Um novo anti-semitismo
Por: Ralf Dahrendorf *



Correm tempos violentos. Alguns crêem que vivemos um novo tipo de conflito: as "guerras culturais". Por exemplo, entre muçulmanos sunitas e xiitas, ou entre islamistas e ocidentais. No entanto, é muito provável que as razões de alguns destes conflitos sejam tradicionais.
Pertencer a um determinado grupo cultural é só um pretexto para as batalhas entre os vencedores e os perdedores da globalização. Líderes implacáveis mobilizam seguidores desorientados e, no caso particular dos perdedores, até podem induzi-los a empreender ações suicidas contra o suposto inimigo.
Talvez não devêssemos nos surpreender que em tais tempos ressurja o mais antigo de nossos ressentimentos perversos e letais: o anti-semitismo. Retorna em sua forma clássica: ataques individuais, como o recente assassinato de um jovem judeu na França, ou contra sinagogas, cemitérios e outros lugares simbólicos. Mas também há um sentimento mais generalizado de hostilidade contra todo o judeu.
Caberia supor que o Holocausto acabou definitivamente com o anti-semitismo, mas não foi assim. Há aqueles que negam o Holocausto ou que tenha acontecido da forma perfeitamente documentada, em que ocorreu.
Seus negadores vão desde historiadores de menor importância, como David Irving, até políticos aparentemente populares, como Mahmoud Ahmadinejad, presidente eleito do Irã. As provas do que fez a Alemanha nazista são tão irrefutáveis que talvez nem sequer fizesse falta encarcerá-los e, desse modo, atrair até eles mais atenção da que merecem.
A fonte mais inquietante do anti-semitismo é outra. É justo, pois, falar de um "novo anti-semitismo". Tem a ver com Israel, a única nação bem sucedida do Oriente Médio que, além disso, é muito militarizada, é uma potencia ocupante e uma defensora implacável de seus interesses.
Parece difícil exagerar o estranho sentimento dos ocidentais para com a Palestina. Poderíamos chamá-lo "romanticismo". Assim expressaram intelectuais como Edward Said, já falecido, mas tem muitos adeptos nos Estados Unidos e na Europa. Glorificam os palestinos como as vítimas da dominação israelense. Falam do tratamento que recebem os palestinos israelenses: cidadãos de segunda classe, no melhor dos casos. Citam os numerosos incidentes opressivos nos territórios ocupados. Implicam o explícito, se põem ao lado das vítimas, enviam-lhes dinheiro, até declaram lícitos os atentados suicidas e se afastam cada vez mais do apoio a Israel e de sua defesa.
É certo que, em teoria, podemos opor-nos às políticas de Israel sem ser por isso anti-semitas. Além disso, há muitos israelenses que as criticam. Não obstante, cada vez custa mais manter a distinção. Os judeus da diáspora se sentem obrigados a defender (com razão ou sem ela) o país que, apesar de tudo, é sua última esperança de segurança. Por isso, seus amigos vacilam em falar claro: temem ser tachados não só de hostis a Israel, como também de anti-semitas. A atitude defensiva dos judeus e o silêncio incômodo de seus amigos indicam que o cenário do debate público está aberto para os verdadeiros anti-semitas, mesmo que se limitem a falar mal de Israel.
O anti-semitismo é repugnante, seja qual for a forma que adote. A educação e o debate não bastam para lutar eficazmente contra o novo anti-semitismo. Ele está ligado a Israel. Nós que pertencemos a uma geração que considera Israel uma das grandes conquistas do século XX e o admira pelo modo em que deu um orgulhoso lar aos perseguidos e oprimidos, nos inquietamos particularmente diante da possibilidade de que hoje em perigo.

* Ralf Dahrendorf integra a Câmara dos Lordes, na Grã-Bretanha. Tradução para o espanhol de Zoraida J. Valcárcel e publicado no jornal La Nación em 20.3.2006. O texto está em  http://www.lanacion.com.ar/opinion/nota.asp?nota_id=790259. Traduzido para o português por Szyja Lorber, para o jornal Visão Judaica.