Visão Judaica - Edição N° 18
:. Um silêncio Clamoroso .:

Por: Ivan Schmidt*

O historiador norte-americano Garry Wills, professor da Northwestern University, PhD por Yale, escreveu um livro publicado em 2000 pela prestigiosa editora Doubleday. Nessa obra, ao que se sabe ainda não traduzida para o português, Papal sin, Structures of Deceity, o autor enumera todos os "pecados" da Igreja, obviamente enfocando-os com suas próprias lentes.
Um dos temas tratados à exaustão é o holocausto, inclusive com a citação de um livro já disponível no Brasil, A encíclica escondida de Pio XI (Vozes, RJ, 1998), escrito em parceria pelo beneditino Georges Passelecq e o sociólogo Bernard Suchechy. O subtítulo do livro é deveras explicativo: "Uma oportunidade perdida pela Igreja diante do anti-semitismo".
Os autores contam que no dia 22 de junho de 1938, o papa Pio XI teve um encontro reservado com o jesuíta norte-americano John LaFarge, editor da revista América, a quem encomendou o esboço de uma encíclica que recebeu o título provisório "A unidade do gênero humano". O propósito era dar uma resposta cabal à ameaça representada pela ascensão do nazifascismo. Na data combinada o resumo foi entregue ao portador que o levaria ao sumo pontífice.
Desde então, entretanto, nenhuma informação foi ventilada sobre o documento até o dia 15 de dezembro de 1972, quando o jornal National Catholic Repórter, de Kansas City (EUA) publicou reportagem assinada por Jim Castelli revelando sua existência.
Pio XI teve um ataque cardíaco mortal na noite de 9 para 10 de fevereiro de 1939, sendo sucedido pelo cardeal Eugênio Pacelli, sob o nome de Pio XII. Conforme as regras pontificais, o sucessor não é obrigado a executar os projetos deixados pelo papa anterior, sendo esse o fato que explica, em parte, porque a encíclica caiu num esquecimento fatídico para a Igreja, imediatamente confrontada pela ideologia racista de Hitler e Mussolini, que deveria ser prontamente rechaçada.
Um lampejo do pensamento de alguns homens importantes na estrutura da Igreja foi protagonizado pelo cardeal Theodor Innitzer, arcebispo de Viena, quando a Áustria foi anexada ao Reich, em março de 1938. No dia 15, o cardeal visitou Hitler e expediu diretivas dizendo entre outras coisas que "a Igreja não irá lamentar sua fidelidade em relação ao grande Estado alemão". O documento foi lido em todas as igrejas do país no dia 27, apelando aos católicos que se declarassem a favor do Reich "como um dever nacional". A assinatura do primaz foi precedida por subserviente Und Heil Hitler!
Certamente isso contribuiu para a convocação de LaFarge, poliglota e estudioso profundo de temas sociopolíticos, cuja tarefa recebeu ajuda dos também jesuítas Gustav Gundlach e Gustave Dusbuquois. Os originais em inglês, francês e alemão foram entregues na data marcada, mas seu destino permanece obscuro até hoje. Em carta a LaFarge em 18 de novembro, Gundlach enfatizou: "A evolução recente da situação na Alemanha faz com que a imagem da Igreja como garantia da ordem divina venha a sofrer com isso, se ela ficar calada". Era uma profecia.
O idoso Pio XI morreu aos 81 anos, quando a Alemanha e Itália já haviam proclamado o racismo como posição oficial de governo. A promulgação feita por Mussolini a 14 de julho, por exemplo, afirmava que "os judeus não fazem parte da raça italiana". Em setembro, numa audiência a peregrinos o alquebrado papa advertiu: "O anti-semitismo é inadmissível. Nós somos espiritualmente semitas".
O cardeal francês Tisserant, que viria a ser homem forte no pontificado que iniciava, citado sem confirmação da fonte por Castelli, teria dito que poucas horas depois da morte de Pio XI foram vistos sobre sua mesa de trabalho o projeto da encíclica e o discurso que faria aos bispos, no dia seguinte, por ocasião do décimo aniversário do Tratado de Latrão. O repórter escreveu também que o cardeal afirmara que os papéis teriam desaparecido quase imediatamente.
Os autores de A encíclica escondida de Pio XI, depois de longa investigação conseguiram uma cópia da versão francesa e a anexaram ao livro. Em sua decisiva condenação do racismo, o texto afirma que ele é tanto mais reprovável "por ser unicamente a luta contra os judeus", reprovada mais de uma vez pela Santa Sé, "sobretudo quando desdobravam a capa do cristianismo para se abrigarem nele". O espírito autêntico da Igreja, segundo a versão encontrada, foi de "sempre proteger o povo judeu contra os ataques injustos de que tem sido vítima e, da mesma forma, reprova as invejas e lutas entre as nações; assim, e de uma forma particular, condena esse ódio a que atualmente, se dá o nome de anti-semitismo".
Essa posição firme da Igreja, certamente teria contribuído para encabrestar a insanidade genocida de Hitler, mas inexplicavelmente foi esquecida num desvão do Vaticano. O mundo civilizado testemunhou, nos primeiros anos da década de 40, o mais iníquo extermínio de seres humanos que a história registrou, sob um manto injustificado de silêncio, tão clamoroso quanto os crimes que o mundo, então, conheceu.

Ivan Schmidt é escritor e jornalista

Voltar