De Israel - Me lembro de
ter escrito sobre as montanhas do Iraque, suas incontáveis
cavernas e as hipóteses de Saddam Hussein ter nelas quartel-general
completo. Não foi por acaso que as historias de Ali Babá
nasceram em Bagdá. Agora, fontes americanas dizem que ele
se esconde perto da cidade de Tikrit, de sua família e
tribo, onde sempre pode contar com ajuda. É obvio que a
resistência aos americanos não é de iniciativas
individuais. Um atentado exige recursos e planejamento. Podem
acontecer iniciativas de uma só pessoa, mas ela precisará
de ajuda.
Nesses meses se verifica que o ataque militar foi bem planejado.
E a ocupação mal pensada desde os primeiros segundos.
Espantoso o fracasso dos mais bem instrumentados meios de informação.
Os dados existiam. Não houve gente competente para interpretá-los.
O mais elementar em teoria de comunicação é
que só se entende com o que se sabe. Equivale ao mandamento
da teoria de guerra: conheça seu inimigo. Terá havido
arrogância, excesso de autoconfiança? Certeza que
o povo comemoraria o fim de Saddam, e seu sanguinário regime?
Democracia? Esqueceu-se que democracia é um valor desconhecido
pelas massas da região, condicionadas por gerações
vividas sob sistemas autocráticos. Uma abstração.
Vale o que se necessita. A liberdade da fome e a ordem pública
são as básicas. As demais, de pensamento, expressão,
religião, seguem-se. Não é apreciação
cínica. O que aconteceu logo em seguida, e prossegue, comprova.
Não se tem exato conhecimento do que acontece no Iraque.
Fala-se, principalmente, da morte de soldados americanos. Atentados
em Bagdá. O que está acontecendo com tropas de outros
países coligados com os americanos? Nós, da mídia,
fizemos péssimo trabalho nesta guerra. Poucos textos contam
a tragédia do homem. Ainda não é possível
desenhar um quadro. Verdade que as guerras atuais se fazem com
aparelhos ultra-sofisticados. Mas há homem por trás
deles. E seres como vítimas. Ainda não é
guerra de clones. Acontece que a imagem que se recebe é
nublada. E ainda não se sabe a verdade de coisa alguma
a começar dos verdadeiros motivos de tudo isto. Vivemos
a chamada era da comunicação instantânea de
que derivam grandes confusões. Em que acreditar? Em quem?
São demais as alternativas. E se verifica que há
um peso excessivo de opiniões mesmo no chamado relato de
fatos. No Iraque muita coisa se decide. Para começar como
serão os Estados Unidos depois das próximas eleições
presidenciais? Vão tentar se recolher dentro deles mesmos?
Vão levar adiante a política de reorganizarem a
ordem mundial? Vão continuar, insistindo "na guerra
declarada por Bush ao terrorismo?" Novas forças terão
condições de disputar a hegemonia com os americanos?
Quais? Como?
A questão do Iraque é extremamente complexa e está
sendo reduzida a uma discussão sobre culpas com vistas
às eleições americanas até pela mídia
não americana! E se o eleitorado americano mandar Bush
para casa no próximo ano? Tudo será resolvido? Um
processo foi deslanchado que não pode ser interrompido
por força alguma.
Quantos sabem que os xiitas liderados pelo antiamericano Moqtada
al-Sadr estão montando um governo na sua cidade santa de
Najaf, no Iraque? Santa para os xiitas iranianos, libaneses e
etc. Sadr comanda uma força de dezenas de milhares de combatentes.
O sheik (clérigo) Abdul Haji al-Daraj, proclamou que Najaf
é proibida aos americanos. "Sim aos mártires"
proclamam lideres xiitas cuja seita se caracteriza pelo sacrifício
e martírio. "Não há D-us a não
ser Alah", gritam eles. E que a monarquia da Arábia
Saudita teme pela ascensão dos xiitas, seus inimigos na
fé. E a seita sunita, majoritária entre os muçulmanos,
também se opõe à ocupação.
São nomes estranhos, dos indivíduos e seitas. Mas
temos de aprendê-los, pois representam mais de um bilhão
de crentes no mundo. A Conferência da Organização
dos Países Islâmicos acaba de emitir resolução
exigindo a retirada americana do Iraque.
Os candidatos a candidato à presidência americana
já estão em campanha. E, claro, criticam Bush e
suas políticas. Está certo e faz parte. Mas a questão
não é mais Bush. É todo um quadro político
de criar uma ordem nova no mundo. O processo promoveu a fermentação
de inúmeras possibilidades. O potencial de conflitos está
ai. Ficar discutindo Bush é escapismo. A questão
é de como dar uma boa direção ao que acontece.
O que se pode fazer para que não precipite conflitos em
cadeia. Com tantas armas disponíveis, sem devido controle
e falta de lideranças lúcidas na nossa era, a coisa
vai ficando perigosa demais. É o mundo.
* Nahum Sirotsky é
jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista do Último
Segundo/IG. A publicação desta coluna tem a autorização
do autor