguidores desistirem de seu sonho. O Jejum de Tishá Be Av (nove do mês de Av) no qual se recordava a destruição dos dois templos foi abolido pelos seguidores, pois em breve seria reconstruído o Templo, na sua versão definitiva. A Redenção estava próxima.
Isso não se deu. Shabetai foi intimado a se encontrar com o Sultão. Este lhe solicitou provas de seus poderes. Não conseguiu e foi intimado a se converter ao Islã ou ser executado sumariamente. Shabetai aceitou se converter e junto com ele, o fizeram sua esposa Sara e muitos de seus discípulos. Ele foi nomeado Mehmet Efendi e ainda assim, nos meses seguintes, alegava a seus discípulos que sua conversão seria uma parte das dores do Messias. Era algo que os judeus seferadim não achavam estranho: os marranos ibéricos que haviam sido convertidos à força nos reinos da atual Espanha (Castela e Aragão) seguiam “judaizando’, às escondidas, apesar da perseguição da Inquisição. A conversão forçada e o criptojudaísmo eram familiares aos judeus da região do Mediterrâneo. O Sultão, irritado, exilou Mehemet Effendi (Shabetai Tzvi) para Dulcina, na atual Albânia. Ele viveu seus últimos anos isolado mas sempre alegando sua condição messiânica. Sua morte, em 1676, não extinguiu seu movimento. Os seguidores achavam que ele renasceria e reapareceria consumando a redenção. Os rabinos tiveram serias dificuldades na seqüência dos séculos XVII e XVIII, com os sabatianistas. Os nazistas aniquilaram vários núcleos de seguidores que ainda existiam nos Bálcãs, durante o Holocausto. O escritor judeu brasileiro Moacyr Scliar fez um conto sobre a ”Balada do falso Messias”, que transcorre em Quatro Irmãos (RS), nas colônias agrícolas judaicas. Um texto digno de um imortal da Academia. Busque e leia. Vale a pena.

* Sérgio Feldman é doutor em História pela UFPR e professor de História Antiga e Medieval na Universidade Federal do Espírito Santo, em Vitória, e ex-professor adjunto de História Antiga do Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná.