Por: William
Grim*
Há uma velha piada que diz: dentro de cada alemão
há um nazista pulsando por sair. Ainda que um tanto exagerada,
lamento informar que há mais que um pouco de verdade nesse
antigo ditado. Mas isso deixo para mais tarde.
Há pouco tempo tive a oportunidade de assistir em Munique
a exibição do novo filme de Roman Polanski, "O
pianista", uma película que já está
em cartaz nos Estados Unidos. É baseada na história
verdadeira do virtuoso pianista polonês judeu Wladyslaw
Szpilman, que sobreviveu a toda ocupação nazista
de Varsóvia escondido primeiro no gueto e depois bem embaixo
dos próprios narizes dos nazistas, em casas seguras mantidas
pela resistência polonesa.
Digo simplesmente que o filme de Polanksi é uma obra-prima.
É consideravelmente melhor que "A lista de Schindler"
e é indubitavelmente a melhor película sobre o Holocausto
de todos os tempos. "O pianista" já ganhou a
"Palma de Ouro" de Cannes. E por isso mereceu ganhar
três prêmios "Oscar".
O notável sobre o filme é sua brutal e crua honestidade.
Evita o sentimentalismo barato que danificou, de outro modo exemplar,
"A Lista de Schindler". Também evita, tanto quanto
possível, cair em estereótipos. Nem todos os judeus
se comportaram com nobreza e um oficial nazista ao final do filme
é mostrado como tendo ao menos um gesto de humanidade conservado
em sua alma condenada. Adrien Brody oferece uma atuação
contundente como Wladyslaw Szpilman, um papel de grande exigência
posto que está presente em quase todas as cenas. A estética
cinematográfica é brilhante, ainda quando não
estamos vendo o personagem em ação e os acontecimentos
se mostrem de seu ponto de vista como se estivéssemos espiando
junto com ele de seus esconderijos e vemos os alemães assassinando
judeus pelo mero prazer de fazê-lo, e também mais
adiante, os alemães recebendo um pouco de seu próprio
"remédio" ao iniciar o Levante de Varsóvia.
Além de expor o amplo espectro dos horrores alemães
que constituíram o Holocausto - não quero contar
demasiado da película, mas há uma cena na qual os
alemães executam sumariamente uma família completa
de judeus, tão comovedora em sua brutalidade que você
irá querer ir embora para sua casa e quebrar uma por uma
cada peça de porcelana de Dresden de sua louça e
destruir a golpes os BMW e Mercedes que ver na rua. "O pianista"
é um testamento para o infatigável espírito
da vida que se recusa a "entrar amavelmente na noite".
Em particular, a influência humanizadora da arte, do desejo
de criar, se justapõe sagazmente na narrativa de Polanski
ao desejo alemão de destruir, inclusive a tendência
alemã de abraçar todas as formas negativas do universo.
Na batalha entre a matéria artística e a anti-matéria
alemã, é a arte a que triunfa ao final.
O execrável filósofo alemão marxista Theodoro
W. Adorno (que é mais conhecido hoje como o modelo para
o personagem de Wendall Kretzschmar, uma das manifestações
do demônio na novela "Doutor Fausto" de Thomas
Mann), assinalou uma vez notoriamente que "não pode
haver arte depois de Auschwitz". Ainda que Adorno não
fosse nazista (por certo, passou a Segunda Guerra exilado em Hollywood,
onde ocupava seu tempo com denúncias aos Estados Unidos
e em ridicularizar a cultura norte-americana, especialmente o
"jazz negro"), seu esforço por negar a arte àqueles
que haviam sido brutalizados por seus concidadãos revela
uma arrogância tão profunda que está simplesmente
mais além da possibilidade de análise. É
também uma clara
demonstração de quão facilmente os alemães
(sejam de esquerda ou de direita) caem no risível delírio
de que de alguma maneira constituem a "raça superior".
Porque o que em realidade está dizendo Adorno é
que se a cultura alemã caiu em semelhante degradação,
nada mais tem a permissão de buscar o sentido e o prazer
a partir da arte.
Só pode haver uma resposta a Adorno, e pode-se encontrá-la
na cena final de "O pianista".A guerra tinha terminado
e a vida voltou a Varsóvia.
Wladyslaw Szpilman está interpretando um concerto acompanhado
por uma grande orquestra. Não há palavras, e a cena
continua enquanto se lêem os créditos. Mas a mensagem
é clara. E o dedo maior da mão levantado, sustentado
com orgulho e apontando a Alemanha, aos remanescentes do partido
nazista e a Theodoro W. Adorno.
Agora voltemos aos alemães desejosos de redescobrir o seu
nazi interno. Devo admitir que é uma experiência
estranha ver um filme sobre o Holocausto na Alemanha. É
ainda mais estranho quando se é o único norte-americano
em meio a 200 alemães. Mas talvez o mais estranho de tudo
seja observar as reações dos alemães aos
acontecimentos mostrados pela película. Fala-se muito sobre
a vergonha que dizem os alemães sentir hoje frente a conduta
de seus concidadãos durante o período nazista e
sobretudo o mais que fizeram a ser desculpados por seus pecados
do passado. Não compre esse
argumento. Se o público com o que vi a película
é uma amostra das atitudes dos alemães em geral,
não augura nada bom para o futuro.
