Visão Judaica - Edição N° 30
:. Um informe palestino dos quatro anos de intifada .:

 

Memri - The Middle East Media Research Institute *

Os jornalistas palestinos publicaram recentemente artigos avaliando os quatro anos de intifada nos quais admitiam que o grave dano causado aos palestinos se derivava de sua escolha pelas operações de marítrio/suicidas como método primário de luta. Além disso, o status da Autoridade Palestina como líder do povo palestino se viu minado e as marcas da anarquia na sociedade palestina aumentaram. Algumas narrativas descrevem os palestinos mais próximos da derrota que da vitória, e se queixam da ausência de conquistas políticas, ausência de objetivos e ausencia de planos estratégicos. O que se segue, são resumos dos artigos:

Falta de planejamento estratégico, objetivos e conquistas políticas
Hanna Amirah, membro do conselho executivo da AP e do escritório político do Partido (Comunista) do Povo Palestino, escreve: "A intifada não conseguiu converter-se numa intifada popular ou [em algo que] transcenda fronteiras, como alguns dos líderes [palestinos] queriam. Não conseguiu despertar a identificação árabe e internacional como os palestinos haviam esperado, ou por em marcha um movimento político que pusesse fim à ocupação… A intifada não satisfez os slogans de proporcionar defesa internacional ou o desdobramento dos observadores internacionais, nem romper o monopólio norte-americano sobre um assentamento [Israel]. Não conseguiu levantar o bloqueio em torno do povo palestino e ao seu rais (chefe) eleito, ou deter a construção da barreira de separação…" (1)
Em sua coluna do jornal de propriedade da AP Al-Ayyam, o ex-funcionário veterano do Ministério de Informação Hani Al-Masri escreve: "A intifada está hoje mais próxima da derrota que da vitória… Não há dúvida de que nos encontramos muito distantes de estabelecer um estado livre, independente e de obter o directo de retorno…" (2)
O editor do jornal da AP Al-Hayat Al-Jadida, Hafez Al-Barghuthi escreve: saudamos nossa gente lutadora que mostrou valentia, coragem e sacrifício 100%, mas conseguimos somente 30% dos objetivos. A razão disto é a ausência de planejamento estratégico, uma ausência de unidade nacional, e a carência de governo. A coragem por si só não é suficiente e a valentia sozinha não alcança vitórias. Basta ver ao nosso redor para reconhecer a extensão da derrota que nos atingiu. Não vemos a existência de um governo forte, fações que façam seu trabalho ou uma administração democrática…" (3)
Numa linha similar, o presidente do sindicato dos escritores palestinos, Fayhaa Abd Al-Hadi, escreve: "O núcleo palestino não definiu o objetivo central, não planejou nem organizou. Não cerrou fileiras em torno de uma direção interna que defina as etapas da luta ou determinou um denominador comum que unisse todos os elementos [palestinos]…" (4)
Mohammed Yaghi, colunista do jornal da AP Al-Ayyam e partidário da iniciativa de Genebra, afirma: "[O fato] de que recusássemos aceitar uma decisão como era exigida no informe da [Comissão] Mitchell, ou plano Tenet, ou do Mapa da Estrada não serviu aos nossos interesses, mas aos de Israel. Todo mundo recorda que Israel escolheu do informe Mitchell somente [a parte que tratava] do período de calma para evitar que a comunidade internacional intervisse na implantação das partes restantes do informe. E obteve isto porque recusamos implementar a parte relativa a nós… Com respeito ao mapa da Estrada..., por vários motivos, entre eles cair numa situação de confrontação interna, a AP recusou-se a implementar a parte de segurança do mapa da Estrada… [e isto] deu a Israel um motivo para propor o plano de desligamento…" (5)
Ashraf Al-Ajrami, outro colunista do Al-Ayyam escreve: "A posição política também se derivou [do fato] de que os palestinos não conseguiram envergonhar Israel governado por Sharon, nem encurralá-lo politicamente através da proposição de iniciativas políticas e a proposta de planos em linha com o curso dos acontecimentos e avanços internacionais. E mais, os palestinos é que foram imobilizados num canto, e Israel tomou a iniciativa de cortar os planos internacionais [por um lado] e de outro colocar alternativas que parecem mais aceitáveis…" (6)

