Visão Judaica - Edição N° 30
:. Vamos rodar o pião .:

 


Por: Sami Goldstein *


Sentado aqui, diante de meu computador, lembro-me de minha infância. Afinal, nesta época do ano, quando as aulas estão quase terminando e a correria cede lugar à tranqüilidade (principalmente para aqueles que, como eu, lecionam), sempre recordo as incríveis férias que passava ao lado de meus pais. Fantásticos dias de lazer e divertimento; mas, principalmente, tínhamos uns aos outros sem as preocupações do cotidiano. Tardes e mais tardes à frente da televisão, assistindo toda espécie de programas. Um deles era muito famoso àqueles que, como eu, não são assim tão jovens. Aos domingos, em uma época na qual não existia a TV a cabo e não havia muitas opções, um enorme pião era rodado diante das câmeras e a sorte era lançada. A expectativa era imensa (nem sei se este programa ainda existe). Uma grande fortuna ou o desespero de sair com as mãos abanando.
Por que lhes conto isso? Pois, pensando em algo para escrever-lhes hoje, deparei-me com um pequeno pião de madeira no canto de minha mesa. O que faz ele lá? Estamos próximos de Chanucá. Nú? Explico.
Embora jogos de azar sejam proibidos pela Lei Judaica, costuma-se, em Chanucá, jogar o sevivon, um pião de quatro faces, cada uma contendo uma letra do alfabeto hebraico, as quais formam a frase Nes Gadol Haiá Sham - um grande milagre aconteceu lá - sendo que, em Israel, troca-se a última letra por pei (de pó, aqui). A razão desta tradição remonta ao domínio sírio em Israel, durante o qual o estudo da Torá era proibido sob pena de morte. Para poderem “camuflar” suas reuniões de estudo, os judeus levavam consigo piões. E, assim que chegava um oficial sírio, fingiam estar se divertindo e se punham a girá-los.
Entretanto, um simples piãozinho pode conter o maior segredo de nossa vida. Quatro singulares letras:
? N (NUN) ? Nes, milagre: o simples fato de estarmos aqui, respirando, vivendo, já é um imenso milagre. Acaso nos damos conta das maravilhas que ocorrem ao nosso redor todos os dias? O nascer do sol, o canto dos pássaros, o vôo de uma borboleta, o sorriso de uma criança, o beijo da pessoa amada, o abraço carinhoso de um filho, o telefonema tão esperado, um e-mail ou bip de alguém especial, o delicado toque de uma mão amiga. Os milagres estão à nossa volta. Conseguimos senti-los? Talvez você diga: “mas tenho muitos problemas...”, “sinto-me perdido...”, ou “quero sumir...”. Nes, em hebraico, escreve-se NUN (N) e SAMECH (S). Uma interpretação diz o seguinte: (N)ofel – cai (S)omech – levanta. Ou seja, se você cair, levante-se. O milagre está em suas mãos. Crie o seu próprio!
? G (GUIMEL) ? Gadol, grande: Vivemos paradoxalmente. Quantificamos nossa satisfação pelo tamanho do que adquirimos, esquecendo-nos de que realmente grande é tudo aquilo que faz com que sejamos melhores seres humanos. Guimel é uma letra que se escreve inclinada, como que se entregasse à próxima. É com ela que escrevemos a palavra Gomel, dar, doar, praticar o bem. Uma grande vida é aquele através da qual outras vidas se enriquecem. Quando outras chamas se acendem, nossa própria luz fica mais brilhante e radiante. Fica Gadol!
? H (HÊ) ? Haiá, aconteceu, foi: o passado. Ah, o passado, com todas as suas cicatrizes e mágoas, conquistas e alegrias. E, se ele tem esse nome, é porque passou, não é mesmo? Portanto, no pião da vida, devemos deixar o passado no seu devido lugar. Devemos viver COM o passado, mas não NO passado. É para frente que olhamos, com novas batalhas e desafios. As lições de outrora são essenciais para a construção de nosso futuro, mas evitemos comparações entre o ONTEM e o HOJE. Aconteceu, foi. O que importa agora é o que é e acontece, será e acontecerá.
? SH (SHIN) ? Sham, lá: você tem um objetivo? Algo que gostaria que acontecesse ou se materializasse em sua vida? Quem sabe um amor, amizade ou simplesmente a felicidade? Feche os olhos. Provavelmente, você me dirá: “mas o que desejo está muito distante”. Resumindo: LÁ! Lembre-se de um detalhe: esta letra, no sevivon, pode ser trocada por P (PEI) e formar a palavra Pô, AQUI. Mas você não precisa mudar de país para que seus objetivos fiquem mais próximos. Precisa, sim, mudar a si mesmo. É tudo uma questão de atitude. Pois uma pessoa como você faz acontecer.
Agora que você tem o pião da vida em suas mãos, tente deixá-lo em pé. Conseguirá? Com certeza não, a menos que o gire com força. E, quando fazemos isso, permitimos que os quatro lados, as quatro letras se unam e caminhem numa só direção. Neste sevivon, não existem perdedores, pois você poderá rodá-lo e rodá-lo até conseguir tudo o que quiser. Vamos rodar o pião e deixar que nossa existência faça parte de um fantástico Nigun (melodia).

* Sami Goldstein é professor e líder espiritual da Sinagoga “Francisco Frischmann”, da Comunidade Israelita de Curitiba.

 




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