Visão Judaica - Edição N° 18
:. No Iraque Xiitas criam seu governo .:

Por: Nahum Sirotsky*

De Israel - Me lembro de ter escrito sobre as montanhas do Iraque, suas incontáveis cavernas e as hipóteses de Saddam Hussein ter nelas quartel-general completo. Não foi por acaso que as historias de Ali Babá nasceram em Bagdá. Agora, fontes americanas dizem que ele se esconde perto da cidade de Tikrit, de sua família e tribo, onde sempre pode contar com ajuda. É obvio que a resistência aos americanos não é de iniciativas individuais. Um atentado exige recursos e planejamento. Podem acontecer iniciativas de uma só pessoa, mas ela precisará de ajuda.
Nesses meses se verifica que o ataque militar foi bem planejado. E a ocupação mal pensada desde os primeiros segundos. Espantoso o fracasso dos mais bem instrumentados meios de informação. Os dados existiam. Não houve gente competente para interpretá-los. O mais elementar em teoria de comunicação é que só se entende com o que se sabe. Equivale ao mandamento da teoria de guerra: conheça seu inimigo. Terá havido arrogância, excesso de autoconfiança? Certeza que o povo comemoraria o fim de Saddam, e seu sanguinário regime? Democracia? Esqueceu-se que democracia é um valor desconhecido pelas massas da região, condicionadas por gerações vividas sob sistemas autocráticos. Uma abstração. Vale o que se necessita. A liberdade da fome e a ordem pública são as básicas. As demais, de pensamento, expressão, religião, seguem-se. Não é apreciação cínica. O que aconteceu logo em seguida, e prossegue, comprova.
Não se tem exato conhecimento do que acontece no Iraque. Fala-se, principalmente, da morte de soldados americanos. Atentados em Bagdá. O que está acontecendo com tropas de outros países coligados com os americanos? Nós, da mídia, fizemos péssimo trabalho nesta guerra. Poucos textos contam a tragédia do homem. Ainda não é possível desenhar um quadro. Verdade que as guerras atuais se fazem com aparelhos ultra-sofisticados. Mas há homem por trás deles. E seres como vítimas. Ainda não é guerra de clones. Acontece que a imagem que se recebe é nublada. E ainda não se sabe a verdade de coisa alguma a começar dos verdadeiros motivos de tudo isto. Vivemos a chamada era da comunicação instantânea de que derivam grandes confusões. Em que acreditar? Em quem? São demais as alternativas. E se verifica que há um peso excessivo de opiniões mesmo no chamado relato de fatos. No Iraque muita coisa se decide. Para começar como serão os Estados Unidos depois das próximas eleições presidenciais? Vão tentar se recolher dentro deles mesmos? Vão levar adiante a política de reorganizarem a ordem mundial? Vão continuar, insistindo "na guerra declarada por Bush ao terrorismo?" Novas forças terão condições de disputar a hegemonia com os americanos? Quais? Como?
A questão do Iraque é extremamente complexa e está sendo reduzida a uma discussão sobre culpas com vistas às eleições americanas até pela mídia não americana! E se o eleitorado americano mandar Bush para casa no próximo ano? Tudo será resolvido? Um processo foi deslanchado que não pode ser interrompido por força alguma.
Quantos sabem que os xiitas liderados pelo antiamericano Moqtada al-Sadr estão montando um governo na sua cidade santa de Najaf, no Iraque? Santa para os xiitas iranianos, libaneses e etc. Sadr comanda uma força de dezenas de milhares de combatentes. O sheik (clérigo) Abdul Haji al-Daraj, proclamou que Najaf é proibida aos americanos. "Sim aos mártires" proclamam lideres xiitas cuja seita se caracteriza pelo sacrifício e martírio. "Não há D-us a não ser Alah", gritam eles. E que a monarquia da Arábia Saudita teme pela ascensão dos xiitas, seus inimigos na fé. E a seita sunita, majoritária entre os muçulmanos, também se opõe à ocupação.
São nomes estranhos, dos indivíduos e seitas. Mas temos de aprendê-los, pois representam mais de um bilhão de crentes no mundo. A Conferência da Organização
dos Países Islâmicos acaba de emitir resolução exigindo a retirada americana do Iraque.
Os candidatos a candidato à presidência americana já estão em campanha. E, claro, criticam Bush e suas políticas. Está certo e faz parte. Mas a questão não é mais Bush. É todo um quadro político de criar uma ordem nova no mundo. O processo promoveu a fermentação de inúmeras possibilidades. O potencial de conflitos está ai. Ficar discutindo Bush é escapismo. A questão é de como dar uma boa direção ao que acontece. O que se pode fazer para que não precipite conflitos em cadeia. Com tantas armas disponíveis, sem devido controle e falta de lideranças lúcidas na nossa era, a coisa vai ficando perigosa demais. É o mundo.

* Nahum Sirotsky é jornalista, correspondente da RBS em Israel e colunista do Último Segundo/IG. A publicação desta coluna tem a autorização do autor


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