Em 1967, o filósofo marxista Herbert Marcuse proferiu uma série de conferências na Universidade Livre de Berlim, reunidas em “O fim da utopia” (Siglo XXI, 1968). No decorrer dos debates defendeu de forma incisiva a causa de Israel. “Não posso esquecer”, afirmou, que os judeus “por séculos foram perseguidos e oprimidos e que seis milhões deles foram aniquilados não faz muito tempo. E quando se cria para esses seres humanos um espaço no qual não precisam mais temer a perseguição e a opressão, tal coisa constitui um objetivo com o qual me declaro identificado... celebro coincidir nisto com Jean-Paul Sartre, que disse: ‘o único que deve ser evitado, a qualquer preço, é uma nova guerra de extermínio contra Israel’”.
Essa identificação com Israel possui profundidade histórica. Os movimentos revolucionários europeus lutaram sempre contra o sistema social e econômico expropriador que engendrou, entre outras violências, a intolerância étnica e religiosa. Especialmente contra o anti-semitismo, gerador de atrocidades e reprodutor da ignorância. Para os que viveram o final da guerra havia clareza de que a partilha da Palestina fora uma grande vitória da justiça e uma ação libertadora. A decisão das Nações Unidas reconheceu direitos, tanto dos judeus que ali viviam quanto dos árabes. Convidou-os à coexistência e entendimento. Israel representou não apenas a realização de uma esperança milenar e o reconhecimento universal da dolorosa trajetória de um povo, mas o triunfo humanista da tolerância. “Existe na esquerda”, portanto, continuou, “uma identificação muito forte e muito compreensível com Israel”.
Mas Marcuse lembrou que desde o início “os representantes árabes — e não quaisquer representantes — declararam firmemente, e em voz alta, que se deve fazer contra Israel uma guerra de extermínio...”. Tal atitude se identificava com as forças que tinham sido derrotadas em 1945. A afirmação de Ahmadinejad [presidente do Irã], proclamando a necessidade do extermínio, ou a do Hamas [movimento no poder na Autoridade Palestina desde as eleições legislativas de janeiro], recusando a resolução da ONU, de 1947, dão continuidade, portanto, a primitivos movimentos reacionários. Marcuse levantou ainda uma outra questão. A atitude de intolerância foi evidente desde o princípio, mas a posição dos soviéticos, a partir de determinado momento, perturbou um entendimento correto do assunto. Segundo ele, “o conflito entre Israel e os Estados árabes se converteu desde muito em um conflito entre os EUA e a União Soviética, e saiu do âmbito local”. Isso propiciou que “fosse fácil identificar Israel com imperialismo, e a causa árabe com anti-imperialismo”. Fácil, mas não verdadeiro. No que diz respeito a Israel, segundo Marcuse, “propostas de entendimento foram formuladas por Israel reiteradamente e essas propostas sempre têm sido rechaçadas pelos representantes árabes”. Isto é, não foi Israel o primeiro responsável pelo confronto. Sempre buscou a conciliação e apenas se defendeu, mesmo, segundo ele, em 1967. Além do mais, Israel se constituiu como sociedade democrática, fortemente influenciada pelos ideais socialistas. Não fazia muito (1950) que Martin Buber afirmara a existência de dois núcleos socialistas no mundo: Moscou e Jerusalém (Caminhos de utopia, FCE, 1955). E não o fez de forma retórica: o papel da economia socializada era grande, e ainda é significativo, em Israel.
O anti-americanismo não se constitui, por si só, prova de política progressista, assegurou, sensatamente, Marcuse. Os EUA são atacados pela esquerda, mas também pela direita, e por diferentes razões. Lembremo-nos do similar erro de Gandhi, no limiar da II a Guerra Mundial. O Mahatma buscou o apoio de Mussolini, pela única razão de ambos serem hostis aos ingleses. Nada mais equivocado. A reação que se desenvolve no mundo muçulmano desde 1945 é, em geral, retrógrada e reacionária. Volta-se contra Israel. Mas, através dele, também contra o liberalismo e o direito laico ocidental e os princípios da soberania popular. Em um sentido mais amplo, é hostil ao socialismo, evidentemente. Insiste, com crescente virulência, na força da ignorância religiosa e na intolerância política. Afunda suas sociedades em autocracias retrógradas e corrompidas. Que os povos árabes e muçulmanos necessitavam de revoluções parecia claro a Marcuse, mas revoluções libertadoras e democráticas.
Por essas razões, Marcuse defendeu, em Berlim, no distante 1967, não apenas os vietcongs, mas também a causa de Israel. Sem dúvida, os árabes, os iranianos ou os curdos — e todas as nações e pessoas — têm direitos à autodeterminação, a um lugar no mundo. Mas não a partir do extermínio de outros povos e seres humanos. Quando Sartre sustentou que “o único que deve ser evitado, a qualquer preço, é uma nova guerra de extermínio contra Israel”, pensava certamente que a causa de Israel não pertence apenas aos israelenses ou aos judeus. É uma causa da Humanidade. Símbolo da vitória contra o poder aniquilador da ignorância. Verdadeira e virtuosa.
* Edgard Leite Castro é professor da Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ.