Visão Judaica - Edição N° 18
:. Alemães assistem " O Pianista" de Roman Polanski.:

Por: William Grim*

Há uma velha piada que diz: dentro de cada alemão há um nazista pulsando por sair. Ainda que um tanto exagerada, lamento informar que há mais que um pouco de verdade nesse antigo ditado. Mas isso deixo para mais tarde.
Há pouco tempo tive a oportunidade de assistir em Munique a exibição do novo filme de Roman Polanski, "O pianista", uma película que já está em cartaz nos Estados Unidos. É baseada na história verdadeira do virtuoso pianista polonês judeu Wladyslaw Szpilman, que sobreviveu a toda ocupação nazista de Varsóvia escondido primeiro no gueto e depois bem embaixo dos próprios narizes dos nazistas, em casas seguras mantidas pela resistência polonesa.
Digo simplesmente que o filme de Polanksi é uma obra-prima. É consideravelmente melhor que "A lista de Schindler" e é indubitavelmente a melhor película sobre o Holocausto de todos os tempos. "O pianista" já ganhou a "Palma de Ouro" de Cannes. E por isso mereceu ganhar três prêmios "Oscar".
O notável sobre o filme é sua brutal e crua honestidade. Evita o sentimentalismo barato que danificou, de outro modo exemplar, "A Lista de Schindler". Também evita, tanto quanto possível, cair em estereótipos. Nem todos os judeus se comportaram com nobreza e um oficial nazista ao final do filme é mostrado como tendo ao menos um gesto de humanidade conservado em sua alma condenada. Adrien Brody oferece uma atuação contundente como Wladyslaw Szpilman, um papel de grande exigência posto que está presente em quase todas as cenas. A estética cinematográfica é brilhante, ainda quando não estamos vendo o personagem em ação e os acontecimentos se mostrem de seu ponto de vista como se estivéssemos espiando junto com ele de seus esconderijos e vemos os alemães assassinando judeus pelo mero prazer de fazê-lo, e também mais adiante, os alemães recebendo um pouco de seu próprio "remédio" ao iniciar o Levante de Varsóvia.
Além de expor o amplo espectro dos horrores alemães que constituíram o Holocausto - não quero contar demasiado da película, mas há uma cena na qual os alemães executam sumariamente uma família completa de judeus, tão comovedora em sua brutalidade que você irá querer ir embora para sua casa e quebrar uma por uma cada peça de porcelana de Dresden de sua louça e destruir a golpes os BMW e Mercedes que ver na rua. "O pianista" é um testamento para o infatigável espírito da vida que se recusa a "entrar amavelmente na noite". Em particular, a influência humanizadora da arte, do desejo de criar, se justapõe sagazmente na narrativa de Polanski ao desejo alemão de destruir, inclusive a tendência alemã de abraçar todas as formas negativas do universo. Na batalha entre a matéria artística e a anti-matéria alemã, é a arte a que triunfa ao final.
O execrável filósofo alemão marxista Theodoro W. Adorno (que é mais conhecido hoje como o modelo para o personagem de Wendall Kretzschmar, uma das manifestações do demônio na novela "Doutor Fausto" de Thomas Mann), assinalou uma vez notoriamente que "não pode haver arte depois de Auschwitz". Ainda que Adorno não fosse nazista (por certo, passou a Segunda Guerra exilado em Hollywood, onde ocupava seu tempo com denúncias aos Estados Unidos e em ridicularizar a cultura norte-americana, especialmente o "jazz negro"), seu esforço por negar a arte àqueles que haviam sido brutalizados por seus concidadãos revela uma arrogância tão profunda que está simplesmente mais além da possibilidade de análise. É também uma clara
demonstração de quão facilmente os alemães (sejam de esquerda ou de direita) caem no risível delírio de que de alguma maneira constituem a "raça superior". Porque o que em realidade está dizendo Adorno é que se a cultura alemã caiu em semelhante degradação, nada mais tem a permissão de buscar o sentido e o prazer a partir da arte.
Só pode haver uma resposta a Adorno, e pode-se encontrá-la na cena final de "O pianista".A guerra tinha terminado e a vida voltou a Varsóvia.
Wladyslaw Szpilman está interpretando um concerto acompanhado por uma grande orquestra. Não há palavras, e a cena continua enquanto se lêem os créditos. Mas a mensagem é clara. E o dedo maior da mão levantado, sustentado com orgulho e apontando a Alemanha, aos remanescentes do partido nazista e a Theodoro W. Adorno.
Agora voltemos aos alemães desejosos de redescobrir o seu nazi interno. Devo admitir que é uma experiência estranha ver um filme sobre o Holocausto na Alemanha. É ainda mais estranho quando se é o único norte-americano em meio a 200 alemães. Mas talvez o mais estranho de tudo seja observar as reações dos alemães aos acontecimentos mostrados pela película. Fala-se muito sobre a vergonha que dizem os alemães sentir hoje frente a conduta de seus concidadãos durante o período nazista e sobretudo o mais que fizeram a ser desculpados por seus pecados do passado. Não compre esse
