Todo dever judaico, em última análise, está
envolvido com o amor a D-us. Quando alguém é sincero
consigo mesmo, com a sociedade, com o seu povo, está sendo
sincero com D-us.
Assim, a literatura judaica tradicional pouco conhece das distinções
que introduzimos, para fins de estudo e análise, ao conceito
de responsabilidade judaica. A mitzvá é um ato sagrado,
a resposta do homem à vontade de D-us. É o momento
de tempo no qual o homem conduz a si mesmo e seu mundo ao serviço
de D-us, transformando-os pela vontade, tornado fato, dirigida
para D-us. O judeu faz o bem porque assim lhe é ordenado
fazer.
O Rabi Simlai disse que havia 613 mandamentos básicos,
mas através da elaboração e da especificação
há ao todo, na vida judaica muitos mais.
O clímax de todo dever do judeu envolve os atos imediatamente
e diretamente relacionados com o próprio D-us, aqueles
que provocam o sentimento contínuo de sua presença.
O conhecimento de D-us, para o judeu, significa conhecer a si
mesmo como um indivíduo sujeito a um mandamento. Aproximar-se
de D-us é, por conseguinte, o mandamento supremo.
De todos os deveres que poderiam ser considerados em relação
a D-us, não há nenhum que prove sua existência.
Do ponto de vista judaico, a existência de D-us é
coisa tacitamente aceita. No começo mesmo de vida judaica,
conforme está registrado na Bíblia, um universo
sem D-us seria algo inimaginável depois de tudo o que aconteceu
a Israel.
O êxodo, o pacto no Sinai, tudo aponta para um poder além
do homem. Israel viu sua fé confirmada na sua história
posterior, na grandiosidade da natureza e na experiência
íntima do homem.
Na Idade Média, quando o judaísmo foi posto em confronto
com os desafios do racionalismo árabe e cristão,
os filósofos judeus tentaram formular demonstrações
sistemáticas da existência de D-us, mas isto permaneceu
apenas como uma preocupação de uma elite intelectual.
Para a maioria, dava-se ênfase ao que D-us esperava do homem
mais do que à especulação do homem sobre
a existência e essência de D-us.
A primeira aproximação judaica ao Todo Poderoso
foi para oferecer sacrifícios. A Bíblia registra,
entretanto, que havia indivíduos que não hesitavam
em falar com D-us, que ofereciam palavras de louvor e gratidão,
que externavam expressões de fé e confiança.
Com o tempo, a prece tornou-se comum e, quando o Templo foi destruído
em 70 D.C., a liturgia de grupo substituiu o sistema sacrificial.
Tal prece, embora baseada no esforço individual, não
podia confiar no capricho de cada um.
Como recurso central através do qual todo o povo pudesse
se aproximar de seu Pai e renovar sua relação com
Ele, era necessária uma estrutura.
Os judeus ainda se sentiam encorajados a rogar o que quer que
seus corações aspirassem, mas começou a se
desenvolver uma liturgia formal que possibilitasse a todos os
membros da casa de Israel orarem juntos por si e por todo o povo.
Quando cada judeu se juntava a seu povo na prece, adquiria a sensação
de pertencer ao povo de Israel, reunindo-se a este diante de seu
D-us, e uma nova experiência religiosa judaica comunal e
pessoal surgiu. A prece comunal tornou-se assim um dos deveres
do judeu.
Enquanto que outros povos e outras religiões têm
ensinado a necessidade da prece, o judaísmo é o
único que continua a sustentar que o estudo é igualmente
uma via que leva diretamente a D-us.
A literatura judaica clássica repete sempre a necessidade
do estudo como um dever religioso fundamental. O "ignoramus",
como disse Hillel, não pode ser realmente piedoso. A finalidade
do aprendizado não é utilitária - conseguir
um emprego melhor ou obter maior poder. É ter como ideal
adquirir dignidade e respeito.
A finalidade do aprendizado é descobrir mais sobre a lei
e conhecimento sagrados de D-us. É descobrir o desígnio
de D-us e aprender o que os homens devem fazer a fim de viverem
este desígnio.
Os heróis da cultura judaica através das épocas
não foram guerreiros ou generais - os judeus admiram o
"talmid hakham", o "estudante sábio",
o homem de estudo. Realmente, nem todo judeu pode ser um estudioso,
mas todos os que aceitam os valores judaicos reverenciam o estudioso
e procuram, por sua vez, conhecer um pouco - ao menos aquilo que
regularmente faz parte das preces matinais.
A prece e o estudo não são os únicos caminhos
que levam a uma vida religiosa. Há também numerosos
atos rituais a serem praticados, que dão um contexto sagrado
ao dia, à semana, ao ano, à vida individual. Eles
dão ao judeu um sentimento da santidade do tempo. Primordial
é a observância do sábado, o dia mais sagrado
do calendário judaico, o único mencionado no Dez
Mandamentos. É um dia preenchido por um cerimonial especial
e impregnado de um espírito único.
Sua mensagem de descanso, de cessação de trabalho,
das necessidades do espírito, tem uma significação
especial na nossa época inquietante.
Finalmente e atingindo a seu ponto mais alto, estes deveres culminam
no amor a D-us. O judaísmo compreende que alguns podem
adorar a D-us e cumprir os Seus mandamentos porque temem Sua força
e Seu poder.
Entretanto, os rabinos insistem no que está na Bíblia,
que D-us é melhor servido por amor. Eis que, até
hoje, a proclamação "Escutai, ó Israel"
no ritual judaico é imediatamente seguida, por decreto
rabínico, pelo parágrafo bíblico que começa
assim "E amarás ao Senhor Teu D-us de todo o teu coração,
de toda a tua alma, e com todas as todas forças"...
O amor a D-us é o primeiro dever do homem que proclama
D-us como o Único e o Último.
* Edda Bergmann é
presidente da B'nai B'rith do Brasil