Por: J. Guinsburg *
O ídiche (ou iídiche, forma aportuguesada de iidisch) originou-se,
ao que tudo indica, nas áreas fronteiriças franco-germânicas, às
margens do Reno, por volta do séc. X. Aí, judeus vindos principalmente
da Itália e de outros países românicos adotaram o idioma
local, ou seja, o alto-alemão em sua passagem do período antigo
para o médio. Misturando-se desde logo com elementos do laaz (1),
correlativos judaicos em francês e italiano (2) arcaicos, com a terminologia
litúrgica, ritual, comercial e institucional do hebraico-aramaico,
isto é, o chamado laschon-kodesch, íd. loschen-koidesch ("língua
sagrada"), com palavras hebraico-aramaicas (3) ligadas à atividade
diária e eufemismos destinados a ocultar ao não-judeu o significado
dos termos, começaram a desenvolver o juedisch-deutsch, isto é,
o "judeu-alemão", nome que se alterou para iidisch-taitsch
("ídiche-alemão", sendo que o termo taitsch também
veio a significar "interpretação"), de onde derivou
o vocábulo iídiche.
Linguagem do cotidiano e sobretudo das mulheres, que não aprendiam
o idioma sagrado, o iidisch-taitsch, em sua época arcaica (Proto-ídiche,
1000 a 1250), não se diferenciou muito do médio alto-alemão,
embora, com os deslocamentos devidos às chacinas cometidas pelos Cruzados,
passasse a reunir também contribuições de diferentes
dialetos alemães, o que veio acentuar as suas características
de jargão específico da Judengasse ("rua dos judeus"),
do gueto (Velho-ídiche, 1250 a 1500). Em virtude das perseguições
sofridas no curso do Medievo, sucessivas ondas de judeus aschkanazitn (de
Aschkenaz, hebr. "Alemanha" e regiões adjacentes) emigraram
em massa para o leste da Europa e também para outras áreas,
como o norte da Itália, levando o seu dialeto como meio de comunicação
intragrupal, portanto já de uso generalizado para "todos" os
fins da vida coletiva.
Assim se expandiu o âmbito territorial do iidisch-taitsch, que se dividiu
durante o seu período médio (Médio-ídiche, 1500
a 1750) em dois ramos, quanto à evolução lingüística.
No Oeste, em que o centro principal foi a Alemanha até o séc.
XIX, permaneceu mais ligado às suas formas iniciais, sobretudo na
Alsácia e na Suíça, enquanto, no Leste, sua peculiaridade
se aprofundou. Adaptando-se ao novo contexto e assimilando numerosos étimos
e padrões lingüísticos eslavos (4), foi cristalizando
estruturas ainda mais inusitadas e próprias, que o conduziram ao estádio
do ídiche Moderno (de 1750 em diante) e definiram a sua feição
de idioma autônomo, distinto de tudo o que lhe deu origem.
Até a segunda metade do séc. XIX, entretanto, o mame-luschen,
a "língua da mamãe ou materna", na dupla implicação
do termo, era visto como um "jargão", mesmo por aqueles
que o empregavam não só para a comunicação diária.
Deixado ao sabor da "fala", sem qualquer disciplina gramatical
mais definida de "língua", demonstrava, no plano vocabular
e no caráter aberto de sua estrutura, larga capacidade criativa e
forte permeabilidade às influências locais. Por isso mesmo tendia
a regionalizar-se com grande facilidade, tendo desenvolvido, já no
séc. XVIII, dois grupos dialetais distinguíveis no quadro da
Europa Oriental: o do Norte, centrado na Lituânia, e o do Sul, que
abrangia a Polônia com forte peculiaridade, a Ucrânia e a Romênia.
Foi somente com o movimento da Hascalá ("Ilustração" judaica)
na Rússia, em sua fase populista, que esta situação
começou a modificar-se. Ao contrário de Mendelssohn e de seus
sequazes centro-europeus, que julgaram indispensável para o bom êxito
de seus ideais de modernização do judeu e da integração
deste nas "luzes" ocidentais eliminar como barbarismo lingüístico
o "patuá" do gueto e o seu efeito soi disant nefasto sobre
o "nobre" espírito do povo da Bíblia, os maskilim
("ilustrados") do Leste foram desde cedo levados a uma via oposta.
Embora tampouco ocultassem a sua recusa programática à fala
popular, proclamando e cultivando as virtudes do hebraico e do idioma oficial
do país, por razões propagandísticas e, mais tarde,
ideológico políticas, uma vez que o ídiche era o veículo
de entendimento coletivo, puseram-se a escrever em "jargão".
Na trilha aberta, foram seguidos quase imediatamente por socialistas, populistas
e "nacionalistas do Galut" que viram no ídiche o idioma
autóctone da nação, etnia ou minoria judaica nos estados
da Europa Oriental ou, para dizê-lo com o manifesto da Conferência
do ídiche de Tchernovitz em 1908, "a segunda língua nacional
do povo judeu". Era o signo de uma vasta produção literária
em ídiche e um vivo idichismo que, por seu turno, somando-se ao incremento
dos modernos meios de comunicação, aceleraram os processos
de consolidação e normatização lingüísticos,
a cujo serviço foram colocados os recursos da ciência moderna.
Este desenvolvimento prosseguiu com vigor até a Segunda Guerra Mundial,
quando foram arrancadas do solo europeu as raízes mais fundas do ídiche.
Em que pese a diferença, as correntes emigratórias, crescentes
a partir da segunda metade do séc. XIX, constituíram na América
importantes centros onde o ídiche foi largamente usado e cultivado.
Nos Estados Unidos sobretudo, mas caberia mencionar também o Canadá e
a Argentina, os recém-vindos continuaram a servir-se dele como principal
veículo de comunicação grupal interna e começaram
a adaptá-lo e aculturá-lo, à medida que se adaptavam
e se aculturavam, passando a empregar o inglês ou o espanhol como segunda
língua, para não dizer terceira. Afluiu assim, mais uma vez,
para um terreno idiomático tão fértil para esse tipo
de processo, uma significativa variedade de elementos de polinização,
enxerto e transplante lingüísticos, na forma de anglicismos e
espanholismos que expandiram o dicionário lexical do mame-luschen
e puseram-se a interagir com os seus modos de construir. A preservação
e o desenvolvimento do ídiche no novo contexto foram não menos
favorecidos pelo rápido surgimento de uma imprensa de grande circulação
e de um complexo ramificado de instituições religiosas, educacionais,
associativas, sindicais, culturais e políticas, em que os locutores
do ídiche podiam revitalizar a sua relação orgânica
com o idioma de origem e dar seiva renovadora à criação
artística e literária. Este processo manteve a sua vitalidade
enquanto, apesar do impacto dos fatores de aclimatação e assimilação,
não houve um estancamento total do fluxo fun der alter heim (da velha
pátria) que o irrigava e lhe trazia o húmus idichista.
Foi também nesse novo ambiente que os esforços encetados pelo
Yidischer Wissenchaftlicher Institut de Vilna viram-se coadjuvados e transpostos
para um organismo congênere, sediado em Nova York, que também
se dedicou aos estudos sistemáticos sobre a língua ídiche
e a sua frutificação cultural. Nele, principalmente após
a destruição dos grandes centros da vida judaica na Europa
Oriental, inclusive a Jerusalém lituana (Vilna), prosseguiram os trabalhos
de normatização idiomática, na linha do Yivo europeu,
que, em 1936, recomendara a adoção do dialeto setentrional
como base da reforma da prosódia ídiche e, em 1937, publicara
sua ortografia unificada. Dois lingüistas notabilizaram-se particularmente
nestas pesquisas filológicas, literárias e socioantropológicas
no núcleo americano, Max Weinreich (1894-1969) e Uriel Weinreich (1925-67),
pai e filho. Através de ambos, as disciplinas do ídiche começaram
a ingressar nos estudos universitários regulares dos Estados Unidos.
Em nossos dias, ao lado das israelenses, algumas das principais universidades
da Europa e das Américas integraram o ídiche em seu currículo.
O fato é digno de menção. Pois, independentemente da
imensa valia das investigações científicas efetuadas
nos quadros acadêmicos, a transferência para esse outro âmbito
adquire quase um caráter, senão simbólico, pelo menos
sintomático. Com efeito, em toda parte onde subsiste o interesse pelo ídiche
e onde grupos de falantes ou leitores idichistas se dispuseram a apoiar,
de um ou de outro modo, as tentativas de fazê-lo sobreviver, foi preciso,
pelo menos nos últimos 40 anos, recorrer a esse abrigo institucionalizado o
que é paradoxal em se tratando de uma fala da rua, da iidische gass para
de alguma forma manter o tronco vivo numa redoma ou numa estufa.
Em Israel, onde, afora grupos religiosos, parte da população,
em especial a de cepo aschkenazi, conserva ou até adquiriu certa familiaridade
com o ídiche a solução encontrada não tem sido
diferente, nem após a chegada das levas de judeus soviéticos,
que em sua maioria utilizam o russo como língua materna. Na ex-União
Soviética, dizem, houve um redespertar do interesse pelo ídiche,
mas em que termos, pode-se perguntar. Não consta que tenha voltado
a ser o instrumento lingüístico das massas de ievreis, nem sequer
que haja resistido na longínqua Birobidjan, mas, sim, que é motivo
de pesquisas e de resgates acadêmicos e literários, principalmente
em russo. Mesmo a onda de nostalgia e revaloração que varreu
o judaísmo do Ocidente aschkenazi, gerando numerosos e atualizados
estudos de toda ordem e traduções em uma amplitude jamais conhecida e
isso para não falar do extraordinário impacto causado pela
obra de Baschevis-Singer , não foi de molde, creio, a revigorar
algumas das condições sóciocomunicacionais e antropológicas
indispensáveis para que o ídiche, além de veículo
idiomático de grupos sectários, por grandes que sejam, levados
a ele por razões exclusivamente religiosas, possa explorar, com plenitude,
as fantásticas capacidades comunicativas, expressivas e criativas
que desenvolveu intrinsecamente.
Este rápido escorço diacrônico do ídiche põe
em relevo algumas questões que talvez mereçam ser repensadas
em outro plano. Por exemplo, o aparecimento e o desenvolvimento do ídiche
têm sido vinculados, pela visão historicista, não apenas
estreita porém organicamente, à mulher e às camadas
mais humildes e menos letradas do mundo europeu-central e europeu-oriental,
isto é, ao universo aschkenazi. Nada mais certo. Pois os dois grupos
de falantes, na medida em que não aprendiam e/ou não cultivavam
o loschen koidesch ("língua sagrada"), tiveram um papel
primordial no processo de constituição do dialeto judeu-alemão
e no uso preferencial deste como linguagem do cotidiano do grupo. Mas, ainda
assim, é preciso não esquecer que, em conjunto com eles, todos
os demais estratos da população do gueto aschkenazi, em quase
todas as circunstância da vida, usaram desde logo o mesmo veículo
idiomático. Ou seja, com exceção dos momentos em que
se entregavam à proferição das preces e dos textos do
culto ou à leitura e/ou redação dos escritos religiosos,
das obras de natureza ética, filosófica, narrativa e poética
(o verso profano hebraico, ainda que existente, era pouco difundido, a não
ser quando assumia a forma de piut, isto é, de hino cultual, ou era
inserido no devocionário), o judeu aschkenazi, talmid-hohem, rabino
ou homem comum, falava indistintamente o "jargão". E, o
que é mais importante, falava-o dentro de casa e fora, na tenda do
artífice ou do comerciante, nos encontros e nas relações
sociais de todos os níveis, nas antecâmaras rabínicas,
nas cortes de julgamentos, nas sinagogas e nas casas de estudo, nos heiders
e nas ieschives, quer dizer, não só na rua como nos próprios
focos de conservação e criação do judaísmo
aschkenazi daquelas épocas. Isto significa que todo o processo de
vida espiritual e material aschkenazi foi perpassado e entretecido no ídiche.
Ele permeava o sistema todo pelo qual o menino aschkenazi no heider era alfabetizado
e introduzido na Torá.
Nele se desenrolava o ininterrupto diálogo e debate que, desde a adolescência
e a mocidade na ieschive até o fim de sua vida, o filho de Israel,
nos estudos individuais e nas argumentações em grupo, travava
com a biblioteca que o consagrava, o Tanach e a Mischná, o Talmud
e os midraschim, as Responsa e as ordenações legais, o serminário
e os livros místicos, para cumprir, à risca, os mandamentos
e as mitzves, na letra e no espírito. Mas o vernáculo das Platea
Judaeorum não foi apenas oralizado pela voz de seus habitantes, como,
muito cedo, grafado em caracteres hebraicos portanto naqueles em que
o judeu era alfabetizado, isto é, era letrado. A documentação
subsistente data dos primórdios do dialeto e indica esta textualização
em um copioso repositório bibliográfico de largo espectro.