Recordem, não se tratava de um público composto
por skinheads dos enclaves neonazistas de Karlsruhe da ex-República
Democrática. Era um grupo formado pelo melhor da Alemanha:
cidadãos educados, de classe média de uma grande
cidade cosmopolita.
Uma cena em particular ficou impressa na minha consciência.
Acontece no meio da película. Os judeus de Varsóvia
são enviados ao gueto. Uma rua usada pelos alemães
divide o gueto. Enquanto um grupo de judeus está esperando
para cruzar o outro lado da rua, uns nazistas de baixa patente
obrigam velhos judeus a dançar a uma velocidade cada vez
maior. Debilitados pela desnutrição, mancando sobre
suas muletas, carcomidos por enfermidades cardíacas e pulmonares,
muitos caem no chão em plena agonia. É uma cena
insuportável. É o tipo de cena que te faz envergonhar
de ter um nome alemão como o meu.
É o tipo de cena que te faz envergonhar de escutar Beethoven.
Se um soldado norte-americano tivesse feito o mesmo a um prisioneiro
de guerra alemão ou japonês teria sido preso por
isso ou expulso do serviço. Mas ali estavam os alemães
de hoje, educados, defensores da liberdade, os alemães
do "dêmo-nos-as-mãos-e-amemo-nos-uns-aos-outros",
rindo ante a tortura.
Desconheço se há algum espetáculo mais doentio
que o de alemães encontrando humor no que seus pais e avós
fizeram aos judeus, se há um exemplo mais perfeito da definitiva
ausência de humanidade no fundo da nação alemã.
Há algo terrivelmente mau e distorcido na Alemanha e no
povo alemão. A alma alemã é um profundo abismo,
um pântano fétido e malcheiroso que repugna a comunidade
das nações. Mas esperem, tem mais. Outra cena da
película que se destaca é quando um guarda SS anuncia
a um grupo de trabalhadores judeus esfomeados que receberão
uma porção adicional de pão com suas rações,
para que a vendam aos outros judeus porque "todos sabem da
habilidade dos judeus para vender coisas". O mesmo público
desabava em gargalhadas. Senti-me tentado a chamar a aviação
para bombardear o cinema ou quando menos esbofetear esses duzentos
alemães, mas contive minha indignação porque
sabemos que qualquer filme sobre a Segunda Guerra termina sempre
mal para os alemães.
Normalmente permaneço em silêncio quando estou num
cinema, mas devo admitir que desta vez gritei o nome de meu país
quando a família Szpilman escutou o anúncio no rádio
de que os Estados Unidos haviam declarado guerra à Alemanha.
E também devo admitir que me senti muito bem quando gritei
"matem esses nazistas do demônio" quando o filme
mostrou os judeus resistindo durante a revolta.
É raro ver como o público permaneceu tranqüilo
quando próximo do final do filme se viu um grupo de nazistas
em um campo de detenção esperando seu transporte
ao cruel e merecido destino dos gulags soviéticos. E depois
foi claro como a água. A vergonha alemã pela Segunda
Guerra não é o resultado da conscientização
moral dos
inumeráveis delitos e atrocidades cometidos pelos alemães.
Não. Os alemães estão envergonhados porque
seus traseiros foram limpos por um bando de ianques, russinhos
e inglesinhos desprezíveis, a quem consideravam - e ainda
consideram - como membros de raças inferiores.
Depois do filme fui para Schellingstrasse, em Schwabing, distrito
de Munique. Passei por casualidade por onde estava localizada
a sede original do partido nazista. Agora é uma empresa
de decoração de interiores. Muito apropriado. Na
superfície, a Alemanha pode parecer um país mudado,
muito distante do auge de seu período nazista. Mas é
uma fachada. O revestimento das paredes e do piso pode ser novo,
os retratos de Hitler podem ter sido substituídos por objetos
de arte africana, mas as bases da estrutura continuam sendo nazistas.
E à medida que a economia alemã submerge mais em
uma recessão que se deve em grande medida a si própria,
enquanto os economistas alemães começam a advertir
os paralelos perturbadores entre as economias de 2002 e de 1932,
o problema segue sendo quanto levará até que os
alemães permitam que seu nazista interno se expresse em
público. O nazista eterno, temo, estará conosco
enquanto exista uma nação alemã. "O
pianista" é um grande filme e um relato de advertência
porque a história tem o desafortunado costume de repetir-se
a si mesma.
* William E. Grim é editor colaborador e um escritor que
vive na Alemanha, mas nasceu em Columbus, Ohio, Estados Unidos.
Pode ser contactado pelo e-mail wgrim@myrealbox.com. Este ensaio
apareceu originalmente em 'ZC Portal' (http//www.hexabus.com/personal/Diana/index.html)
sob o título "The Eternal Nazi: Watching Roman Polanski's
The Pianist in Germany