A intifada levou à anarquia e à perda de controle
Em sua coluna do jornal Al-Hayat Al-Jadida, Hafez Al-Barghuthi escreve: "Fracassamos em evitar o colapso [no cenário] interno e perdemos o controle da situação, assim que a ocupação e seus generais conseguiram nos arrastar à sua guerra doentia e a obrigar-nos a matar cidadãos para justificar seu massacre de nossos filhos e mulheres… Uma vez que a anarquia e o caos saltam à vista, eliminamos — seja intencionalmente ou não — a autoridade e a mera fundação da AP, e coordenamos com todas as facções para evitar a anarquia, fomos surpreendidos pelo fervoroso impulso para a derrocada e a anarquia… Isto é o resultado tanto da ausência de cuidado como da negligência e a não defesa e os atritos… Temos que admitir com honestidade que fomos derrotados no cenário interno… Perdemos a habilidade de pensar estrategicamente…” (7)
Numa entrevista ao Al-Hayat Al-Jadida, o analista político Hani Habib diz: "A ausência da lei e segurança contribuíram para o aumento da corrupção [e à intensificação] da guerra contra as reformas e seus partidários, [utilizando] a afirmativa de que la resistência à ocupação é o principal em [nossa] lista de prioridades. A intifada distanciou os palestinos das reformas internas e não arrancou nada com respeito ao conflito contra a ocupação. As facções se fizeram mais fortes à custa da regressão da atividade pública…" (8)
O colunista do Al-Ayyam Mohammed Yaghi escreve: "Hoje estamos mais longe de nossos objetivos do que nunca… O enorme número de comandos independentes não deriva da [necessidade de] tratar com a perseguição do núcleo duro da intifada [por Israel], como na primeira intifada. Em seu lugar reflete estratégias [internas] freqüentemente contraditórias, diferentes. Assim, por exemplo, a direção islâmica realiza operações militares dentro de Israel, enquanto a AP as condena. Sem um comando único, governo ou métodos acordados e objetivos, não podemos ter êxito. Se depois de quatro anos as facções e a AP [ainda] estão debatendo os objetivos da intifada e os meios pelos quais alcançá-los, existe um problema real que deve ser reconhecido e tratado". (9)

"Teria sido possível obter bons resultados se os palestinos tivessem adotado o método popular da luta não violenta”
Ghassan Al-Shak'a, membro do conselho executivo da AP, escreve no Al-Quds: "Israel utilizou sabiamente a oportunidade [criada] no 11 de Setembro e voltou a opinião pública mundial contra os palestinos — especialmente nos Estados Unidos e Grã Bretanha, que formam una absoluta afinidade entre a resistência armada palestina e o terror. E mais, o conceito de terror foi associado com os muçulmanos em geral. Teria sido possível obter bons resultados se os palestinos tivessem adotado o método popular da luta não violenta — uma luta organizada que pudesse ser dirigida e controlada. Mas hoje em dia, o mundo inteiro está contra nós e exerce uma pressão terrível sobre o povo palestino e sua determinação. Uma situação na qual o lado palestino não é aceito como parte [das negociações]". (10)
Mohammed Yaghi escreve no Al-Ayyam: "[Um dos fracassos da intifada] é a incapacidade de traçar uma linha entre meios legítimos e ilegítimos de luta. As operações militares [palestinas]… deram ao governo de Israel um pretexto para safar-se de sua responsabilidade [nas suas negociações] com o mundo… e livrou Israel de seu isolamento. Permitiram a pressão contínua sobre o povo palestino e sua administração até o ponto de pedir que seja substituída. Estas ações levaram à equação entre ocupante e ocupado na maioria das resoluções da ONU nos últimos quatro anos. [As operações militares] debilitaram os elementos de paz em Israel que necessitamos, e reforçaram os colonos e a extrema direita de Israel a sua custa. O mais importante é que estas atividades dividiram o povo palestino pelas diferenças de opinião e dissuadiram amplos setores da participação ativa na intifada. Assim, converteu-se numa intifada das elites militares ao invés de uma intifada popular. Isto levou a uma interpretação errônea dos êxitos. Como as declarações [palestinas] referentes a um 'cessar-fogo mútuo', como se houvesse um exército palestino contra um exército israelense, no lugar de descrever a situação como uma confrontação entre exército israelense e povo palestino". (11)
Ashraf Al-Ajrami escreve no Al-Ayyam: "O processo político está parado…, mas os palestinos têm parte da responsabilidade nisto porque contribuíram para criar [as] condições que ajudaram a ganhar a direita de Israel nas eleições por meio da intensificação das operações contra cidadãos israelenses". (12)