Toda espécie de escritos, desde os de correspondência até os
de caráter comercial, exegético, homilético, cronístico,
romanesco e poético, encontrou expressão e respaldo neste verbo,
a ponto de se poder falar de uma literatura ídiche muito antes de
ter esse idioma recebido qualquer direito de cidadania culta. Assim, dever-se-ia
concluir que o iidisch-taitsch assumiu logo, com o hebraico e o aramaico,
a função de esteio oral-escritural do universo cultural construído
na esfera de Aschkenaz. Ele se torna componente estrutural desta sociedade.
Esta natureza e função imprimiram-se naturalmente na própria
arquitetura da língua. Mas a evolução e a definição
das características do ídiche não podem ser vistas apenas
ante rem no processo. Cumpre considerar algumas peculiaridades sócio-históricas
da vida judaica, para vislumbrar algo do jogo lingüístico que
de pronto se estabeleceu, que influíram nos rumos que o novo jargão
tomaria. Quando da formação do ídiche, os seus criadores
já constituíam um grupo marcadamente polilingüístico,
pelo menos desde o fim do Primeiro Exílio, uma vez que, conservando
o hebraico, passaram a utilizar-se crescentemente do aramaico, que permaneceu
como canal de comunicação até o ascenso do árabe.
Por isso mesmo, desenvolveram, como atesta a própria literatura talmúdica,
uma sensível capacidade de mixagem integrativa que lhes permitiu incorporar,
no ramo aschkenazi, o ídiche, e no sefardita, mais tarde, o ladino,
como um terceiro idioma qualificador e operador de sua identidade coletiva,
afora os vários dialetos judio-árabes e independentemente das
numerosas línguas contextuais em que se exprimiam por força
de suas dispersões.
Mas como é que funcionava especificamente no gueto ou no schtetl aschkenazi
a interação destas três vozes? O hebraico era a língua
da Torá e da Mischná. O hebraico-aramaico e o aramaico-hebraico,
a do Tahmud de Jerusalém e a do Talmud da Babilônia, respectivamente.
Ambos servindo de base para o que se denominou loschen koidesch, a língua
sagrada, uma composição semítica variável, essencialmente
hebraica, das duas fontes, e formando o vigamento da inflexão prosódica
aschkenazi do hebraico, sendo como tal largamente empregado na veiculação
e geração da literatura hermenêutica e religiosa em geral,
bem como na prosa e na poesia laicas, o que acabou convertendo-o no principal
repertório de que se valeram a renovação literária
da Hascalá e os seus desdobramentos na Modernidade. Todavia, no contexto
original da Judengasse, tanto o hebraico quanto o aramaico só eram
atualizados na leitura ou na escritura, nos comentários, nas preces
e nas prédicas, como elocução dos textos, isto é,
em última análise, constituíam fonte de citações
de maior ou menor extensão, na medida em que eram sempre operados,
mesmo quando compunham o todo da obra interpretada ou do texto redigido,
a partir de um engaste ou de uma mixagem lingüísticos. Pergunta-se,
então: no que eram engastados? No suporte do colóquio e do
taitsch do discurso ídiche corrente. Tal fenômeno parece ter
repercutido profundamente nesta economia trilingual e não deveria
ser relegado a um plano secundário para a compreensão da morfologia
e da sintaxe do ídiche.
Não se pretende aqui, como seria o caso num estudo mais aprofundado,
analisar em termos técnicos os instigantes problemas que o ídiche
propõe à lupa do estudioso. Estes aspectos têm sido objeto
de numerosos trabalhos dedicados aos idiomas dos judeus e, no que tange ao ídiche
em particular, de lingüistas especializados no tema, bem como em línguas
germânicas.
É
de consenso geral entre estes cientistas da linguagem, sejam quais forem
suas escolas ou linhas metodológicas, que os modos sintagmáticos
e paradigmáticos do mame-luschen são de uma flexibilidade e
de uma capacidade de absorção espantosas. Também é opinião
firmada que o seu poder de engendramento lexical, sem perda de padrões
peculiares e inerentes, parece superior ao de muitas línguas hoje
dominantes e consideradas modernas por sua dinâmica interna. Não
será por outro motivo, por exemplo, que o ídiche conheceu,
como poucas línguas, uma ampliação incessante de seu
dicionário vocabular em função do contexto vivido.
