Por: Sérgio
Feldman*
Este ano eu fiz
alguns pedidos a D-us nas Grandes Festas (RH e YK). Alguns óbvios
e particulares: saúde, sustento (parnassá), paz
familiar, e vida plena... Enfim... realmente todo mundo pede isso.
Outros pedidos são um tanto utópicos e outro tanto
sonhadores, bastante fora da realidade e um pouco difíceis
de serem concretizados: paz no Mundo, paz no Oriente Médio,
fim das crises e do desemprego no Brasil e no Mundo, fim da fome
e da violência aqui e por todos os lugares neste planeta.
Eu sei que as chances de se concretizarem estes sonhos e desejos
são remotas e pouco prováveis. Mas sonhar é
preciso: agir é ainda mais importante. E tem gente agindo
e fazendo, e isso ajuda a gente a acreditar que as coisas mudaram
e mudarão. Há mudanças no Brasil. Podemos
sonhar ??!! O Mundo anda desanimador com Bush X os outros. O que
fazer? Mas no nível interno da nossa comunidade, há
muitas coisas boas e novas na Kehilá. Alguns sintomas de
melhora podem ser vistos: a Escola investiu alto na Educação
para a Diversidade. A qualidade do ensino da Escola é conhecida
e constatada. A Kehilá, apesar das dificuldades financeiras
vai seguindo e acontecendo. O novo prédio tem sido o palco
de acontecimentos e eventos. Podemos dizer que modestamente se
inicia uma nova era.
As Grandes Festas mostraram coisas antigas e coisas novas. A sinagoga
tem adquirido certa vida e relativa participação
dos congregantes: há alguma energia espiritual pairando
no ar. O líder espiritual prof. Sami Goldstein tem inúmeros
sucessos e realizações: trata-se de um jovem "rabi"
que mostra um saber judaico amplo, capacidade de predicar e liderar
as orações de maneira sensível e entusiasmada.
Seu potencial salta à vista e com o passar do tempo acredito
que mostrará ainda mais seu valor. Mas creio que há
aspectos na sinagoga que poderiam ser aprimorados. Precisamos
atrair mais gente e congregar mais ainda os judeus de Curitiba.
Não se trata de tarefa fácil. Por isso temos de
pensar juntos e refletir para não perdermos mais terreno
no âmbito da continuidade comunitária.
Em Rosh Hashaná (RH) e no Yom Kipur (YK) pude sentir momentos
de enorme espiritualidade durante os serviços, e momentos
de enorme esvaziamento da emoção de estar rezando
e me aproximando de D-us. Sei que isto é uma coisa pessoal:
alguns conseguem rezar com Kavaná (intenção
e envolvimento espiritual) e outros não o fazem. Mas creio
que alguma coisa pode ser feita para aprimorar os serviços
religiosos. A sagrada leitura da Torá se tornou um dos
momentos menos espirituais das orações. Há
muitos anos as pessoas se acostumaram a utilizar a leitura da
Torá para obter donativos. Creio que tal atitude é
necessária e legítima, ainda mais porque as doações
revertem para a continuidade do ensino judaico: servem para ajudar
a manter a Escola Israelita. Não questiono tal postura:
trata-se de uma causa nobre, legítima e judaica. Sem Escola
não haverá continuidade; sem ensino não há
Judaísmo. Porém deveria se criar uma maneira mais
adequada de fazer esta "coleta" de doações.
Tenho sugestões e exemplos de outras kehilot que conseguem
unir as doações com o respeito e a espiritualidade.
Aqui em Curitiba, geralmente são feitas cerca de cinco
ou sete repetições da leitura da Torá em
cada uma das datas festivas do Ano Novo. Fica um momento mecânico,
não participativo e sem significado: o espiritual se perde.
Então vemos as tradicionais cenas do oficiante (rabino
ou chazan) pedindo silêncio e censurando as pessoas por
não se calarem durante as leituras "repetidas"
do texto sagrado. Será que as pessoas deveriam ter que
ouvir seis ou sete vezes uma leitura que: a) Não entendem
b) Não participam c) É mecânica e repetitiva
d) Não é explicada. Alguns me diriam: sempre foi
assim e não vai mudar. Outros acham que conversar na sinagoga
seja um gesto "tradicional": trata-se de um Beit Knesset,
ou seja, um local de encontro! Eu discordo: trata-se de um Beit
Tefilá: local de orações e estudos. Por sinal,
as pessoas são bastante respeitosas durante orações
que propiciam sua participação: vejam o exemplo
do Erev Shabat (sexta-feira à noite). Como as pessoas participam
e como há uma Kavaná coletiva, o serviço
transcorre com espiritualidade, respeito e participação.
Méritos para nosso líder espiritual e para os congregantes,
somados ao fato de ser uma reza conhecida da maioria e repetida
semanalmente.
A questão é: como fazê-lo em RH e YK? Nestas
datas vêm à sinagoga pessoas que não vêm
nas sextas-feiras. É um público heterogêneo.
