Visão Judaica - Edição N° 18
:. Sobre negros, baianos e judeus .:

Por: Morris Abadi*

Vamos falar sobre as palavras. Mais precisamente, sobre a fala. Do ponto de vista científico, tem-se como definitivo que a grande diferença entre os homens e os animais é o pensamento, a capacidade de raciocínio, o livre arbítrio. Já, sob a ética judaica, tem-se como grande diferença a capacidade de falar. Não devemos esquecer que esta interpretação pode ser uma adaptação do ponto de vista alegórico. Já que o falar é uma conseqüência direta do pensar, do raciocinar, do decidir. Portanto, seguindo esta linha de raciocínio, temos um encadeamento lógico: tenho a intenção de fazer algo (por exemplo, tomar um copo de água), penso (ou decido, ou digo) que vou então tomar um copo de água, e, finalmente, esta intenção, seguida de uma decisão, é materializada no ato em si: tomei um copo de água. O que está ausente nos animais, neste encadeamento, é exatamente o pensamento (ou a decisão, ou ainda, e finalmente, o que se diz: vou tomar água); o animal sente sede, e toma água. Ponto: rata-sede uma atividade instintiva.
Chegamos então à importância da palavra dita (conseqüência, não percamos esta perspectiva, de raciocínio e decisão). A palavra assume então uma importância sem paralelo na história da humanidade, pela possibilidade de registro, e, principalmente, pela possibilidade de argumentação. E, infelizmente, ponto pacífico, pela possibilidade de ser usada como uma arma para difamar, humilhar, mentir, insultar, depreciar, enfim, para uma série de atividades que nada mais resulta do que em problemas, problemas e mais problemas.
Sem tirar o mérito de escritores de primeira linha, poetas, grandes críticos, pensadores e similares, a palavra é um instrumento deveras perigoso.
A linguagem, a exemplo de postura e a exemplo da luta incessante (e muitas vezes injustificada e demagógica) da corrente do "politicamente correto", mostra a gritante contradição existente nestas searas, assim como define o quanto estamos longe de um linguajar correto e não ofensivo. Vamos explorar aqui três exemplos bastante simples e corriqueiros.
Primeiro: os baianos. Coitados dos baianos. Ser baiano se tornou sinônimo de pessoa que faz bobagens, que se veste mal, que fala mal e que se porta mal. Uma vergonha e uma injustiça para todos os brasileiros oriundos da Bahia, ou descendentes de baianos. Quando um jovem de classe média vê em uma vitrine uma camisa de estampa feia (na estreita concepção dele) comenta: "Vi uma camisa de uma estampa baiano é a mãe" (expressão usada para qualificar a suposta feiúra da camisa). Isto sem dizer que termos como "baianada" para mencionar o fato de alguém ter feito algo errado, ou expressões que bem conhecemos, tornaram-se lugares comuns em nosso vocabulário, sem o menor escrúpulo.
O que dizer então dos negros? Enquanto ficam insistindo em que a terminologia correta é "afro", ninguém se incomoda em utilizar o termo "denegrir" quando é necessário mencionar que uma atitude está colocando em questão, por exemplo, a moralidade de uma instituição ou indivíduo. Uma vergonha, a utilização deste termo, que dispensa comentários adicionais.
Finalmente, os judeus. Quanta gente utiliza o verbo "judiar" para traduzir maus tratos. Trata-se de uma associação no mínimo insultuosa para quem quer que tenha o menor conhecimento do que tenha sido a Inquisição ou o Holocausto.
Mas o problema é maior. O problema é que, de tanto abusar destas palavras politicamente incorretíssimas, mensagens subliminares vão pouco a pouco tomando conta dos usuários. E, todos sabemos, que quando existe a possibilidade de algo dar errado, acaba dando errado. Tanto é verdade que, nas searas paulistas, é comum associar bagunça com baianos, assim como é comum associar atos de bandidagens a afros, e mais um pouco, qualquer atitude de mau tratamento será associada a judeus.
E para isto, só existe uma solução. O resgate da linguagem correta, e principalmente, o combate à utilização de termos tão ofensivos e incorretos. Afinal, por que não dizer "fizeram besteiras" em vez de "fizeram baianada", "prejudicar a imagem" em vez de "denegrir a imagem", e "maltrataram o gatinho" em vez de "judiaram do gatinho?".
A erradicação do uso destes termos, além de ser uma luta obrigatória de qualquer pessoa de bem, e do bem, traria, certamente, uma melhor harmonia entre todos os envolvidos na babel cultural em que vivemos.

* Morris Abadi é administrador de empresas

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