Em outras palavras, percebe-se que aquele "desprezível" linguajar
das judiarias do centro- e leste-europeu conseguiu, na sua tipicidade aparentemente
menor e enguetizada, tomar um feitio que é quase o de uma língua- "passaporte",
preservando no seu curso pelas épocas e pelos continentes a aptidão
de continuar a ser ele próprio em meio de tantos outros uma
língua franca, no âmbito de seu próprio isolamento, uma
língua realizada e atualizada por seus locutores no mundo inteiro
e com a internalização desta presença. Na verdade, trata-se
de uma curiosa dialética lingüística em que o fechamento
resultou em abertura, o caracteristicamente nacional no caracteristicamente
internacional, o arcaizante no modernizante.
Nestas condições, poder-se-ia pensar que os esforços
de normalização e normatização que foram empreendidos
a partir dos modelos clássicos das filologias européias, embora
trouxessem por certo grandes contribuições para o estabelecimento
gramatical do ídiche e para a codificação de sua norma
culta, partiam de pressupostos positivistas, nacionalistas e, de certo modo,
redutores das potencialidades deste idioma. Pois, ao classificar, categorizar
e definir, no intento de "normalizá-lo", estava se comprimindo
em alguma medida o espectro de suas possibilidades, em conceitos historicistas
ancorados num passado-princípio, quando a natureza e a dinâmica
do ídiche o situariam preponderantemente no universo dos processamentos
lingüísticos da aldeia global em devir, como sugerem novas pesquisas
apoiadas no moderno instrumental das ciências da linguagem.
Por paradoxal que possa parecer, o ídiche é um dos exemplares
mais inusitados de uma língua estruturalmente moderna, a tal ponto
que nem sequer a destruição da maioria de seus falantes no
Holocausto e, portanto, de sua base fundante, a sociedade e a cultura aschkenazi,
logrou aniquilá-lo por completo. E vemo-lo, hoje, tentando articular-se
a partir de seus destroços, por novos meios e em novos meios, como
os vasos partidos da redenção final na versão luriana,
retomada por W. Benjamin metáfora que pode nos servir talvez
de símbolo para o que estamos agora pretendendo fazer aqui.
* J. Guinsburg é professor de Teoria do Teatro da ECA-USP e autor
de, entre outros livros, de “Aventuras de uma língua errante:
ensaios de literatura e teatro iídiche”, p.25 a p. 36. Editora
Perspectiva, 1996 (Coleção Perspectivas), S. Paulo. 508pp.,
de onde foi retirado o presente texto.
NOTAS
1. Laaz ou, como pretende M. Weinreich, loez, literalmente no primeiro caso "língua
estrangeira", "não-hebraica", e, no segundo, língua
de um "povo estrangeiro". Designação que se estendeu às
glosas e glossários em vernáculos sobretudo românicos,
escritos com caracteres hebraicos, de que se serviam os comentadores judeus
da Idade Média e que constituíram o início do processo
de adaptação do alfabeto hebraico ao ídiche (vocalização,
ditongos, etc.).
2. O francês e o italiano antigos desempenharam também papel
relevante entre os constituintes do ídiche. Seus vestígios
persistem em palavras como: alker = alcove; almer = armoire; bentschen =
benés; pultzel = pucelle; davenen = divisiner; prisant = présent.
E, em nomes próprios, como: Schnoier = Senior; Bunem = Bonhomme; Toltze
= Dolce; Ienti = Gentile; Schprintze = Esperanza.
3. Hebraísmos como din (julgamento); kascher, íd. koscher ("ritualmente
puro" ); iom-tov, íd iontev ("dia de festa"); gan-eden, íd.
gan-eiden ("jardim do Éden, paraíso ); Torá, íd.
Toire ("Lei", "ensinamento"); bem como aramaísmos,
isto é, os dois constituintes lingüísticos semíticos
do que é efetivamente a chamada "língua sagrada",
figuram certamente entre os primeiros componentes do ídiche. Posteriormente,
com o Hassidismo em particular, a participação dos hebraísmos
e dos aramaísmos do discurso religioso aumentou consideravelmente
no vocabulário ídiche.
4. Os eslavismos, além de contribuírem ponderavelmente para
o atual léxico, geraram algumas das construções lingüísticas
mais típicas do ídiche: diminutivos em ker, como altischker
("velhinho"); libinker ("queridinho"); em niu, como tateniu
("paizinho"); bobeniu ("avozinha"); outros sufixos que
se compõem com radicais alemães e/ou eslavos como as desinências
em nik: schlimazlnik ("sujo", "desmazelado") de schlim
(alemão) + mazal (hebraico) + nik (eslavo).