Vamos falar sobre as palavras.
Mais precisamente, sobre a fala. Do ponto de vista científico,
tem-se como definitivo que a grande diferença entre os
homens e os animais é o pensamento, a capacidade de raciocínio,
o livre arbítrio. Já, sob a ética judaica,
tem-se como grande diferença a capacidade de falar. Não
devemos esquecer que esta interpretação pode ser
uma adaptação do ponto de vista alegórico.
Já que o falar é uma conseqüência direta
do pensar, do raciocinar, do decidir. Portanto, seguindo esta
linha de raciocínio, temos um encadeamento lógico:
tenho a intenção de fazer algo (por exemplo, tomar
um copo de água), penso (ou decido, ou digo) que vou então
tomar um copo de água, e, finalmente, esta intenção,
seguida de uma decisão, é materializada no ato em
si: tomei um copo de água. O que está ausente nos
animais, neste encadeamento, é exatamente o pensamento
(ou a decisão, ou ainda, e finalmente, o que se diz: vou
tomar água); o animal sente sede, e toma água. Ponto:
rata-sede uma atividade instintiva.
Chegamos então à importância da palavra dita
(conseqüência, não percamos esta perspectiva,
de raciocínio e decisão). A palavra assume então
uma importância sem paralelo na história da humanidade,
pela possibilidade de registro, e, principalmente, pela possibilidade
de argumentação. E, infelizmente, ponto pacífico,
pela possibilidade de ser usada como uma arma para difamar, humilhar,
mentir, insultar, depreciar, enfim, para uma série de atividades
que nada mais resulta do que em problemas, problemas e mais problemas.
Sem tirar o mérito de escritores de primeira linha, poetas,
grandes críticos, pensadores e similares, a palavra é
um instrumento deveras perigoso.
A linguagem, a exemplo de postura e a exemplo da luta incessante
(e muitas vezes injustificada e demagógica) da corrente
do "politicamente correto", mostra a gritante contradição
existente nestas searas, assim como define o quanto estamos longe
de um linguajar correto e não ofensivo. Vamos explorar
aqui três exemplos bastante simples e corriqueiros.
Primeiro: os baianos. Coitados dos baianos. Ser baiano se tornou
sinônimo de pessoa que faz bobagens, que se veste mal, que
fala mal e que se porta mal. Uma vergonha e uma injustiça
para todos os brasileiros oriundos da Bahia, ou descendentes de
baianos. Quando um jovem de classe média vê em uma
vitrine uma camisa de estampa feia (na estreita concepção
dele) comenta: "Vi uma camisa de uma estampa baiano é
a mãe" (expressão usada para qualificar a suposta
feiúra da camisa). Isto sem dizer que termos como "baianada"
para mencionar o fato de alguém ter feito algo errado,
ou expressões que bem conhecemos, tornaram-se lugares comuns
em nosso vocabulário, sem o menor escrúpulo.
O que dizer então dos negros? Enquanto ficam insistindo
em que a terminologia correta é "afro", ninguém
se incomoda em utilizar o termo "denegrir" quando é
necessário mencionar que uma atitude está colocando
em questão, por exemplo, a moralidade de uma instituição
ou indivíduo. Uma vergonha, a utilização
deste termo, que dispensa comentários adicionais.
Finalmente, os judeus. Quanta gente utiliza o verbo "judiar"
para traduzir maus tratos. Trata-se de uma associação
no mínimo insultuosa para quem quer que tenha o menor conhecimento
do que tenha sido a Inquisição ou o Holocausto.
Mas o problema é maior. O problema é que, de tanto
abusar destas palavras politicamente incorretíssimas, mensagens
subliminares vão pouco a pouco tomando conta dos usuários.
E, todos sabemos, que quando existe a possibilidade de algo dar
errado, acaba dando errado. Tanto é verdade que, nas searas
paulistas, é comum associar bagunça com baianos,
assim como é comum associar atos de bandidagens a afros,
e mais um pouco, qualquer atitude de mau tratamento será
associada a judeus.
E para isto, só existe uma solução. O resgate
da linguagem correta, e principalmente, o combate à utilização
de termos tão ofensivos e incorretos. Afinal, por que não
dizer "fizeram besteiras" em vez de "fizeram baianada",
"prejudicar a imagem" em vez de "denegrir a imagem",
e "maltrataram o gatinho" em vez de "judiaram do
gatinho?".
A erradicação do uso destes termos, além
de ser uma luta obrigatória de qualquer pessoa de bem,
e do bem, traria, certamente, uma melhor harmonia entre todos
os envolvidos na babel cultural em que vivemos.
* Morris Abadi é administrador
de empresas