Alguns foram ver a terra que cultivavam antes de 1967, quando numa guerra relâmpago que durou seis dias Israel arrebatou Gaza do Egito. Outros se aproximaram para bisbilhotar ou honrar o lugar onde alguém dos seus perdeu a vida, tentando matar colonos israelenses. A grande maioria foi lá para saquear, rebuscar os restos de tubos ou cabos entre os escombros. Também foi para destruir. Sobretudo para isso. As fotos das sinagogas em chamas. Ao final, tinham razão o ministro da Defesa, Shaul Mofaz, e os rabinos ao se oporem que os bulldozers do exército colocassem abaixo os locais de oração.
Os duros, os que mais choraram o arriar da bandeira na Faixa de Gaza, argumentaram que tinha que se deixar aos palestinos a oportunidade de mostrar “como são”. Um domingo antes da entrega de Gaza, numa reunião presidida por Ariel Sharon, Mofaz e os seus impuseram seu critério e conseguiram que o Gabinete deixasse para trás uma decisão da Corte Suprema, que ordenava a destruição das sinagogas.
O espetáculo foi dantesco e junto com o assalto ao posto de Rafah, representa um presságio obscuro. Depois, por dois dias consecutivos, os guardas egípcios foram incapazes de frear a onda de palestinos que escavava sob os muros ou escalava barreiras para passar ao outro lado e abastecer-se de cigarros baratos, queijo ou remédios.
O fogo dos templos e o caos da fronteira abrem inquietantes incógnitas, entre as quais a mais crucial é a capacidade da Autoridade Palestina para impor a ordem.
Enquanto percorria o antigo assentamento de Neve Dekalim, o primeiro-ministro palestino, Ahmed Qurei, implorou aos seus que respeitassem as estruturas deixadas intactas pelos israelenses. Sua exortação tinha como tela de fundo o ruído pelo tropel por um enxame de saqueadores.
O Exército israelense arrasara as casas dos 8.500 colonos, mas — graças a um acordo internacional — deixou intactas as primorosos estufas que permitiam aos colonos exportar frutas e verduras o ano todo. Esses viveiros tecnológicos são a pedra angular sobre a qual a Autoridade Palestina planeja iniciar a construção econômica de Gaza e demonstrar ao mundo que podem chegar a ser um Estado viável. É muito cedo para saber se as estufas cairão em mãos de potenciais corruptos, como tantas coisas na Palestina, ou se terão a sorte das sinagogas, mas não há muita margem de esperança.
De tudo o que escutei, o mais inquietante é a frase daquele palestino do campo de refugiados de Khan Yunis, que com uma tocha na mão assegurava ter aprendido uma lição: “Não importa o que tenha que esperar, mas no final acabaremos com os judeus e suas obras”. Se eu fosse israelense, estaria a favor do Muro.
* Alfonso Rojo é espanhol e colunista do jornal ABC.