Por oito votos a
três, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) concluíram
em 17 de setembro que quem propaga idéias discriminatórias
contra judeus comete o crime de racismo. A posição
foi tomada no julgamento de um pedido de habeas-corpus formulado
pelo neonazista gaúcho Siegfried Ellwanger, condenado pelo
Tribunal de Justiça de Porto Alegre por divulgar livros
com conteúdo anti-semita. Segundo o presidente do STF,
Maurício Corrêa, desde a promulgação
da Constituição de 1988, esse foi "o caso mais
emblemático, no contexto dos direitos civis". A decisão
repercutiu no exterior.
O julgamento no STF foi iniciado em dezembro do ano passado e
após quatro adiamentos provocados por pedidos de vistas
formulados pelos ministros. Só foi concluído em
setembro. O ex-presidente do STF, Marco Aurélio Mello,
apoiou na sessão final do julgamento a concessão
do habeas-corpus, entendendo que Ellwanger "não praticara
o crime de racismo". Já o decano do STF, ministro
Sepúlveda Pertence, votou, na mesma sessão, a favor
da condenação porque observou a prática do
crime. Como sete ministros já haviam se manifestado contra
as pretensões de Ellwanger em sessões anteriores,
ficou mantida a condenação por racismo, crime imprescritível.
O advogado de Ellwanger, Werner Cantalício João
Becker, ainda pode recorrer ao próprio STF.
"Confesso que não identifiquei (no livro) qualquer
manifestação a induzir o preconceito odioso no leitor.
Por óbvio, a obra defende uma idéia que causaria
repúdio imediato a muitos, e poderia até dizer que
encontraria alguns seguidores, mas a defesa de uma ideologia não
é crime e, por isso, não pode ser apenada",
afirmou Marco Aurélio no julgamento, que ele próprio
considerou o mais importante dos seus 13 anos de STF.
Após Marco Aurélio ter lido o seu voto, vários
integrantes do STF, como Celso de Mello, pediram para falar novamente
sobre o caso. Em abril, ele já havia votado contra o habeas-corpus.
E no dia 17 de setembro reafirmou que os livros escritos e editados
por Ellwanger pregam e disseminam idéias impregnadas de
intolerância.
O julgamento foi acompanhado pelo rabino Henry Sobel, pelo ex-ministro
Celso Lafer e outros integrantes da comunidade judaica. "Foi
um julgamento histórico. Como brasileiros e judeus, só
podemos aplaudir a decisão do STF", disse Sobel. "A
Justiça puniu exemplarmente alguém que fomenta o
ódio e o preconceito, o que, além de ser ofensivo
e imoral, é proibido pela Constituição".
Segundo ele, se a decisão fosse outra, "teria sido
criado um precedente perigoso, um sinal verde para outros neonazistas
e anti-semitas".
Com o pedido negado por oito votos contra três, foram vencidos
os ministros Moreira Alves, Carlos Ayres Britto e Marco Aurélio.
Ao final do julgamento disse o presidente do Supremo Tribunal
Federal, ministro Maurício Corrêa, 'essa decisão
ao meu ver tem uma importância capital não só
para todos aqueles que defendem os direitos civis no mundo, mas
sobretudo para nós que integramos a Corte Suprema do nosso
país, particularmente para mim que fui constituinte e um
dos defensores do artigo da Constituição que atribui
a imprescritibilidade e inafiançabilidade aos crimes de
racismo, é claro que racismo hoje mais no sentido de preconceito,
pois no sentido antropológico-científico não
existem mesmo raças'.
As palavras do ministro referem-se especificamente ao fato de
que Ellwanger queria se livrar da acusação de racismo,
justamente por ser um crime imprescritível. E ainda ao
fato do ministro Marco Aurélio ter defendido ontem que
o legislador quando fez a Constituição pensava apenas
na discriminação contra os negros, e não
contra outras etnias. Assim, o ministro Maurício Corrêa
que participou da elaboração da Constituição
deu o seu depoimento, de que a lei não se refere a apenas
um grupo étnico em particular, o que foi corroborado por
outros ministros.
O final deste julgamento marca o fim de uma longa caminhada de
quinze anos, iniciada quando a Editora Revisão, de propriedade
do acusado, lançou a primeira obra com grande estardalhaço
publicitário na praia de Capão da Canoa, no Rio
Grande do Sul, freqüentada pela maioria da comunidade judaica
gaúcha. Estarrecidos os judeus, muitos dos quais sobreviventes
dos campos de concentração nazistas ou que tiveram
seus pais, avós e outros familiares assassinados pelo único
e exclusivo fato de serem judeus, viram no livro 'Holocausto Judeu
ou Alemão, nos bastidores da mentira do século'`,
de autoria de Ellwanger, a negação dos acontecimentos
deste período trágico da história da humanidade,
o qual originou a própria criação da ONU.
Mesmo condenado, Ellwanger continua a oferecer para os incautos
seus livros racistas por intermédio de sites na Internet
cujos servidores estão localizados fora do País.