“O maior dano é a presença crescente de uma cultura negativa que glorifica a morte”
O colunista do Al-Ayyam Ashraf Al-Ajrami também trata da faceta sócio-cultural do dano causado pela intifada: "O maior dano é a crescente presença de uma cultura negativa que glorifica a morte e trata a realidade como um destino predestinado que alguém não pode evitar, [uma cultura] que prefere uma volta às raízes contrárias ao curso da história num esforço para escapar da complexa realidade e esconder-se atrás de um passado distante.
“ Assim mesmo, os conceitos de distanciamento dos conflitos [e tratá-los como] um crime lançaram raízes. No panorama palestino, os sinais da anarquia e atraso social são predominantes, convertendo a sociedade em tribo e as pessoas em peões, sob a ameaça das armas, às expensas de tudo o que seja cultural em linha com os acontecimentos e construção de um governo político capaz de tratar com os desafios do século XXI…" (13)

Que passos deveriam se tomar para retificar o dano da intifada?
O conselheiro de Yasser Arafat na AP, Bassam Abu Shari propõe "deter o disparo de foguetes contra assentamentos de Israel e restringir a luta contra objetivos militares em todas as partes, incluindo colonos armados, que também são soldados da ocupação". (14)
Ahmad Majdalani, conselheiro do primeiro ministro da AP Ahmad Qurei (Abu Ala'a) e ministro sem pasta, escreve: "Temos que manter o caráter popular da intifada, distanciá-la da militarização da intifada e mudar as formas de luta de resistência. As operações de martírio contra os civis dentro de Israel devem cessar imediatamente [e] deve-se chegar a um acordo com a sociedade israelense denunciando as mentiras e histórias de Israel. Devem ser tiradas as lições da amarga experiência dos anos da intifada, do sofrimento e as vítimas, para melhorar o diálogo até a consolidação de um plano político para uma intifada com objetivos políticos concretos…" (15)
Ghassan Al-Shak'a escreve no Al-Quds: "Dado que a responsabilidade se encontra tanto na AP como nos palestinos, é necessária uma grande coragem para levar a cabo abertamente a 'reavaliação' e não a porta fechada para substituir a lei e a ordem e para manter um diálogo sério que vá aos interesses e não aos sentimentos. Além do mais, deve-se adotar novos métodos de luta compatíveis com a realidade..." (16)
Hafez Al-Barghuthi escreve no Al-Hayat Al-Jadida: "[Temos] que liberar redes e exercer a autocrítica... A intifada não deve continuar meramente para seu próprio bem… Qualquer combate sem um objetivo político é um combate tolo… Chegou o momento em que o sangue dos shahids [mártires] fale e peça pelo fim do fiasco do cenário interno palestino. Chegou o momento em que todas as facções palestinas e da AP respeitem seu povo e o interesse nacional palestino e se aproximem dos interesses do público em geral…" (17)
Mohammed Yaghi escreve no Al-Ayyam: "No que diz respeito aos refugiados, devem esperar muito tempo até que seu problema se resolva. O que nos é oferecido hoje pode resumir-se numa frase: cessar a violência armada. O problema dos refugiados pode esperar". (18)

Notas:
(1) Al-Quds (Jerusalém), 29 de setembro de 2004.
(2) Al-Ayyam (AP), 28 de agosto de 2004.
(3) Al-Hayat Al-Jadida (AP), 28 de setembro de 2004.
(4) Al-Ayyam (AP), 10 de outubro de 2004.
(5) Al-Ayyam (AP), 30 de setembro de 2004.
(6) Al-Ayyam (AP), 1º de outubro de 2004.
(7) Al-Hayat Al-Jadida (AP), 28 de setembro de 2004.
(8) Al-Hayat Al-Jadida (AP), 28 de setembro de 2004.
(9) Al-Ayyam (AP), 30 de setembro de 2004.
(10) Al-Quds (Jerusalém), 27 de setembro de 2004.
(11) Al-Ayyam (AP), 30 de setembro de 2004.
(12) Al-Ayyam (AP), 1º de outubro de 2004.
(13) Al-Ayyam (AP), 1º de outubro de 2004.
(14) Al-Quds (Jerusalém), 15 de outubro de 2004.
(15) Al-Ayyam (AP), 6 de outubro de 2004.
(16) Al-Quds (Jerusalém), 27 de setembro de 2004.
(17) Al-Hayat Al-Jadida (AP), 28 de setembro de 2004.
(18) Al-Ayyam (AP), 30 de setembro de 2004.

* The Middle East Media Research Institute (Memri, ou Instituto de Pesquisa de Mídia no Oriente Médio (MEMRI) é uma organização independente, que não visa lucro, que traduz e analisa os meios de comunicação do Oriente Médio. Despacho Especial Nº 810 – Autoridade Palestina / Projeto de Reforma Este artigo está em http://memri.org/bin/espanol/ultimasnoticias.cgi?ID=SD81004



Voltar