argumento. Se o público com o que vi a película é uma amostra das atitudes dos alemães em geral, não augura nada bom para o futuro.
Recordem, não se tratava de um público composto por skinheads dos enclaves neonazistas de Karlsruhe da ex-República Democrática. Era um grupo formado pelo melhor da Alemanha: cidadãos educados, de classe média de uma grande cidade cosmopolita.
Uma cena em particular ficou impressa na minha consciência. Acontece no meio da película. Os judeus de Varsóvia são enviados ao gueto. Uma rua usada pelos alemães divide o gueto. Enquanto um grupo de judeus está esperando para cruzar o outro lado da rua, uns nazistas de baixa patente obrigam velhos judeus a dançar a uma velocidade cada vez maior. Debilitados pela desnutrição, mancando sobre suas muletas, carcomidos por enfermidades cardíacas e pulmonares, muitos caem no chão em plena agonia. É uma cena insuportável. É o tipo de cena que te faz envergonhar de ter um nome alemão como o meu.
É o tipo de cena que te faz envergonhar de escutar Beethoven. Se um soldado norte-americano tivesse feito o mesmo a um prisioneiro de guerra alemão ou japonês teria sido preso por isso ou expulso do serviço. Mas ali estavam os alemães de hoje, educados, defensores da liberdade, os alemães do "dêmo-nos-as-mãos-e-amemo-nos-uns-aos-outros", rindo ante a tortura.
Desconheço se há algum espetáculo mais doentio que o de alemães encontrando humor no que seus pais e avós fizeram aos judeus, se há um exemplo mais perfeito da definitiva ausência de humanidade no fundo da nação alemã. Há algo terrivelmente mau e distorcido na Alemanha e no povo alemão. A alma alemã é um profundo abismo, um pântano fétido e malcheiroso que repugna a comunidade das nações. Mas esperem, tem mais. Outra cena da película que se destaca é quando um guarda SS anuncia a um grupo de trabalhadores judeus esfomeados que receberão uma porção adicional de pão com suas rações, para que a vendam aos outros judeus porque "todos sabem da habilidade dos judeus para vender coisas". O mesmo público desabava em gargalhadas. Senti-me tentado a chamar a aviação para bombardear o cinema ou quando menos esbofetear esses duzentos alemães, mas contive minha indignação porque sabemos que qualquer filme sobre a Segunda Guerra termina sempre mal para os alemães.
Normalmente permaneço em silêncio quando estou num cinema, mas devo admitir que desta vez gritei o nome de meu país quando a família Szpilman escutou o anúncio no rádio de que os Estados Unidos haviam declarado guerra à Alemanha. E também devo admitir que me senti muito bem quando gritei "matem esses nazistas do demônio" quando o filme mostrou os judeus resistindo durante a revolta.
É raro ver como o público permaneceu tranqüilo quando próximo do final do filme se viu um grupo de nazistas em um campo de detenção esperando seu transporte ao cruel e merecido destino dos gulags soviéticos. E depois foi claro como a água. A vergonha alemã pela Segunda Guerra não é o resultado da conscientização moral dos
inumeráveis delitos e atrocidades cometidos pelos alemães. Não. Os alemães estão envergonhados porque seus traseiros foram limpos por um bando de ianques, russinhos e inglesinhos desprezíveis, a quem consideravam - e ainda consideram - como membros de raças inferiores.
Depois do filme fui para Schellingstrasse, em Schwabing, distrito de Munique. Passei por casualidade por onde estava localizada a sede original do partido nazista. Agora é uma empresa de decoração de interiores. Muito apropriado. Na superfície, a Alemanha pode parecer um país mudado, muito distante do auge de seu período nazista. Mas é uma fachada. O revestimento das paredes e do piso pode ser novo, os retratos de Hitler podem ter sido substituídos por objetos de arte africana, mas as bases da estrutura continuam sendo nazistas.
E à medida que a economia alemã submerge mais em uma recessão que se deve em grande medida a si própria, enquanto os economistas alemães começam a advertir os paralelos perturbadores entre as economias de 2002 e de 1932, o problema segue sendo quanto levará até que os alemães permitam que seu nazista interno se expresse em público. O nazista eterno, temo, estará conosco enquanto exista uma nação alemã. "O pianista" é um grande filme e um relato de advertência porque a história tem o desafortunado costume de repetir-se a si mesma.

* William E. Grim é editor colaborador e um escritor que vive na Alemanha, mas nasceu em Columbus, Ohio, Estados Unidos. Pode ser contactado pelo e-mail wgrim@myrealbox.com. Este ensaio apareceu originalmente em 'ZC Portal' (http//www.hexabus.com/personal/Diana/index.html) sob o título "The Eternal Nazi: Watching Roman Polanski's The Pianist in Germany

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