Correto. Mas ainda assim devemos nos defrontar com as dificuldades
e buscar maneiras criativas de superá-las. Devemos discutir
o que fazer. Há várias opções e diversas
possibilidades. De maneira superficial, oferecemos algumas sugestões:
a) um coral ou alguns pequenos corais que oficiem parte das rezas
b) grupos de estudo com faixas etárias diferentes no decorrer
do primeiro semestre do ano que aprendem as orações
básicas das Grandes Festas, seu significado e sua "cantilação"
(maneira de ser cantada ritualmente). E sem dúvida deve
haver outras sugestões e idéias criativas para se
tornar o serviço de Iamim Noraim um acontecimento mais
espiritual e participativo. Basta que as pessoas interessadas
sejam ativistas e participantes das rezas, se reúnam e
pensem juntas algumas idéias. Afinal, tem gente que só
vai uma vez ao ano na sinagoga: em RH e/ou YK. É a chance
de reaproximá-los às suas raízes. Muitos
fazem desta data um desfile de moda; outros o momento do encontro
com os amigos que não vêem o ano todo; alguns pensam
que apenas indo à sinagoga irão captar um pouco
da espiritualidade e poderão obter o perdão divino;
muitos pensam que devem fazê-lo apenas por um repetitivo
hábito que se perpetua de geração a geração,
sem entendê-lo ou participar de maneira consciente e ativa.
Ficam de lado: alguns falando e outros em silencioso respeito.
Temos de repensar esta situação. Ao meu ver há
maneiras de traduzir a tradição. Tradição
não é estagnação e nem repetição
inconsciente de atos e gestos: meu pai fazia, meu avô também
e eu repito. Por que fazê-lo? Muitos responderiam: eu não
sei!!! É possível repetir todos os anos e não
saber por quê?
Temos que traduzir e repensar coletivamente a tradição.
A Tradição teve e deve seguir tendo uma razão
de ser e existir. Rever o ritual e aprimorá-lo de maneira
a não alterar sua essência e seu significado vital.
Aumentar a participação de leigos e pessoas distanciadas
da tradição; abrir a compreensão aos que
não entendem o que significa cada gesto ou ritual; oferecer
cursos de Judaísmo, de liturgia e de História para
adultos e jovens; buscar atividades que repensem a participação.
E eu não poderia deixar de levantar a minha "utópica"
sugestão que me parece incompreensível a algumas
pessoas. Rever o espaço e a participação
das mulheres na sinagoga. Na sexta-feira (Erev Shabat) as mulheres
sentam-se no andar central da sinagoga; no sábado de manhã
são direcionadas ao andar superior. Na véspera de
festas podem ficar no andar central, mas no dia seguinte perdem
seu espaço e são ejetadas ao andar "feminino".
Se nos dois andares houvesse uma ala masculina e uma ala feminina
haveria espaço "semelhante" e a possibilidade
de que as mulheres ocupassem na sinagoga, o mesmo espaço
que ocupam na vida real. Seria trazer a sinagoga para os séculos
XX e XXI, pelo menos de maneira parcial. Afinal, na CIP (Congregação
Israelita Paulista) e em muitas sinagogas conservadoras esta é
a norma de distribuição de espaços, há
décadas. Ou será que nossa sinagoga é ortodoxa?
Por sinal será que alguém sabe se somos ortodoxos
ou conservadores? O que somos? Em alguns momentos somos de um
alinhamento/movimento/denominação. Em outros somos
de outro. Ora temos microfone; ora não temos. Ora as mulheres
estão no andar central; ora devem subir. Sua posição
na geografia da sinagoga reflete uma contradição:
ninguém sabe que tipo de congregação nós
somos? Existem sinagogas mais participativas aonde homens e mulheres
compartilham os mesmos espaços, mas isto talvez não
seja ainda compreensível para a maioria dos congregantes
da nossa Kehilá. Creio que pelo menos nos definirmos como
conservadores faria bem à nossa identidade coletiva. Afinal
temos que saber quem somos.
Uma observação simples. Imagino que alguns dos homens
já se sentaram no andar superior em Bat Mitzvót
ou outros eventos. A construção da sinagoga feita
no início da segunda metade do século XX tem um
projeto bastante anacrônico. A fila um tem boa visibilidade;
na dois se enxerga o altar (Bimá) de maneira parcial. Da
terceira fila em diante nem as mulheres altas conseguem ver o
que se passa. A acústica sem microfone é péssima.
A participação mais efetiva de quem não consegue
a primeira ou segunda fila se torna poder falar com a vizinha
ou olhar o desfile de moda. Espiritualidade e kavaná ficam
um pouco difíceis no andar superior. Na minha opinião
as mulheres de Curitiba são demasiado submissas e caladas,
pois nunca protestaram por tal fato entendendo que a religião
é isso. Aceitam viver no século XVI e se submeter
a uma posição inferiorizada na religião.
Enfim, creio que não devo insistir mais nisso, pois que
as mulheres judias de Curitiba aceitam este papel e esta localização.
Mas proponho que se rediscuta comunitariamente sob a orientação
do líder espiritual, junto com a direção
religiosa, as maneiras de aprimorar a vida espiritual da Kehilá.
Ainda assim nossos sinceros parabéns para o prof. Sami
Goldstein e para o Charles London pelos avanços claramente
perceptíveis e votos que tenhamos ainda mais progressos
em nossa vida espiritual no seio da Kehilá.
ShanáTová e Shalom al Kol ha Olam.
* Sérgio
Feldman é professor adjunto de História Antiga do
Curso de História da Universidade Tuiuti do Paraná
e doutorando em História pela UFPR.