Visão Judaica - Edição N° 18
:. Servindo D´us .:

Por: Edda Bergmann*


Todo dever judaico, em última análise, está envolvido com o amor a D-us. Quando alguém é sincero consigo mesmo, com a sociedade, com o seu povo, está sendo sincero com D-us.
Assim, a literatura judaica tradicional pouco conhece das distinções que introduzimos, para fins de estudo e análise, ao conceito de responsabilidade judaica. A mitzvá é um ato sagrado, a resposta do homem à vontade de D-us. É o momento de tempo no qual o homem conduz a si mesmo e seu mundo ao serviço de D-us, transformando-os pela vontade, tornado fato, dirigida para D-us. O judeu faz o bem porque assim lhe é ordenado fazer.
O Rabi Simlai disse que havia 613 mandamentos básicos, mas através da elaboração e da especificação há ao todo, na vida judaica muitos mais.
O clímax de todo dever do judeu envolve os atos imediatamente e diretamente relacionados com o próprio D-us, aqueles que provocam o sentimento contínuo de sua presença.
O conhecimento de D-us, para o judeu, significa conhecer a si mesmo como um indivíduo sujeito a um mandamento. Aproximar-se de D-us é, por conseguinte, o mandamento supremo.
De todos os deveres que poderiam ser considerados em relação a D-us, não há nenhum que prove sua existência. Do ponto de vista judaico, a existência de D-us é coisa tacitamente aceita. No começo mesmo de vida judaica, conforme está registrado na Bíblia, um universo sem D-us seria algo inimaginável depois de tudo o que aconteceu a Israel.
O êxodo, o pacto no Sinai, tudo aponta para um poder além do homem. Israel viu sua fé confirmada na sua história posterior, na grandiosidade da natureza e na experiência íntima do homem.
Na Idade Média, quando o judaísmo foi posto em confronto com os desafios do racionalismo árabe e cristão, os filósofos judeus tentaram formular demonstrações sistemáticas da existência de D-us, mas isto permaneceu apenas como uma preocupação de uma elite intelectual.
Para a maioria, dava-se ênfase ao que D-us esperava do homem mais do que à especulação do homem sobre a existência e essência de D-us.
A primeira aproximação judaica ao Todo Poderoso foi para oferecer sacrifícios. A Bíblia registra, entretanto, que havia indivíduos que não hesitavam em falar com D-us, que ofereciam palavras de louvor e gratidão, que externavam expressões de fé e confiança. Com o tempo, a prece tornou-se comum e, quando o Templo foi destruído em 70 D.C., a liturgia de grupo substituiu o sistema sacrificial. Tal prece, embora baseada no esforço individual, não podia confiar no capricho de cada um.
Como recurso central através do qual todo o povo pudesse se aproximar de seu Pai e renovar sua relação com Ele, era necessária uma estrutura.
Os judeus ainda se sentiam encorajados a rogar o que quer que seus corações aspirassem, mas começou a se desenvolver uma liturgia formal que possibilitasse a todos os membros da casa de Israel orarem juntos por si e por todo o povo.
Quando cada judeu se juntava a seu povo na prece, adquiria a sensação de pertencer ao povo de Israel, reunindo-se a este diante de seu D-us, e uma nova experiência religiosa judaica comunal e pessoal surgiu. A prece comunal tornou-se assim um dos deveres do judeu.
Enquanto que outros povos e outras religiões têm ensinado a necessidade da prece, o judaísmo é o único que continua a sustentar que o estudo é igualmente uma via que leva diretamente a D-us.
A literatura judaica clássica repete sempre a necessidade do estudo como um dever religioso fundamental. O "ignoramus", como disse Hillel, não pode ser realmente piedoso. A finalidade do aprendizado não é utilitária - conseguir um emprego melhor ou obter maior poder. É ter como ideal adquirir dignidade e respeito.
A finalidade do aprendizado é descobrir mais sobre a lei e conhecimento sagrados de D-us. É descobrir o desígnio de D-us e aprender o que os homens devem fazer a fim de viverem este desígnio.
Os heróis da cultura judaica através das épocas não foram guerreiros ou generais - os judeus admiram o "talmid hakham", o "estudante sábio", o homem de estudo. Realmente, nem todo judeu pode ser um estudioso, mas todos os que aceitam os valores judaicos reverenciam o estudioso e procuram, por sua vez, conhecer um pouco - ao menos aquilo que regularmente faz parte das preces matinais.
A prece e o estudo não são os únicos caminhos que levam a uma vida religiosa. Há também numerosos atos rituais a serem praticados, que dão um contexto sagrado ao dia, à semana, ao ano, à vida individual. Eles dão ao judeu um sentimento da santidade do tempo. Primordial é a observância do sábado, o dia mais sagrado do calendário judaico, o único mencionado no Dez Mandamentos. É um dia preenchido por um cerimonial especial e impregnado de um espírito único.
Sua mensagem de descanso, de cessação de trabalho, das necessidades do espírito, tem uma significação especial na nossa época inquietante.
Finalmente e atingindo a seu ponto mais alto, estes deveres culminam no amor a D-us. O judaísmo compreende que alguns podem adorar a D-us e cumprir os Seus mandamentos porque temem Sua força e Seu poder.
Entretanto, os rabinos insistem no que está na Bíblia, que D-us é melhor servido por amor. Eis que, até hoje, a proclamação "Escutai, ó Israel" no ritual judaico é imediatamente seguida, por decreto rabínico, pelo parágrafo bíblico que começa assim "E amarás ao Senhor Teu D-us de todo o teu coração, de toda a tua alma, e com todas as todas forças"... O amor a D-us é o primeiro dever do homem que proclama D-us como o Único e o Último.

* Edda Bergmann é presidente da B'nai B'rith do Brasil

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